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Vishnu                      Filosofias da Índia

    Extraído de Filosofias da Índia, de Heinrich Zimmer, compilado por Joseph Campbell - Editora Palas Athena.

O bem supremo

O encontro de oriente e ocidente

A verdade aparece de forma diferente em cada época e em cada terra de acordo com a matéria viva na qual se forjam seus próprios símbolos. Os símbolos conduzem a mente à verdade, mas não são a verdade, daí ser enganoso adotá-los. Cada civilização, cada época deve fecundar e conceber seus próprios símbolos.

A principal finalidade do pensamento indiano é integrar na consciência o que as forças da vida recusaram e ocultaram, não é explorar e descrever o mundo invisível. A preocupação fundamental da Índia - em contraste com os interesses dos modernos filósofos ocidentais - foi sempre a transformação, e não a informação; uma mudança radical da natureza humana, e com isto uma renovação na sua compreensão do mundo exterior e também de sua própria existência. As atitudes entre o mestre hindu e seu discípulo produzem uma transmutação alquímica, não pela compreensão intelectual mas por uma mudança de coração. Essa idéia pedagógica é ilustrada pela  fábula do tigre.

Durante o século VIII a.C. o foco de atenção do pensamento indiano se deslocou do universo exterior para o interior. Conhecer as coisas impermanentes é ilusão, sustentada pelas paixões. O conhecimento é obtido pela introversão, que liga ao substrato de toda substância. Os sábios da Índia nunca pretenderam que seus ensinamentos fossem populares, só no século XX seus textos foram editados. Seus ensinamentos são esotéricos.

No Vedanta, maya (de onde magia: produção de ilusões) denota a insubstancialidade do mundo e da mente. Não significa que o mundo externo e o eu são inexistentes. Também filósofos ocidentais se ocuparam com problemas além do senso comum. Sabem que a verdade está no silêncio além das palavras. O pensamento lógico é inadequado para compreender tanto o hinduísmo quanto o budismo. A força responsável por nossos problemas cotidianos, construtora do ego, é a ignorância, que não é irreal nem real, é efêmera - mas existe desde tempo imemorial, embora mutável - e é a causa e substância do tempo. Para a filosofia indiana a tarefa primordial e irrecusável do homem é compreender como maya cria o mundo e o eu, e transcender seu feitiço descortinando as camadas da aparência sensível e irrompendo através dos estratos intelectual e emocional da psique.

As experiências que a mente pode ter da realidade ultrapassam a esfera do pensamento, e só podem ser expressas por metáforas e imagens mitológicas. Na Grécia, os pensadores pré-socráticos amoldaram a solução dos enigmas do universo à lógica das ciências naturais e das matemáticas, transformando os deuses em temas divertidos. Na Índia a mitologia leva às massas os ensinamentos filosóficos. A amizade entre mitologia e filosofia refreia a tendência da filosofia indiana para o esotérico, apartada da vida e da tarefa de educar a sociedade.

Os orientalistas do fim do século XIX interpretavam os textos numa base filológica, mas a partir de Dilthey se incorporou as filosofias da Índia e da China numa história mais ampla do pensamento humano. As fórmulas para o estudo da história cunhadas por Hegel consideravam Índia e China prelúdios para a "verdadeira" história, que começa no Oriente Próximo, e "verdadeira" filosofia, invenção dos gregos. Aos sistemas orientais falta o contato com as ciências naturais, seu método crítico, sua concepção secular do homem e do mundo.

É verdade que a filosofia indiana só poderia ser comparada ao pensamento cristão da Idade Média, quando a filosofia era serva do dogma. As filosofias grega e da Idade Moderna libertaram o pensamento das doutrinas religiosas. A filosofia ocidental guarda o pensamento crítico e sem preconceitos, contra o subjetivismo e especulação indisciplinada. Já o pensamento oriental tem um reverente tradicionalismo, uma submissão aos mestres que tiveram contato direto com a realidade transcendental. Nunca na Índia houve afinidade entre ciência natural e filosofia.

