3. A história do fanzine

     Em 1926, Hugo Gernsback lançou Amazing Stories, a primeira publicação independente, ou como dizem os norte-americanos, self-publication, que publicava histórias inéditas de ficção científica.23 Com o passar dos anos, os fanzines de ficção científica, um ramo da ficção que nasceu proscrito, e até hoje ainda é tratado como literatura menor, mesmo que tenha um predecessor nas populares publicações de Julio Verne, foram aumentando em número de leitores e colaboradores. A ciência foi deixando de ser um assunto de estudiosos e acadêmicos e se transformou em produto de exploração cultural.

    A popularização das histórias em quadrinhos juntou-se a esse processo de acumulação de experiências que fizeram com que a ficção científica deixa-se de ficar à margem da indústria cultural e nos dias atuais seja alvo dos maiores investimentos da indústria cinematográfica, por exemplo, para não nos aprofundarmos muito no assunto.

    Os primeiros fanzines tiveram como impulso a popularização dos mimeógrafos, máquinas que fizeram com que qualquer pessoa, sem muita habilitação técnica ou investimento, pudesse multiplicar sua publicação e distribuir dentro de suas limitações financeiras para todos aqueles que dela quisessem tirar proveito. O fanzine é uma publicação de apaixonados por um assunto especifico, sendo originada da formação da palavra fan (aficionados) a magazine (revista). Geralmente é aperiódico, com distribuição precária e editado com poucos recursos financeiros. Qualquer pessoa com uma caneta, papel, cola, alguns recortes, imaginação, vontade e o equivalente em dinheiro ao valor de uma carteira de cigarros para pagar as cópias pode editar seu próprio fanzine.

    O fanzine cobria uma parcela da população não atendida em seus desejos e anseios pelos meios de comunicação de massa. Como as histórias em quadrinhos, que com o tempo e durante muitos anos, junto com a antiga arte da charge, auxiliaram no aumento da venda de jornais, com a formação do sindicato de cartunistas nos Estados Unidos, os fanzines de ficção científica, relegados a um plano inferior em nome da literatura tradicional, mas motivados pelo relativo sucesso alcançado por obras como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley , 1984, de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, foram a força de um movimento independente que culminou em sua transformação em produto cultural de massa.

    Como sabemos, e isso não é motivo de nenhuma grande descoberta, os meios de comunicação não fazem um grande investimento na formação e crescimento de novos produtos culturais. Isso demanda tempo, dinheiro e dedicação. É muito mais fácil amealhar um movimento independente e apaixonado da sociedade e dominá-lo, dissolvendo-o com táticas de cartelização, ou comprando-o a preço vil e padronizando-o e, assim, deixando-o mais próximo do pensamento comum que melhor aprouver aos detentores do poder. E nada melhor que deixar com que os marginais tenham a "oportunidade" de continuarem sendo marginais.

    Em 1967 foi fundado nos Estados Unidos por, entre outros, o Los Angeles Free Press, East Village Other, Berkeley Barb, San Franscisco Oracle, Detroit Fifth State, Chigaco's Seed e Austin's Rag, o Underground Press Syndicate (UPS). O UPS, uma organização que reunia as centenas de fanzines esparramados pelo território norte-americano tratou de prover estes de uma maior capacidade de distribuição.

    Assim como aconteceu com a ficção científica, o rock'n roll gerou um grande número de bandas, grupos e artistas e o mercado não era capaz, nem estava preparado, para suportar tanta variedade de uma vez só. Influenciados pela literatura beat e sua linguagem coloquial os fãs do novo estilo musical extravasavam sua paixão por seus nascentes ídolos que ainda encontravam resistência no grande público dos meios de comunicação de massa norte-americanos, conservador e puritano.

