O Engenheiro do Faraó

 

Conheça o egípcio ImHotep, o primeiro engenheiro da História e seu legado

 

 

André Luiz dos Santos - Engenharia Química-T96

 

ImHotep foi o construtor da primeira pirâmide do Egito, a primeira edificação da Antigüidade de grande porte. Esta matéria publicada na revista Metrópoli nº12 do Grêmio Politécnico da USP conta os problemas e desafios da construção das pirâmides egípcias e como há mais de dois mil anos antes de Cristo os engenheiros do Egito já se deparavam com as questões que ainda preocupam os engenheiros modernos.

 

 

 

Temos conhecimento da História de ImHotep pelo historiador egípcio Manetho. Manetho era um sacerdote que no século III a.c. já em plena decadência da civilização egípcia escreveu uma História do Egito, uma obra hoje perdida mas que foi lida pelos historiadores da antigüidade clássica e seus contemporâneos. Manetho citava ImHotep como o construtor da primeira pirâmide da história. Essa informação foi confirmada modernamente quando arqueólogos explorando a pirâmide de degraus, encontraram no seu interior estátuas de ImHotep e escritos confirmando haver sido ele o construtor.

Contudo carece de mais informações sobre a vida de ImHotep. Viveu no ano 2630AC. Foi o vizir do faraó Djoser da 3* dinastia, isto é, era o mais importante ministro do reino. Escriba, desenvolveu técnicas de construção em pedra talhada e foi feito pelo faraó responsável pela construção de seu túmulo.

ImHotep certamente não tinha em mente a construção de uma pirâmide. A pirâmide projetada por ImHotep adquiriu sua forma atual através de muitas alterações no projeto original. Primeiramente planejava-se um túmulo convencional, uma mastaba, um edifício simples contendo as câmaras funerárias para o sarcófago e os tesouros. Mas o projeto foi ampliando-se, a mastaba foi ficando maior, ganhando degraus e complexidade, templos funerários anexos foram construídos e todo uma série de cálculos e técnicas foram desenvolvidas para erguer e sustentar a estrutura.

A pirâmide ficou pronta. Tem 140 X 118m de base e 60m de altura. Foi impressionante o sucesso da grandiosidade inédita da obra para a época. ImHotep ficou famoso em todo Egito. Tão prestigiado e consagrado foi o primeiro engenheiro, que após a morte, ImHotep foi considerado um deus. Um deus filho de Ptah, o deus supremo de Mênfis, com uma mulher mortal. O divinizado ImHotep em toda a história de Egito foi cultuado com templos e sacerdotes. Segundo o pensamento dos egípcios, alguém que pudesse organizar a construção de um projeto tão ousado e tão complexo, só poderia ser uma divindade.

 

 

As Pirâmides: um problema antigo da engenharia moderna

 

 A primeira pirâmide foi feita na 3* dinastia por ordens do faraó Netjerykhet-Djoser e projetada por ImHotep. Ela se encontra no deserto perto da aldeia moderna de Saqquara. Logo os sucessores de Djoser também desejaram a sua, e o legado do já divino ImHotep continuou.

Iniciou-se no Egito verdadeiras escolas de Engenharia de Pirâmides, onde os escribas aprendiam as técnicas de construção a pedra, arregimentavam operários para a obra, controlavam a chegada de materiais das pedreiras via Nilo, efetuavam os cálculos e medições de altura e ângulos, projetavam o posicionamento das câmaras dentro da estrutura e o local para a construção da pirâmide, tudo com o patrocínio do faraó reinante.

Os sucessores de ImHotep foram aprimorando as técnicas e os projetos foram de tornando mais ousados e monumentais. A pirâmide de degraus de Djoser evoluiu para a tradicional pirâmide de face lisa. A pirâmide de face lisa é formada internamente por uma pirâmide de degraus revestida por fora com a face inclinada. A primeira pirâmide assim foi construída por Huni, último faraó da 3* dinastia, mas foi concluída pelo primeiro faraó da 4* dinastia, Snefru no sítio arqueológico de Maidum.. A pirâmide de Huni começou como uma pirâmide tradicional de degraus, posteriormente revestida com a face lisa.

Contudo, talvez pela inexperiência com o novo desenho, os engenheiros erraram no método de colocação das pedras do revestimento exterior, e nas bases da sua estrutura. Em conseqüência destas deficiências de construção, a pirâmide cedeu e as suas paredes lisas exteriores desmoronaram. Os arqueólogos ainda não conseguiram descobrir a data exata da catástrofe, nem como isso influenciou as técnicas de construção posteriores, mas da pirâmide de Huni só restam a torre interna de degraus circundada por grandes camadas de escombros do revestimento colapsado.