Desde Francis Bacon o pensamento ocidental foi estabalecido pelo progresso das ciências racionais. Mesmo na Antigüidade, os filósofos pré-socráticos se distinguiram tanto nas ciências como na especulação filosófica. Pitágoras aplicou suas descobertas experimentais sobre os intervalos musicais à interpretação da estrutura do cosmo. À queda do tradicionalismo seguiram-se uma série de revoluções intelectuais que foram o protótipo espiritual do colapso dos sistemas sociais, como a Revolução Francesa. A filosofia indiana, porém, foi auxiliada e renovada não pelas experiências de laboratório mas pelas vivências interiores da prática da Yoga. Filosofia e religiões populares têm se reforçado mutuamente. Mas existe na Índia uma filosofia cujos objetivos são os mesmos de Plotino, Mestre Eckhart, Empédocles, Pitágoras, Parmênides, Heráclito.
Não há uma palavra sânscrita que abarque todo o "filosófico". Os hindus classificam de vários modos os pensamentos que consideram dignos de transmitir. O primeiro e mais importante é o das quatro metas da vida humana.
    1. Artha, a primeira, se refere às posses materiais, que permitem cumprir os deveres familiares, religiosos e sociais; no mundo da psique é o propósito, desejo. Artha é:
        1) o objeto da busca humana;
        2) os meios para essa busca;
        3) as necessidades e desejos sugeridos por essa busca.
Inclui as leis da política, economia, diplomacia e guerra, apresentadas como tratados ou secamente na forma de fábulas de animais. Dessas fontes se extrai uma filosofia prática de vida, absolutamente realista, e uma teoria da diplomacia notável.
     2. Kama, a segunda, é o prazer e o amor. Esses ensinamentos técnicos visam evitar a frustração na vida conjugal, numa época em que os casamentos eram realizados pelos horóscopos e pelas negociações entre famílias. Mas há também um manual para profissionais de dança que mostra o conhecimento de uma profunda psicologia das emoções.
    3. Dharma, a terceira, os deveres religiosos e morais. Os livros evoluem das prescrições ritualísticas e sociais para os jurídicos, que formulam, meticulosamente, rituais e regras das três castas superiores: sacerdote, nobre e mercador ou agricultor.
    4. Moksa, a quarta meta, é a liberação espiritual. Artha, kama e dharma são ocupações mundanas, mas a maior parte dos escritos indianos se dedica à libertação. "Aquele que conhece o objeto supremo" é traduzido por filósofo.

Moksa só pode ser entendida no contexto da Índia tradicional. Não uma refutação, é o coroamento do homem triunfante, que cumpriu na primeira etapa da vida seus deveres. Segundo o dharma hindu, a vida tem quatro etapas: a primeira é a do estudante, a segunda é a do chefe de família exercendo seu papel no mundo. A terceira é a do retiro para meditação e a quarta é a do sábio errante. Moksa é só para os dois últimos.

O ocidente não tem metafísica desde meados do século XVIII. Nossas mentes materialistas desenvolveram uma concepção otimista da evolução e do nosso controle sobre a natureza. Acreditámos sucessivamente na ilustração, no progresso social e material, e na organização e planejamento. Temos nossa lógica da ciência e a psicologia, mas nos falta a metafísica. Estamos plenamente satisfeitos com artha, kama e dharma. O pensamento ocidental tornou-se de todo exotérico.