    Essa explosão, levada adiante com a produção em massa das copiadoras Xerox, cuja primeira copiadora fabricada em série surgiu em 1959, chegou ao seu ápice com o advento do punk rock. Em 1976, os estudantes da School of Visual Arts (SVA), nos Estados Unidos, John Holmstrom, "Legs" McNeil e Ged Dunne, publicaram uma revista de pequena circulação intitulada Punk. A cultura punk, propagadora do lema "faça você mesmo", encontrou nos fanzines a oportunidade de sobreviver e perpetuar-se, tanto quanto os fanzines punks proliferam das mais variadas formas, desde os elaborados à mão com fotomontagens até os editados com os últimos recursos da computação gráfica.  

    Com a popularização dos Personal Computers (PC) a história dos fanzines seria definitivamente alterada. Com a mudança da feitura artesanal, distribuição manual ou por correio, e os fanzines, agora conhecidos apenas como zines, já que não apenas mais propagadores de uma paixão específica ou momentânea e, sim, tratando de todos e quaisquer tipos de assunto, até entrando em concorrência com os grandes meios de comunicação, atingiram, auxiliados pelo advento da rede mundial de computadores, uma condição que somente em sonhos os primeiros fanzineiros imaginariam: a distribuição em grande escala.



3.1 - O fanzine no Brasil

    Historicamente atrasado tecnologicamente, o Brasil tem a história dos fanzines muito mais ligada a atividade política que qualquer outra atividade. Tomando por base a caracterização de fanzine como toda e qualquer publicação sem respaldo na imprensa formal, oficiosa e burocrática, os panfletos políticos assumiram no Brasil o papel de propagadores dos ideais marginalizados. Impressos em gráficas de fundo de quintal e distribuídos nas portas de fábricas eram a única alternativa de partidos e movimentos políticos, em sua grande parte de conotação socialista ou comunista, exporem suas idéias.

    Na década de 1960, em meio a censura e a perseguição política, centenas de jornalistas tiveram em pequenas publicações, perversamente chamada de imprensa nanica ou marginal por seus detratores, o meio de divulgarem as injustiças da ditadura e as combaterem, mesmo que sem o alcance merecido, a despeito da distribuição independente de revistas como O Pasquim, que alheia a qualquer grande distribuidora ou corporação atingiu uma circulação considerável no início dos anos setenta.

    Convém ressaltar um aspecto singular da cultura nordestina: a literatura de cordel. Composta de histórias populares cantadas ou declamadas em público por romanceiros em feiras e mercados das cidades do Nordeste brasileiro e precariamente impressa e vendida em folhetos com desenhos caracterizando as principais passagens da história contada, o cordel assemelha-se, por essas premissas, ao conceito básico do fanzine. Ou, melhor, assemelham-se ambos, ao samizdat, conceito utilizado por Stewart Home baseado nos folhetos antibolcheviques da antiga União Soviética, ou seja:

"o samizdat é uma tradição dissidente, preocupada com a auto-organização, e seus membros muitas vezes realizam ações ao mesmo tempo que as documentam. A grande maioria dos seus textos são publicados por eles mesmos, assim como muitos comentários sobre os movimentos individuais dessa linhagem."

    O romanceiro, assim como o fanzineiro, publica e distribui independentemente seus trabalhos. É uma tradição viva e oral que sobrevive aos impactos tecnológicos contemporâneos.

    Voltando aos fanzines, especificamente, as faculdades e universidades eram nos anos sessenta o canal de distribuição destes, desde os fanzines de poesia marginal e quadrinhos eróticos até os de propaganda ideológica de esquerda, mídia alternativa e contracultura. Entre estes, o primeiro fanzine brasileiro que se tem notícia é o boletim Ficção, informativo de um clube de ficção científica. O fanzineiro "aposentado" Glauco Mattoso imprimia, em meados dos anos 70, seus fanzines em mimeógrafos e, nessa época, antes da chegada do punk ao Brasil, estas publicações eram conhecidas pelas expressões panfleto, almanaque ou boletim. Nas palavras de Glauco:

"O fanzine desafia as regras da imprensa convencional. Primeiro, o editor não é parcial - é parcialíssimo. O editor é fanático, o ídolo dele é o maior, prevalece a opinião dele e ponto final. O fanzine nunca é comercial, normalmente dá prejuízo. E não existe compromisso com venda em banca ou periodicidade. Por último, o fanzine é, na maioria das vezes, uma publicação de autor, ou seja, uma pessoa sozinha faz o zine inteiro. Às vezes abre espaço para colaborações, mas não é comum a pluralidade de opiniões."


