| Monólogo a duas vozes sobre o mundo exterior e interior, o tempo,
o espaço e como as personagens se situam e movimentam. A incomunicabilidade
ou a impossibilidade de comunicar. O tom dos discursos deve ser por vezes
quase monocórdico, quase um falar para dentro, alternando com momentos
fortes, quase violentos. As vozes devem ser tratadas como numa peça
musical. Para além das ideias, está a musicalidade das vozes
como instrumentos musicais.
Personagens
Ela: Mulher magra em fato de viagem. Voz grave, bem colocada.
Ele: Homem moreno com aspecto de nómada. Voz de tenor, bem colocada.
ÚNICA CENA
Estrada com muro de pedra. Carro estacionado. Por detrás do muro,
que se situa ao longo da largura do palco, um biombo em forma de recorte
de montanha. Por cima da montanha, um reflector amarelo que simula o sol.
O fundo do cenário pintado de azul.
A mulher está apoiada no muro à beira da estrada com ar
ausente. O homem está de pé ao seu lado.
ELE
(voz calma, de circunstância)
É isto o fim da estrada
Já não há mais mundo para percorrer
O mundo é demasiado pequeno
ELA
(a olhar as montanhas em frente)
O fim da estrada é dentro de nós
ELE
(sorrindo)
Então porquê esta inquietação toda
este querer mudar de cenário constantemente
ELA
(olhar ausente, voz monocórdica)
Talvez eu não tenha sabido procurar dentro de mim
ELE
(repetindo automaticamente a ideia)
Talvez
ELA
É tudo tão efémero
o tempo o espaço e o que fazemos deles
Somos tão insignificantes e o mundo um lugar quase inabitável
(faz uma pequena pausa, o olhar ainda ausente)
Quando era miúda eu sabia que ia descobrir imensas coisas
o espaço era infinito
o tempo era infinito
Tinha a noção quase física que a vida seria como nos
filmes
e as pessoas eram personagens que não envelheciam e todas tinham
papéis interessantes
Não tinha sequer a noção de ser muito nova ou muito
velha
Não tinha propriamente consciência de mim
como se a minha existência se misturasse com esses sonhos
Nunca me consegui ver em nenhuma das características com que nos
tentam classificar
(volta-se para ele)
Para mim o tempo ficou suspenso
só o espaço sofreu alterações
ficou cada vez mais pequeno
ELE
(fitando-a de frente)
O espaço
Este fim de estrada
Se tivéssemos opção, o que escolheríamos?
Cada um refugia-se como pode onde pode
Para mim foi o espaço
sou uma espécie de nómada
não consigo parar
não consigo sequer imaginar-me sem ser no estado errante
A vida é tão estranha
Andamos à procura de qualquer coisa
da qual não sabemos o nome ou se existe
falamos em "felicidade" ou "realização"
mas não é bem isso
é qualquer coisa de inatingível no tempo de uma vida
nem chegamos a saber se valeu a pena
dizemos que sim por não suportarmos a alternativa
mas não nos convencemos
(desvia o olhar)
Imagino-me sempre a fazer as malas
a partir de viagem
Fugir? É uma alternativa tão boa como qualquer outra
Já nada tem muita importância
ELA
(fitando-o obsessivamente, a voz com mais intensidade, quase dramática)
Já alguma vez teve a consciência física de não
viver
de ter perdido a vida
de ter perdido todo o tempo de uma existência
ELE
(voz firme, de quem discursa, ensaiando alguns passos enquanto fala)
Temos que ser os protagonistas da nossa história
não podemos pegar em papéis secundários
e depois passarmos a vida a culpar os outros
que a peça é fraca, que não resultou
(gesticula enquanto se movimenta)
Mesmo que caminhemos para a decadência
temos que ser nós os "grandes" falhados
ter um papel determinante
Não fazer planos fora do tempo
não fazer planos
Evitar ideias preconcebidas
evitar explicações
tentar olhar de várias perspectivas
ELA
(voz de novo controlada, quase circunstancial)
Construí-me laboriosamente para não abandonar os meus sonhos
construí para mim uma história verosímil
(encostando-se ao muro, a voz monocórdica)
Antes preocupava-me o modo como as pessoas me podiam afectar ou mesmo ferir
agora penso muitas vezes no modo como posso afectar as outras pessoas
podemos feri-las desnecessariamente
e por vezes apenas porque vivemos numa realidade diferente e não
queremos alterar nada
(voz com mais intensidade)
Sacrificamos tudo, tudo, a esses sonhos perdidos
ELE
(a voz muito calma)
Ultimamente sinto como se os meus próprios passos me guiassem
como acontece nos sonhos
quase sem consciência
Andar à deriva e descobrir coisas impressionantes que não
descobriria se as procurasse
ELA
(voz monocórdica)
Agora a casa está abandonada
não sei porque isso me incomoda tanto
porque não consigo apagar essa casa da minha memória
vejo-me sempre lá
Havia um silêncio vivo nessa casa
uma certa claridade
(voz angustiada)
Vi num filme uma rapariga a caminhar numa rua de casas destruídas
depois da guerra
à procura de uma determinada memória
(faz uma pequena pausa)
O lugar que as casas deixam, crateras vazias
as imagens dessas ruínas ao compasso do andar da rapariga
(voz de novo monocórdica)
É horrível pensar assim mas senti que também eu sobrevivi
a uma guerra
uma guerra de uma espécie diferente
ELE
(olhando-a de frente, voz muito calma, quase hipnótica)