Os fundamentos da filosofia indiana

A filosofia é um modo de vida. O discípulo aprende na prática as técnicas, e por instrução oral e estudo dos manuais aprende a teoria. Há uma “transferência” psicológica entre mestre e discípulo. A vida do mestre corresponde ponto por ponto a seus ensinamentos. Realizando esses ritos o discípulo irá, após a morte, para um dos céus, mas não é esse o resultado desejável. Ele aspira ver através da ilusão; renuncia à recompensa por saber que não é ele quem atua, é o Eu espiritual que há nele e em todas as coisas.
Todo ensinamento no oriente visa comunicar um poder. O poder assume muitas formas. No homem está no seu âmago, latente.
Brahman pode ser traduzido por Poder Sagrado. Conceito mais singular e importante da filosofia hindu, sua tradução é, no entanto, difícil. A técnica para descobrir a acepção de um termo (naman) e também a natureza essencial de um objeto (rupa) é examinar a etimologia.
Man é a forma substantiva de ação (como atman, karman, naman) Brh é um verbo; significa crescer, expandir, rugir. Corresponde ao posterior shakti: energia, força, poder, potência.
Brahman é o transcendente. O hóspede divino no corpo mortal; se identifica com o Eu (atman). Não é a psique, com seus pensamentos, emoções e elementos similares à consciência do ego; é o Eu anônimo (em contraposição ao eu, ego), distante da biografia da personalidade, seu invólucro.
Brahman é princípio criador e que tudo anima, mas só o sábio mago se dedica a tornar consciente em si e conscientemente manifesto em ação o que nos outros se acha profundamente oculto. O que permite ao sacerdote fazer brotar essas águas e viver nelas é a técnica iogue. Todos habitamos na margem do oceano infinito de força vital. Esse manancial esquecido e abissal não pode ser burlado ou abolido. Os exercícios espirituais indianos se dedicam a descobrir e beber dessa água.
Tornar-se divino ainda na terra é o tema de muitos mitos, como o mesopotâmico de Gilgamesh e a planta da imortalidade; o arturiano de Owein e a flonte da vida; o de Parsifal e o santo graal. Hércules venceu Cérbero, Jasão conquistou o velocino de ouro, Orfeu buscou Eurídice. O imperador Shih Huang enviou uma expedição à Ilha dos Bem-aventurados, para buscar a planta da imortalidade. Os alquimistas medievais buscavam a pedra filosofal - como Brahman materializado. O herói polinésio Maui morreu na gargante de Hinenui-te-po, tentando conseguir para o homem a imortalidade.
A filosofia indiana corrobora os símbolos mitológicos. Se as condições de vida na Índia tivessem sido um pouco menos desesperadoras, talvez esse vôo dentro do transcendente não tivesse ocorrido. A liberação é a principal preocupação só quando a existência normal já não oferece esperança, nenhuma meta que estimule, só deveres. A filosofia política cruel e as façanhas metafísicas são verso e reverso da experiência de vida miserável em sua história.

As filosofias do tempo

A filosofia do êxito

A fábula do gato e o rato dá uma idéia do realismo frio e cínico da teoria política da Índia. A política internacional do mundo inteiro é amoral ou pré-moral, como era no primeiro milênio a.C.
A filosofia política hindu foi compilada por brâmanes astutos para orientar ministros e chanceleres, a maioria dessa casta. São tratados técnicos e minuciosos, para profissionais - como os manuais para os outros ofícios indianos: carpintaria, medicina, feitiçaria, sacerdócio ou dança. A tradição popular das fábulas é paralela aos tratados. Sob o disfarce do reino animal aparecem os problemas da política e mesmo das questões menores da vida diária. La Fontaine popularizou muitas delas, mas é do século XIII a tradução latina, feita da hebréia, que viera da árabe, que fora traduzida do persa, e esta do sânscrito. Já os tratados só chegaram ao ocidente no começo do século XX.

O ditador monárquico solitário apoiado por vasta máquina militar e monstruoso sistema de espionagem - é o mundo descrito nos tratados. O modelo para esse despotismo foi o império persa de Ciro. As dinastias da Índia foram cópias fiéis desse modelo, de escravidão pela força, delação, envenenamento - o que explica a tendência a libertar-se da vida secular.
Nos séculos VI e V a.C. as estruturas feudais arianas estavam se desintegrando, o que abriu caminho para o duro estilo persa: pequenos reinos e cidades lutavam pela supremacia, num caos que gerou a unificação forçada. O antigo ideal nativo do Chakravartin (divino imperador do mundo) seria parodiado por uma administração opressora. Os reis hindus posteriores não estavam no poder por ação do supremo Senhor do universo, mas de Lakshmi, a volúvel deusa da Fortuna - ligada não à virtude, mas ao giro da roda do tempo.
A filosofia dos reis era fatalista, cética e realista.

