
Assim como o pequeno Stephan, Marcelo Maldonado Gomes Peixoto é um cara cascudo. Seu jeito de cantar costuma ser definido como uma atualização da famosa malandragem que o Rio e o Brasil permitem para quem nasceu nas últimas três decadas não tem nada do glamour original. D2 trabalha desde os 13 anos. Foi entregador de jornal, office-boy, porteiro, servente de botequim, vendedor de loja de móveis, camelô, faxineiro de uma casa de shows subunderground... Casou cedo, com 19 anos, serviu no Exército, já foi assaltado dentro de um ônibus no Estácio (ora, veja!) e parou de beber cachaça antes de completar 30 anos.
Num bar do catete, bairro classe média baixa do Rio, onde morou a maior parte da sua vida adulta, ele bebeu meia-dúzia de cervejas com SHOWBIZZ e contou sua história. Uma narrativa que resvala toda hora em samba, futebol, droga e delinquencia, quatro assuntos que, queiram ou não, estão no cotidiano da maior parte dos jovens brasileiros.
Os pais se conheceram no trabalho, numa fábrica de tecidos. Dark Gomes Peixoto ("Ia ser Joana Dark, e nasceu homem", conta Marcelo, sem rir) era o chefe do departamento pessoal. A mãe era costureira. A cegonha poderia ter deixado o rapper em Madureira, onde morava o casal, mas dona Paulete preferiu dar à luz num hospital em São Cristovão. Em 1967, nascer em casa, nem filho e pobre. Suburbano de pai e mãe (Dark nasceu na Abolição; Paulete é de Padre Miguel), o garoto cresceu em Maria da Graça. Aos 9 anos, porém, foi morar no Andaraí, nome que hoje costuma aparecer nos jornais quando o traficante café, cacique local, bate de frente com a PM. Em outubro, três pessoas morreram e três garotos de 15 anos foram feridos ali em tiroteio. Em setembro, uma bala perdida matou um office-boy que prestava serviços à sucursal da FOLHA DE S. PAULO.
Marcelo não foi morar no morro - sua casa ficava no asfalto - e nunca passou fome, mas era vizinho da marginalidade. Precisou aprender rápido algumas lições. "Eu já tinha vivido ali até os 4 anos. Mas quando voltei, aos 9, não conhecia mais ninguém. Minha mãe me mandou ir na padaria. Ia voltando com um saco de leite, os moleques da rua me agarraram, queriam 'meter' ( roubar ) o leite. Sai correndo, me agarraram, um tava com um canivete e cortou meu peito. "A cicatriz está lá ainda, perto duma tatuagem com o nome de Stephan feita em Caxias, Grande Rio.
Dona Paulete foi falar com a mãe do menino que agrediu seu filho. "A gente passou a jogar bola juntos e ficamos amigos", completa Marcelo. Boa-praça e com jeito para o futebol, o garoto conseguiu se impor. Ficou abusado, até. "Fui o mó brigão, cara. Sempre magrinho, mas eu batia forte e saia correndo. "Tirado a valente, o rapazote arisco por pouco não ficou cego. "O 454, Grajaú-Leblon, era o ônibus da porrada. Indo para a praia, a galera do Andaraí entrava antes. Quando passava no Estácio, subia outra galera tocando o terror. Uma vez, tava eu e um camarada, o Gaguinho. Entrou aquele 'mulão' (bando grande) já metendo a porrada. Quebraram o vidro do ônibus, um cara pegou um cacão e quis me cortar na cara. Me lembro bem desta cena: eu cai sentado e na hora H o cara resolveu me cortar só na perna."
Marcelo quebrou catorze vezes a cabeça - a maior parte delas andando de skate. Roubou umas outras tantas."Diversão de guri. Saía de casa e ficava metendo o dia todo. Sapasso, Lojas Americanas, C&A... Saía de chinelo, voltava de tênis e mochila nas costas. Minha mãe só perguntava: "Onde foi que voce arranjou isso?" Mãe é aquela coisa, acha que "não, meu filho não faz essas coisas". Coitada, santa! Me batia pra c***, metia a porrada... Paulete, gente boa, mó sossegada..."