Ainda me consigo surpreender com a capacidade que as pessoas têm
de se adaptar a tudo
aceitam tudo até ao limite do suportável
(desviando o olhar)
Houve um tempo em que eu próprio acreditei numa vida organizada
(faz uma pequena pausa)
A família, a minha prisão maior
porque há outras, paralelas, perpendiculares,
mas a família é a primeira, a mais enganosa e ambígua
depois, a selva, a "sociedade"
ELA
(encostando-se ao muro de pedra)
O meu verdadeiro rosto ainda me é inacessível
por detrás dos papéis que represento
A vida não é real
passamos a vida a montar e a desmontar cenários
a representar uma peça, cena após cena
e nem é propriamente para os outros
é para nós próprios
o que é mais estranho ainda
ELE
(o olhar ausente)
Procuro sempre caminhos desconhecidos
ou que penso que me são desconhecidos
nunca repetir os mesmos gestos
nem as mesmas palavras
ELA
(voz com convicção, afirmativa)
Amo a vida
Amo-a demais talvez
ao ponto de detestar viver na simulação e na mediocridade
ao ponto da simulação e da mediocridade me terem levado quase
à loucura
(voz mais pausada e suave)
Houve esse amor antigo
mas o amor não é mais do que uma solidão que se cruza
com outra
a única surpresa no amor é esse encontro
depois há só certezas
ELE
(olhando-a de frente)
Os sonhos das crianças são do tamanho do Universo
da mesma matéria desses astros e planetas
em perfeita sintonia com esses grandes espaços
e à medida que as pessoas crescem os sonhos vão diminuindo
de dimensão
quando chegam a adultos já estão completamente atrofiados
e o pior é que se esqueceram de como eram como se estivessem amnésicos
de todo
Nunca consegui compreender isto
não há explicação que me convença
ELA
(sorrindo)
Então devo ter em mim duas idades
a idade da infância pelo sonho
e a idade da velhice pela ironia
ELE
(voz firme, enquanto dá uns passos)
Registei tantas imagens num recanto do meu cérebro
imensos catálogos de imagens
as mais diversas
e em todas as perspectivas imagináveis
estáticas, em movimento
até ao infinito
como imensos filmes
Se agora cegasse por completo e por qualquer motivo
tinha um repertório de imagens até ao fim da vida
(faz uma pequena pausa)
Como quando sonhamos
é a esse imenso catálogo que as vamos buscar
e compomos novas imagens
ELA
(voz com uma certa ironia)
Não deixa de ser irónico
temos tantas limitações
somos tão vulneráveis
e por um motivo desconhecido
podemos jogar com o tempo e o espaço
misturar tudo
alterar as coisas
manipular as coisas
destruir, reconstruir
viver, morrer
ELE
(a voz compassada)
Este lugar praticamente deserto
tem mais autenticidade
que muitos lugares habitados
ELA
(sorrindo)
Não ter raízes em lado nenhum
não me refiro só ao espaço
mas ao tempo também
ser-se intemporal
ELE
(sorrindo, voz firme)
Ser-se errante
no espaço e no tempo
não nos situarmos no tempo ou no espaço
ter tudo por descobrir
ter consciência de que não se sabe coisa nenhuma
ELA
(a olhar em volta, voz pausada)
O sol ainda está na mesma posição
não desceu nem um milímetro
mantém a mesma distância daquela montanha
ELE
(sorrindo)
O fim da estrada
o sol parado
não é o cenário perfeito
para personagens como nós?
ELA
(fitando-o, os olhos muito abertos, voz angustiada)
Dito assim é assustador
(faz uma pequena pausa)
Enquanto é apenas uma ideia
parece tudo tão inocente
(nova pausa)
Mas nada é inocente
(voz firme, agressiva)
Não se brinca assim com as personagens
esta parte não estava prevista no meu papel
ELE
(voz irónica)
Nada é inocente
e o facto de aceitarmos este papel
também não foi inocente
ELA
(voz firme)
Que ideia mais absurda
Não se trata de aceitar um papel
(faz uma pequena pausa, dá uns passos)
Eu sou apenas uma personagem
e a minha razão de ser está em pegar num papel
(voz agressiva)
Para si pode parecer natural
esta brincadeira absurda
mas eu quero ver aquele sol esconder-se na montanha
ELE
(empoleira-se no carro, estica-se, pega no reflector e coloca-o atrás
da montanha, depois volta-se para a outra personagem, a voz sarcástica,
martelando bem as palavras)
E assim tudo volta ao normal
às nossas vidinhas insípidas
em que o sonho já não tem lugar
(passeia pelo palco gesticulando)
Prometem-nos o papel da nossa vida
onde nos podemos exprimir à vontade
fazer qualquer coisa de verdadeiramente ousado
mas nada acontece
é sempre a mesma coisa
sempre a mesma coisa
(dirige-se para a plateia)
Grandes frases
mas são só ideias
Nada se concretiza
nada muda
nada
E isso é que é horrível
para uma personagem como eu
ELA
(volta-se também para a plateia, voz firme, afirmativa)
Não se pode ser tão pretensioso
ao ponto de querer mudar tudo
Não se brinca assim com uma personagem
As personagens devem ser respeitadas
(faz uma pequena pausa)
Claro que se trata de ideias
apenas ideias
e que nós somos simples personagens
não existimos para mudar nada
podemos sugerir
insinuar
desafiar
Mas cada um é que tem que recriar
o seu papel
(As personagens ficam paradas, estáticas, viradas para a plateia
enquanto a luz se apaga lentamente.)
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