"Frechada" na mosca


No cd "Adonirando", do grupo vocal e instrumental Catavento, de Sorocaba (SP), relê as composições de Adoniran Barbosa


Trecho da música "Samba do Arnesto", do cd Adonirando



Artur Araujo


Resenha publicada no dia 17 de julho de 1997 no jornal Diário do Povo (Campinas / São Paulo / Brasil)



A primeira impressão que se tem quando se coloca o cd Adonirando, do grupo Catavento, é que você errou de disco. Afinal, o que canto gregoriano - aquela música de igreja medieval - tem a ver com Adoniram Barbosa?

Para mim - até ouvir a faixa - nada. Só que eles provaram, com todas as notas da escala musical, que são capazes de dar nó até em pingo d’água, produzindo um trabalho brilhante, inovador e irresistivelmente gostoso de ouvir. Em adoniranês, eles conseguiram frechá o álvaro.

Executar um clássico - tanto da música popular quanto da erudita - é difícil, quase impossível. Por melhor que seja o artista, o mais comum é ou tentar seguir os passos do intérprete que imortalizou a obra ou inovar e decepcionar.

Na primeira situação, a interpretação segue os passos da versão famosa. Aí foi um trabalho inútil, pois nada acrescentou. No segundo caso, a inovação, a releitura, nem sempre dá certo, pois é preciso não só técnica apurada, como também colocar a alma naquilo que se faz.

Adoniram Barbosa nasceu clássico nas vozes dos Demônios da Garoa - grupo que o projetou em 1955, com Saudosa Maloca -. Tanto que pensar nele é lembrar na hora do grupo - tá certo que ele também foi cantado, e muito bem, por outros astros de primeiro time da MPB, como Gal Costa, com sua genial interpretação intimista de Trem das Onze, e Maysa, com Bom Dia Tristeza, ou Elis Regina, com Tiro ao Álvaro, mas o sinônimo de Adoniram é Demônios, com certeza.

Se você é daqueles que, do mesmo modo que eu, considerava impossível ouvir uma nova interpretação interessante da obra de Adoniram, o grupo Catavento conseguiu mostrar que tudo isso é bobagem. Nosso compositor de Valinhos, como todo clássico, é sempre atual, um livro aberto para as novas gerações relerem e reinterpretarem à sua maneira - e o grupo Catavento não deixa nenhuma dúvida a esse respeito.

O cd é uma obra prima. Já nasceu antológico. Apesar de ser uma produção independente, foi feito com grande profissionalismo, que pode ser observado tanto na qualidade do som quanto na produção do encarte, com todas as letras do cd, que apresenta uma excepcional qualidade gráfica.

Para driblar o óbvio, o grupo Catavento fez uma salada genial no arranjo. Misturou influências de grupos vocais como o MPB4 e Os Cariocas com o concretismo do maestro Rogério Duprat - um dos gênios por trás da Tropicália - , o humor de grupos como Premeditando o Breque e Rumo e um certo recheio instrumental pop, com um uso bem inteligente de guitarras e sintetizadores.

Tudo isso junto virou um coquetel sonoro muito sofisticado mas que, ao mesmo tempo, entra fácil no ouvido. Adonirando revisita os melhores momentos do compositor e cria outros, que são as próprias versões do grupo para as músicas.

O Catavento, composto por João Bid, Mingo, Módulo e Abê nos vocais e César Rodrigues no baixo, convidou para o disco Gianfrancesco Guarnieri - impecável em Nóis não usa as blequetais, música que compôs em parceria com o mestre Adoniram -, Jane Duboc - que deu uma contribuição valiosa na faixa Bom dia tristeza - e Lula Barbosa, na música Adonirando - a única cuja autoria não é de Adoniram -, que fecha o disco e dá nome ao trabalho, pontuando a obra com uma justa homenagem ao autor de Saudosa Maloca.

Adonirando, para quem gosta de Adoniram, é imperdível; para quem gosta de MPB e conhece pouco a respeito do artista, é uma chance para gostar e não largar mais; para quem gosta de boa música, o cd é um show de inteligência e criatividade.



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