O bom filho fala sem ironia. Sabe que mereceu cada bordoada. Estrutura familiar, pelo menos naquela época, não faltava. Os pais, zelosos, não deixavam Marcelinho ir aos cultos de umbanda que frequentavam. "Minha irmã Carla (seis anos mais nova) uma vez viu a mãe pegar santo e ficou traumatizada. Então eu só podia ir no Dia da Criança. Meu pai me botava em pé em cima dum banco e eu ficava lá.7 anos, batucando feito um doido."
Seu Dark chegou a passar um ano desempregado, mas nunca faltou um ovinho, um arroz com feijão no jantar. Num Natal mais pobre, ele inventou brinquedos de papel para Marcelo e a irmã. Em épocas boas, fazia questão de passar para o filho o amor por sua escola de samba. "Até os 9 anos, fui mangueirense. Depois comecei a ir muito a Padre Miguel, na casa da minha avó, e virei casaca. Era a época da bateria do Mestre André,pô!"
Mais que qualquer baticundum, importava a farra: sair nos blocos de clóvis fazendo arruaça pela rua e chegar em casa com o dia clareando, glória máxima para um pivetinho de 11 anos. "A gente andava por todo Realengo, Bangu, e só voltava as 6 da manha."
Também era de lei para papai Dark levar o garoto ao Maracanã para ver o Flamengo. Bom de bola. Marcelo, claro, idolatrava Zico acima de qualquer entidade religiosa. Quando resolver enveredar por outro ramo de pivetagem, a pichação, quis homenagear o craque. Na estréia pelos muros, porém, uma "sujada" inoportuna o impediu de concluir o serviço. Acabou ficando conhecido no bairro como Zic. A empolgação com os sprays de tinha bateu de frente com o desinteresse pelo estudo. "Estudava na Escola Municipal Panamá, no Grajaú, e a galera do Andaraí tocava o terror. Um dia, a gente pichou todas as paredes do colégio. Só que eu pichei o meu nome e a minha turma: Marcelo da 501. Fui expulso. Até a 6º série, ainda fui bom aluno. Aí comecei a zoar, o barraco, foi quando meus pais se separaram."
Cada vez mais delinquente, ele tinha lá seus limites éticos. "Nunca 'meti' nada de neguinho. Andava com um moleque que tinha uma onda de parar os outros na rua assim: "Me dá o relógio!" A gente conbinava: "Vamos lanchar no McDonald's? E ele virava pro lado e gritava com alguém: "Ô, vem cá, dá um dinheiro aí!" Eu não gostava daquilo, ficava com pena."
Zic tentava conciliar atividades lalatórias com o lado artístico incipiente. "Uma vez no supermercado Carrefour, na Barra. Lembro bem, estava tocando "Beat it" do Michael Jackson... (ri sozinho). A gente entrou, peguei uma camisa, escondi na calça. Falei pro peixe, meu amigo, que estava com uma mochila: "Com essa cara de neguinho" - ele era bem escuro - "vão te dar uma dura com certeza".Travaram ele e eu fui saindo de costas, dançando que nem o Michael Jackson. O segurança - VUM! - me deu um tapa. Nos fez tirar a calça, pegou a camisa e começou a dar cascudo. A gente gritava: "ai,ai, moço. Ai,ai, moço"
Com 13 anos, Marcelo ficava até 72 horas sem aparecer em casa. "Um dia, meu pai nem morava mais com minha mãe, eu cheguei em casa e ele tava lá. "Tú é homem já, fica cheirando essas coisas, fumando esses negócios, bebendo cachaça... "BUM! Me deu socão na cara. Só vou te bater como homem, não como pai, voce tá zoando o barraco da sua mãe! "Ele nunca tinha sido de me bater. Mas eu achava que era homem e andava na bandidagem, foi muito justo."