Uma controvérsia antiga está presente em toda a literatura da Índia.
Qual o fator mais decisivo na luta pela sobrevivência e o êxito: o valor pessoal ou o simples curso do tempo?
Alguns defendem o herói que nunca se rende, cujo valor domina o destino. Outros argumentam que mesmo os deuses venceram os antideuses porque o tempo os favorecia, mas o tempo dá voltas e eles serão destronados. Mas ambos concordam que os deuses não estão em melhor posição que os indivíduos humanos.
Daiva (aquilo que está relacionado com os deuses), destino, é uma força anterior aos deuses, não pode ser atingida pela oração, encantamentos ou sacrifício. Não há ideais que consolam, nem deuses que defendem, nem ilusões de que as instituições sobreviverão ao indivíduo. A alma individual continuará no ciclo de morte e reencarnação, esquecendo sempre o que já experimentou antes.
O déspota hindu abandonado pela Fortuna, pelo destino e pelo tempo, é como Napoleão em Santa Helena. A diferença é que o homem de ação do ocidente se considera instrumento de um plano evolutivo da humanidade; o déspota hindu é o detentor temporário do poder despótico, para si próprio e aqueles a quem pode pagar ou ameaçar.
O sagrado na Índia não pertence ao rei - da casta dos guerreiros - mas ao sacerdote, intermediário entre o divino e o humano. Ao rei concernem seu destino e sua agonia.

No período dravídico (pré-ário), entre o quarto e o segundo milênios a.C., os reis eram descendentes do deus Sol ou do deus Lua. Nos períodos védico e feudal (descrito no Mahabharata) os reis eram da casta guerreira, inferior à dos sacerdotes. Mas nos séculos VII e VI a.C. a desagregação da sociedade feudal faz cair a força dos guerreiros devido às guerras internas. Homens de procedências diversas chegam ao poder: descendentes de reis dravídicos mas principalmente soldados de castas inferiores, muitos criminosos. É a Kali-yuga, onde o reinado perde a dignidade espiritual.
Na Índia pós-feudal o princípio da realeza não era questionado, mas ninguém se importava se mudava o rei - este tinha que cuidar de si mesmo.
O rei confiava nos oficiais em posição de comando e em suas próprias fortuna e astúcia. O povo era um conglomerado de súditos divididos em grupos por casta, seita e raça. Indefeso contra um governante egoísta, incapaz de apoiar um rei benevolente.
O ministro capaz vivia o dilema de demonstrar sua eficiência sem se tornar supérfluo por ser eficiente demais - como na fábula do leão, o gato e o rato.
Este é um dos segredos da polícia secreta de todos os países. Os subversivos idealistas alimentam a ilusão de serem menos visíveis do que são.
Na política externa os ensinamentos hindus propunham o ataque traiçoeiro e repentino. As forças derrotadas deviam ser eliminadas. A história recente mostra que as técnicas modernas são as mesmas.
O rei está sempre alerta, sempre se sente em perigo.

Mandala é o círculo político de estados vizinhos. Nos últimos duzentos anos a Inglaterra se mostrou hábil nessa arena.
A Índia era feita de reinos cercados por inimigos por todos os lados - os Bálcãs em escala maior.
Cada rei deve considerar seu reino como centro de um alvo, cercado por “anéis” alternados de inimigos e aliados naturais. Cada anel é subdividido, já que cada reino é centro de uma mandala. Esse plano mostra certo equilíbrio e tensão entre forças.
Essa geometria se aplica a todo cenário histórico mundial. A geometria é mais forte que moral, religião, ideologia e tradição espiritual comum: o vizinho que está atrás ou nas laterais do nosso inimigo imediato é nosso amigo inato.
Quando uma configuração do mandala é desfeita, a próxima se manifestará no seu devido tempo.

As sete maneiras de se aproximar de um vizinho

O rei universal

A filosofia do prazer

A filosofia do dever

A casta e as quatro etapas da vida

Satya

Satyagraha

O palácio da sabedoria

As filosofias da eternidade

Jainismo

Parsva

Imagens jaina

Os autores da travessia

As qualidades da matéria

A máscara da personalidade

O homem cósmico

A doutrina jaina da escravidão

A doutrina jaina da liberação

A doutrina de Maskarin Gosala

O homem contra a natureza

Sankhya e yoga

Kapila e Patanjali

A concentração introvertida

Os obstáculos

Integridade e integração

Psicologia Sankhya

Bramanismo

Veda

Upanisad

Bhagavad Gita

Vedanta

Budismo

O conhecimento búdico

Os grandes reis budistas

Hinayana e Mahayana

O caminho do Bodhisattva

O grande júbilo

Tantra

Quem busca o nirvana?

O cordeiro, o herói e o homem-Deus

Todos os deuses estão em nós

Os seis sistemas

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Autora desta página: Lígia Prado.

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