    Os fanzines dividiam-se, até o início da década de 1990, basicamente em três grupos: os de ficção científica, muito mais relacionados a adoradores de seriados televisivos como Jornadas nas Estrelas e Arquivo X, os de música, em grande parte de grupos de garagem, bandas punks e de skins (os carecas), e os de divulgação panfletária anarquista relegada a segundo plano pelas legislações eleitorais. Mais recentemente, os fanzines se segmentaram em dezenas de gêneros diferentes atingindo quase todo o universo da indústria cultural.

    A informática a princípio padronizou os fanzines e tirou parte de sua aura de amadorismo romântico. A facilidade em se editar um fanzine por computador e lançá-lo na Internet está, ao mesmo tempo que aumenta o seu poder de divulgação, elitizando o público leitor dos fanzines brasileiros. De um leitor quase iletrado, sem uma formação acadêmica adequada aos padrões que se espera de um "intelectual", o leitor e divulgador de fanzines deixou de ser o desempregado suburbano ou o operário revoltado contra o patrão. Hoje em dia o leitor de fanzines pode muito bem ser o estudante de faculdade que utiliza as horas de ócio entediado de filho bem tratado de classe média para divulgar sua lamuriosa vida de adolescente bem vestido e bem alimentado.

    O fanzine em papel não deixou de existir, alguns exemplares circulam de mão em mão na vida noturna dos bares "alternativos" das grandes cidades, muito mais pelo romantismo sonhador, ecos de Rimbauds anacrônicos e bêbados que ainda insistem em "perturbar" a ordem vigente.

    Caveman, 25 anos, codinome de um fanzineiro da Osvaldo Aranha, freqüentador do Bar João, conhecedor e participante de movimentos punk da região metropolitana de Porto Alegre pode muito melhor esclarecer o que é realmente a alma desse fanzineiro e o que o move a continuar adiante.

    Descendente direto dos primeiros fanzines punks, entre eles, Sniffin' Glue (Cheirando Cola), publicado a primeira vez em 1976, Caveman edita fanzines punks com referências a autores românticos do século XIX, Poe, Kafka, Orwell, descrições de viagens alucinógenas, relatos do dia a dia urbano de um desempregado, desenhos, colagens, e todo o tipo de referência que agrida o modo de vida da sociedade burguesa de Porto Alegre. É uma confluência do "datilografismo" e delírio beats, a estética e a atitude punks e o romantismo auto-destrutivo.

Pergunta - Caveman, o que move você a continuar produzindo fanzines?

Caveman - O individualismo, a diferença. Deixe-me por morto e está tudo legal! Eu sou um cara muito cético e anacrônico, não apenas em idéias libertárias, mas, também, musicalmente e esteticamente.

Pergunta - Você considera que os fanzines ainda exercem influência na sociedade? Ou simplesmente você faz a sua parte naquilo que considera necessário para combater o modo de vida dessa sociedade?

Caveman - Sei lá. Apenas quero que as pessoas não pensem que não faço nada. Eles atingem apenas meu ciclo vicioso, minha rotina e muito, também, minha retina. Ou seja, germinam-se pelas bibliotecas alcoólicas que são alguns bares específicos da cidade. Os burgueses existem, eu não. Eles apenas não têm tempo para gastarem sua grana. Escravos de sua própria opulência. Eu não quero combater a burguesia, além de querer dar uma dose de cultura "huxleyniana" neles. Não me considero nenhum tipo de comunista que quer dividir sua miséria com os outros para depois ter que fugir por causa dos seus planos fracassados.