Mais ou menos por aí foi que o garoto começou a se emendar. E a trabalhar. Entregador de jornais, porteiro, office-boy, montador de decorações nos camarotes do sambódromo... Quando a mãe se casou de novo, brigou com o padrasto e saiu de casa. "Coisa de moleque. Hoje me dou super bem com ele." Marcelo foi morar no catete, junto com o pai. Uma saída estratégica, já que boa parte dos moleques da idade dele estava virando trafica. "Saí porque estava mó sujeira, tá ligado? Voce vai ficando mais adolescente, mais homem, é foda. Um conhecido meu morreu. Aí diziam: "Ih, caralho, morreu o primeiro". Depois foi outro, irmão desse camarada meu, o Peixe, que era meu melhor amigo. Aliás, esteve preso."
Se Marcelo chegou a fazer aviãozinho? "Todo mundo fazia. Eu morava no último número da Rua Paula Brito. Quando acaba o asfalto, vira paralelepípedo, tem uma curva, é a subida do morro, a escadinha. Eu morava no pé da escadinha. A gente ficava jogando bola ali, sempre chegava uma galera de carro. A gente falava: "Quer que eu vá lá?" Aí subia e pegava a parada pro cara. Depois, ficando mais velho, já aprendia a malhar."
No Catete, longe disso, o problema era outro: dividir uma quitinete com o pai e uma amiga do pai. "Eu com 14 anos, mó treta. Tirava o tênis e era aquele chulé...(risos). A mulher reclamava demais." Marcelo morava ali apenas oficialmente, vivia na casa de amigos. "Deixava a roupa lá, ficava uma semana sumido." Com o tempo, parou de pichar, serviu no Éxercito, arrumou um emprego estável como vendedor de uma loja de móveis ali no bairro. E se casou.
Assim mesmo, sem preliminares. "A gente não namorou. Casou logo. Ela namorava um camarada meu. No carnaval nos cruzamos na rua e chamei, "vem fazer um rango lá em casa", ela foi e ficou. A sônia tinha 16 anos, tres a menos que eu. Foi paixão mesmo, o Stephan só foi pintar cinco anos depois." A crise apertou e o rapaz esforçado da loja de móveis, nunca era esforçado o bastante. "Fui ver Coração Selvagem, do David Lynch, saí amarradão. O cara do filme cantava Élvis e eu era apaixonado pela minha mina. Comprei um disco com "Love Me Tender" e cheguei em casa, ela me esculachou. Como que eu gastava dinheiro com disco?"
Parentes de Sônia tinham uma loja de cosméticos no interior do Paraná e o casal embarcou numa aventura. Foi morar em Maringá. "Eu ganhava um salário mínimo, ela ganhava outro." De volta ao Rio, o Planet Hemp entrou na vida de Marcelo para mudar de vez. Um encontro casual entre dois maluquinhos nas ruas do Catete foi a semente do grupo. D2 passou com uma T-shirts do Dead Kennedys e Luís Antonio, o Skunk, vendedor e artesão de camisas de Rock, saudou: "Aí, voce gosta de Dead Kennedys? Então toma essa fita aqui". Era um cassete de uma banda obscura chamada Dread Flintstones. "Amanhã voce me devolve."
Desse diálogo nada-com-nada nasceram uma amizade e uma vocação. "O Skunk falava de música o tempo todo. Me levou na Rua 13 de Maio (rua do Centro do Rio onde se reúnem camelôs de discos), conheci a galera lá, me mostrou uns sons, botou pilha. Aí eu resolvi: "Ah, vou ser vagabundo, quero ser músico!", lembra Marcelo, que antes virou camelô de camisetas de Rock. "Na verdade - declaração bombástica -, a banda não era pra ser de rap, era uma banda de rock. Mas nós dois não sabiamos tocar porra nenhuma e queriamos cantar." O nome foi tirado das paginas de revista americana High Times, especializada em canabicultura (e que, por sinal, entrevistou o grupo depois do episódio da prisão). Skunk tinha idéia de fazer letras em inglês, "como era a onda da época" (1992), mas D2 exigiu o português. "Eu gosto de usar tênis importado e a camisa do Mengão, gosto de um pagodinho, de fazer hip hop falando 'cumpadi', tá ligado? Não posso esconder que gosto de Beth Carvalho."