A 4* dinastia foi o apogeu da engenharia egípcia. O faraó Snefru após terminar a pirâmide de seu predecessor, ordenou o começo da construção da sua própria, atualmente num local perto da vila moderna de Dahshur. Tinha cerca de 183,5m na base. Contudo, também esta pirâmide apresentou problemas. Quando a estrutura atingia a metade de sua altura prevista, a inclinação de suas faces exteriores foi muito reduzida, o ângulo de 54* 27' 44'' foi reduzido para 43* 27' , o que deixou a pirâmide com uma silhueta "torta". Alguns arqueólogos especulam se não foi durante esta construção que ocorreu o desabamento da pirâmide de Huni, e provocou uma revisão dos cálculos pelos seus engenheiros, provocando a mudança da inclinação e aprimoramento nas técnicas de colocação dos blocos. Mas Snefru possivelmente não ficou satisfeito com a Pirâmide Torta e mandou construírem outra, a cerca de 2km da antiga. A nova pirâmide mantém no revestimento o ângulo de 43* 27' da metade superior da Pirâmide Torta, possui uma base quadrada de 220m, tem 104m de altura e é revestida exteriormente de granito vermelho, o que justificou seu nome de a Pirâmide Vermelha. Mantém-se estável até hoje assim como sua predecessora.

A resolução dos problemas com as pirâmides na época de Snefru possibilitou um grande desenvolvimento das técnicas de construção. Beneficiou-se seu sucessor, o faraó Quéops, com a sua pirâmide, a maior já feita e até o fim da história egípcia insuperada, em Gizé. A pirâmide de Quéops foi um assombroso projeto que até hoje se mantém., base de 230m e 146m de altura, inclinação de 51* 50' 35'' nas suas faces. Levou 23 anos para ser concluída, estima-se que foram necessários serem trazidos em média 285 blocos de 2,5 t de granito por dia para o local da obra. Até hoje, muitas teorias tem sido propostas para explicar a construção da estrutura, mas ainda tanto a moderna engenharia e arqueologia não possuem respostas definitivas.

O filho de Quéops, Quéfren construiu sua pirâmide próxima do pai também em Gizé. Um projeto menor, com apenas 214,5m de base. Mas como a inclinação era maior ( 53* 7' 48'' ) a altura final de 143m acabou a fazendo comparável a de Quéops. Quéfren construiu também a esfinge junto ao complexo de templos funerários e pirâmides menores das rainhas ao redor das grandes pirâmides. O faraó Miquerinos também da 4* dinastia teve sua pirâmide em Gizé. É a menor das três pirâmides, com apenas 105m de base, altura de 65,5m e inclinação de 51* 20' 25'' . Contudo a morte de Miquerinos antes do fim da construção, obrigou a pirâmide ser terminada às pressas com tijolos de barro ao invés dos blocos de pedra.

Durante a 5* dinastia a construção continuou, porém com projetos mais modestos. Contudo a forma de construção se alterou. As pirâmides ficaram mais artísticas e menos técnicas, mais preocupadas com a beleza externa dos materiais e relevos do que estruturas internas sólidas. As pirâmides dos faraós Userkaf e Sahure, por exemplo, foram feitas em calcário, ao invés de granito usado anteriormente. Internamente, as pirâmides não continham mais uma torre compacta e resistente, mas paredes de alvenaria preenchidas com entulho, que eram escondidos sobre a face lisa de calcário. Esses métodos apesar de mais rápidos e econômicos, não se comparavam aos antigos, além do usos de um material menos resistente. Como resultado, as pirâmides da 5* dinastia em diante estão em ruínas.

A 12* dinastia foi o último período da construção de pirâmides, século XVII AC. As pirâmides se provaram ser pouco seguras para resguardar os túmulos reais, atraindo os ladrões, e fatalmente em períodos de instabilidade política, as pirâmides foram saquedas.

As pirâmide refletem um antigo drama da engenharia e levanta problemas ainda atuais. Até onde é válida a elaboração de ousados projetos, a alocação de recursos de um Estado para a sua construção, sem resultados concretos para a sociedade? E o que não dizer sobre o dilema entre conciliar custo com qualidade de materiais e projetos, e novas técnicas que devem ser desenvolvidas, muitas vezes sem poder esperar por "tentativa e erro" que sejam as soluções adequadas (a pirâmide de Huni e a pirâmide torta são tristes e dispendiosos exemplos.).

Enfim, as pirâmides, mesmo construídas há muito tempo no passado, suscitam questões que até hoje afligem os engenheiros... questões estas que, aliás, afligirão engenheiros de todos os tempos... problemas já antigos da nossa engenharia moderna.

 

 

 OBS: Este texto pode ser reproduzido desde que citado o autor e a fonte: Revista Metrópoli nº13 do Grêmio Politécnico da USP

 

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