    Caveman continua escrevendo e editando seus fanzines. Este é apenas um, entre tantos outros espalhados pelo mundo, desde a Lituânia até a Bolívia, fanzineiros que, independente de modismos ou dificuldades financeiras, movem-se por um certo romantismo juvenil que sempre se renova.



3.2 - O fanzine na Internet

    A Internet, nascida da rede de computadores Arpanet criada na década de 1960 nos Estados Unidos para a comunicação acadêmico-militar, teve a sua explosão neste mesmo país no início dos anos 90, no Brasil em 1996/97, e cada vez cresce mais, em uma aceleração mais rápida que o próprio crescimento tecnológico dos meios eletrônicos. Hoje é possível enviar e receber e-mails de qualquer parte do planeta por telefone, celular, unidades independentes de computadores, centrais gigantescas, satélite, fibra óptica, cabo, em casa, no trabalho ou mesmo em cybercafés, bares temáticos com acesso à Internet.

    A simplificação da transmissão de dados por meio da linguagem de computador, reduzida a um sistema binário, faz com que abandonemos em parte os obsoletos telefones, desconectemos nossos faxes e deixemos de utilizar o correio tradicional. Em um manuscrito de 1863, Paris no século XX, Júlio Verne já previa a existência da fototelegrafia, um equivalente ao fax ou ao e-mail. O correio tradicional, como previsto no período de governo de Bill Clinton, em pouco tempo será gradualmente extinto nos Estados Unidos. Servirá apenas para o envio de mercadorias compradas por meio eletrônico. O fax é antieconômico e de péssimo manuseio. Segundo Negroponte:

"um dos maiores atrativos do correio eletrônico, o e-mail, é que ele não nos interrompe como a conversa telefônica. Você pode cuidar dele nos momentos de lazer, razão pela qual até pode responder a mensagens que não teriam a menor possibilidade de atravessar as barreiras impostas ao telefone pelas secretárias das empresas."

    Mas esse novo meio trouxe-nos também uma atividade que vinha sendo abandonada com o uso de botões, mouses e controles remotos: a de escrever. Notadamente pessoas que não se propunham a pegar um pedaço de papel e escrever uma carta para um amigo, hoje escrevem cartas e mais cartas utilizando a Internet. Ninguém faria um fanzine para remeter por fax. O e-mail é o retorno as mensagens epistolares. A facilidade de conhecer e manter contato, bastando apenas escrever, mesmo que sem preciosismo, conectar-se a rede e em menos de um minuto estar mandando mensagens para pessoas de qualquer parte do mundo fez com que os leitores abandonassem sua passividade e começassem a se comunicar cada vez mais.

    Não seria diferente com os fanzineiros. Já utilizando a computação gráfica para melhorar a qualidade de seus trabalhos, os fanzines começaram a surgir na Internet por volta de 1992/93. No começo eram restritos a páginas de hackers, aficionados de computador que trocam informações sobre programação e utilizam a Internet para fazer cópias piratas de programas, geralmente com tendências anarquistas e anti-governamentais, entram em páginas de grande corporações apenas para demonstrar sua força e conhecimento de programação, e crackers, "terroristas" da Internet que se utilizam de seus conhecimentos para destruir, enviar e-mails bombas, esparramar vírus de computador e desestabilizar o sistema da rede.

    Esse mesmo poder de destruição em cadeia pode ser utilizado para se fazer comunicação em cadeia. Comunicação de massa direto do computador de sua casa. O spam, emissão de uma mesma mensagem para centenas ou até milhares de endereços, considerados pelos grandes portais como crime, pois diminui a sua potencial força em detrimento do usuário comum, é largamente utilizado pelos fanzineiros. Como as antigas malas-diretas, enviam seus fanzines por e-mail para todos aqueles endereços que conseguirem e esperam o retorno. Muito mais simples que entregar de mão em mão ou deixar na porta de um bar e ver seu trabalho ser jogado no chão e pisoteado.