No Garage, adorável pardieiro do underground carioca, Marcelo ia vender camisetas. E acabava ficando. "Eu estava me separando na época, dormia quase sempre por lá." As andanças pela Lapa e os hectolitros de goró sorvidos com Skunk e amigos como Jorge Beatnik, Carlos Rasta e o legendário artista plástico Tantão (ex-Black Future, mitológica banda carioca dos anos 80), sedimentaram os conceitos que o Planet desenvolveria depois, com a entrada do guitarrista Rafael, do baixista Formigão - outro héroi de inúmeras formações punks e subs - e do baterista Bacalhau. "Dinheiro não importava. A gente tomava cachaça, e discutia política, todos os assuntos."
Antes de fundar a banda, Skunk já sabia que estava com Aids. "A gente trabalhava na mesma barraca como camelô. Ele começou a ficar doente e a madrasta dele falou: "Tô com medo que seja Aids." Eu falei que ia com ele pegar o teste. Ele não me deixou, foi sozinho e disse que estava tudo certo. Eu entendo, ele não falou por medo do preconceito contra a doença. Era meu melhor amigo, tinha um certo lado homossexual, assim, devasso. Homem, mulher, para ele não tinha parada, o negócio era sexo. A gente viajava pra São Paulo e ficava zoando ele doente: "Vai morrer, filho da ***! Nem se cuida!" Quando o Planet começou a crescer e a gente passou duas semanas viajando, voltei e fui ver o cara. C****! Nesse dia tive de leva-lo ao banheiro ajudar a se vestir... Saí arrasado. Eu tinha brigado, de sair na mão, com várias pessoas que falavam que ele tava com Aids."
A morte de Skunk quase podou o Planeta Cânhamo. "A gente pensou em acabar, tinha nego chorando todo ensaio. Aí, um mês depois da morte dele, 8 de julho de 1994, estava marcado um show em BH. Pensamos: o Rafael é músico por escolha, vem de uma classe mais alta, o Bacalhau estudava administração... mas o que é que eu e o Formigão vamos fazer da vida? Resolver continuar para, pelo menos, gravar um disco em homenagem ao Skunk."
Outro episódio marcou um rito de passagem na carreira do Planet Hemp e na vida de Marcelo. Já de contrato assinado com Sony, gravando o primeiro disco, o vocalista se envolveu numa confusão após um show no Circo Voador. "A gente estava tocando de graça, abrindo para o DeFalla. Os seguranças meteram porrada no Ronaldo (Pereira, produtor da banda, planet honorário), deixaram a cara dele deformada. Eu tava bebum, fui pro caixa, joguei o dinheiro todo da bilheteria pro alto. Me seguraram, eu fui dar um bico no segurança e acertei um vidro Blindex. Foi sinistro. Rompi tendão, ligamentos, artérias... Desmaiei, perdi um terço do meu sangue, tomei 135 pontos, operei um terror. Depois dessa, sosseguei. Foi a última vez que bebi cachaça."
Era o fim de uma era. "Eu tinha andado numa onda de "vou virar vagabundo, não quero trabalhar". Mendigão mesmo, tomava a sopa que distribuem na sede do Banco Do Brasil, na Lapa. Minha mãe me chamou e falou que o pai-de-santo dela pedia para eu parar de beber cachaça. Daí... eu parei e comecei a tomar um rumo, as coisas foram dando certo..."
Hoje casado de novo - com Manuela Cruz, 19 anos, carinha de menina e cabelos verdes - , Marcelo mora num apartamento alugado no Jardim Botânico, mas quer voltar para o Catete, "onde as pessoas são menos robóticas". Assim, que saiu da prisão, além do filho (que foi visitar na casa da Ex, no dia seguinte), sua grande preocupação era o pai. Dark está com câncer no pulmão. "Eu sou o filho mais velho, tenho que segurar a onda da familia. Da minha irmã que é mais nova, da minha mãe... Tenho que falar pro meu pai que ele vai ficar na boa. Mas é claro que eu choro pra caralho sozinho."
As barras-pesadas todas foram transformadas em força para o grupo prosseguir. "Há quem pense que o Planet é uma banda do mal. Há quem goste tomar uma cerveja ou de fumar um baseado. O Planet não é demônio nem anjo. A gente é apenas uma banda que faz a molecada pensar. Eu estou preocupado em criar um filho e em ter carreira. Quero que o Stephan possa escolher o futuro dele."