    Ao contrário de um editor de jornal ou revista, o fanzineiro não quer vender apenas por vender e construir estatísticas para agências de propaganda comercializarem espaços publicitários. O fanzineiro quer que seu material seja lido e apreciado. Quer que o leitor faça mais que simplesmente ler. Que o leitor absorva o que leu. Compreenda. Depreenda. E aja. O fanzineiro por excelência quer provocar, instigar. Nisso, assemelha-se muito mais ao jornalismo romântico, panfletário e estigmatizado na figura do jornalista boêmio, o qual os últimos exemplares estão sendo expurgados da mídia como, por exemplo, os fracassos de venda de revistas como Bundas e Caros Amigos no Brasil. Figura esta que é a própria cara do fanzineiro, seja qual for sua classe social ou tendência política, vide o renascimento até mesmo do integralismo na Internet.

    A princípio, porém, os portais que fornecem espaço para páginas gratuitamente, como o Geocities (www.reocities.com), por exemplo, foram dominados por fanzines de fãs de atores de Hollywood, bandas de rock e anarquistas. Esses fanzines são conhecido como webzines, derivados da designação WorldWideWeb (WWW) e do próprio nome fanzine, e, sem muitos recursos gráficos, pois a capacidade e os programas não suportavam muita diversidade de imagens e animação, eram basicamente cheios de textos, respostas e discussões (caberia um capítulo à parte sobre as listas de discussão, denominadas Chat), semelhantes aos boletins informativos dos clubes de ficção científica.

    O webzine está longe de ter sua existência encurtada. Mesmo com o crescimento da utilização de processos que aumentam cada vez mais a capacidade memória dos computadores e da velocidade das conexões, o webzine ainda sobrevive. Uma seqüência lógica da formatação do webzine foi a da idéia do e-zine. Os fanzineiros, talvez nem tão conscientes e muito mais conhecedores da prática que nos fala Pierre Lévy, que "o ciberespaço combina a reciprocidade da comunicação e a partilha de um contexto", foram atrás de seu público leitor. É a revista que ao invés de ser comprada na banca é entregue diretamente ao leitor e, ainda mais, no mesmo instante em que foi finalizada. Mcluhan escreveu sobre a forma como os meios de comunicação foram influenciados pelo desenvolvimento dos transportes. Só que no caso atual o desenvolvimento tecnológico consegue ser mais rápido que a capacidade das pessoas de assimilarem essa mudança. O e-zine, assim como o telefone, diminuiu as distâncias, com a vantagem de poder ser lido e processado  a qualquer hora e o leitor poder interagir com o fanzineiro no minuto seguinte ao término de sua leitura. É sobre o e-zine e suas particularidades que trataremos a seguir.



3.3 - E-zine

    Alguns editores interpretam a palavra e-zine como uma contração de "eletronic" com "magazine", ou seja, revista eletrônica. O e-zine não deixa de ser uma revista eletrônica, mas, para diferenciá-lo, e é muito importante essa diferenciação, de webzine, pois este último "recebe" visitas, enquanto o e-zine "visita" seus leitores, usamos neste trabalho a palavra e-zine como sendo a contração de     "e-mail" mais "fanzine", ou fanzine por e-mail.

    O pouco tempo de existência do formato e-zine ainda não mereceu a devida atenção de estudiosos e escritores. A literatura ainda é incipiente sobre o assunto, muito mais devido ao crescimento exponencial do meio. A grosso modo, um editor de e-zine remete textos ou imagens para poucas pessoas de suas próprias relações, se ainda não estiver inserido no meio fanzineiro. Estas poucas pessoas, conforme o interesse despertado ou não pelo assunto editado, e levando em conta também a qualidade da divulgação, entenda-se qualidade como aquilo que satisfaz a um certo número de pessoas e não a qualidade conceitualizada e até mesmo edificada em patamares religiosos por seus arquitetos, leiam-se críticos de artes e cultura, é que darão o aval para que o fanzineiro continue sua empreitada.

    A formação da lista de distribuição tanto pode se dar pela lista do próprio zineiro, como por requerimento de assinaturas constante em um site (página), geralmente de um portal que oferece sites gratuitas, que o próprio editor do e-zine faz somente para propagandear seu e-zine.

    A literatura sobre e-zines concentra-se basicamente na Califórnia, histórico centro de agitação da contracultura, Nova York e Londres, tradicionalmente cidades ligadas ao movimento Punk. Em San Franscisco, a publicação mensal, vendida também em formato impresso, Factsheet Five, editada por Mike Gunderloy desde a década de 1980, aumenta cada vez mais sua importância no mercado fanzineiro norte-americano, catalogando e comentando todos os fanzines que nela queiram interagir. Stephen Duncombe, um professor de comunicação da Gallatin School da Universidade de Nova York, escreveu em 1997 o livro Notes from the underground: zines and the politics of alternative culture, que tem alguns trechos em inglês e espanhol disponíveis na Internet. Este livro é considerado o precursor da literatura atual de fanzines, incluindo toda um contexto político-econômico em seu conteúdo, conforme afirma Chris Dodge, da LibLib.com (www.liblib.com), site especializado em catalogar material alternativo sistematicamente ignorado pelos grande meios de comunicação.

    As outras publicações em grande parte resumem-se apenas a catalogar e-zines ou a manuais de como se fazer um e-zine. Catalogar e-zines é uma tarefa quase tão difícil quanto catalogar fanzines em formato impresso. Não existem estatísticas exatas sobre a quantidade de publicações. Nas páginas de busca do Altavista (www.altavista.com) e do Cadê? (www.cade.com.br) estavam classificados em 10 de maio de 2001 pouco mais de cem e-zines em língua portuguesa, por exemplo. Mas conhecendo a gênese libertária e independente dos fanzines sabe-se que muito mais fanzines e e-zines são produzidos sem que se tenha uma organização e quantificação destas publicações em gênero ou exemplares.

    Em 21 de março de 1996, o hacker Alex Swain (www.factsheet5.com/ezines.faq) estimava em 600 o número de e-zines e em 16.000 o número de fanzines impressos nos Estados Unidos. Por esta mesma fonte a informação que temos é de um número estimado de 6.000 fanzines impressos em 1994, ou seja, apenas dois anos antes. Em sua última edição em oito de março de 1998 a E-ZINE-LIST (www.meer.net/~johnl/e-zine-list), que foi motivo de artigos nos jornais Wall Street Journal e New York Times, continha em sua lista, organizada por John Labovitz, catalogados 4392 fanzines eletrônicos (entre webzine e e-zines).

    No site norte-americano eZINESearch (http://www.ezinesearch.com/search-it/ezine/) existiam catalogados em 10 de maio de 2001 exatos 8438 fanzines em oitenta categorias diferentes desde os punks, passando pelos religiosos e chegando até aos fanzines sobre culinária. Ressalvando que os aqui chamados webzines encontram-se misturados aos e-zines. A publicação Factsheet5 estima entre 1000 e 1500 os fanzines eletrônicos catalogados. A E-zines Magazines (www.zinebook.com)  afirma não poder estimar o número de fanzines nos Estados Unidos. Podem estar entre 10.000 a 50.000 publicações, atingindo milhões de leitores. A verdade, e quem participa do movimento fanzineiro constata isso diariamente, é que fanzines podem ter edições mensais, diárias, até várias ao dia, podem ter cinco, dez ou cinco mil leitores, podem nascer e morrer  a qualquer momento e em qualquer lugar. Caberia outro estudo somente para quantificar e catalogar os e-zines. Por hora, nos preocuparemos em quantificar a influência que estes exercem sobre os seus leitores.