Teses sobre o bolchevismo

 

Apresentação (*)

 

As «Teses sobre o bolchevismo» foram redigidas em 1933, por Helmut Wagner, membro da rede Combatentes Vermelhos (Rote Kämpfer - RK) na Alemanha. O texto resumia as discussões ocorridas no grupo de Dresde da RK, entre 1931 e 1932, e circulou desde 1933, mimeografado, para a discussão noutros grupos.

Em 1934, as «Teses» foram publicadas, na Holanda, pelo Grupo de Comunistas Internacionais (GIC), no Rätekorrespondenz nº 3, em holandês e alemão. No mesmo ano, foram traduzidas para o inglês pelo grupo de comunistas de conselhos estadunidense, no qual atuava Paul Mattick, e publicadas na revista International Council Correspondence volume I (nº 3, Dezembro). Essa tradução foi reimpressa, em 1935, como folheto, pela Federação Comunista Antiparlamentar (APCF) de Glasgow, com o título de «Papel burguês do bolchevismo e sua relação com o comunismo mundial». No fim dos anos 30, o folheto da APCF foi distribuído internacionalmente.

A versão alemã, publicada pelo GIC, tinha um erro: faltava a tese de número 60, saltando de 59 a 61. Assim, o texto alemão possuía aparentemente 68 teses, mas só havia 67. Na primeira tradução inglesa e nas seguintes, o erro foi “corrigido” mudando a numeração: a tese 61 passou a ser a 60, a tese 62 a ser 61 etc. Felizmente, apareceu o manuscrito original do autor, conservado no Arquivo Federal de Koblenz na Alemanha.

O manuscrito de Koblenz, embora tenha algumas divergências com a versão final, coincide em grande parte com ela. Nele havia uma tese "extra", indicando que o salto na numeração do original alemão se devia a uma falha de impressão, não a um erro na numeração. Essa tese, que corresponde ao número 60, foi incluída nesta edição, restabelecendo a numeração original.

Se houve traduções das «Teses» ao português, terão sido efêmeras e provavelmente se perderam. Existe uma tradução espanhola, publicada na compilação intitulada «Crítica do bolchevismo» (editorial anagrama, 1976), a partir duma tradução francesa.

As «Teses sobre o bolchevismo» são um documento básico para entender o processo cujo desfecho foi a ruptura entre o comunismo de conselhos e o bolchevismo.  Nas «Teses sobre o bolchevismo» encontram-se resumidos os posicionamentos dos comunistas de conselhos contra o bolchevismo que foram se formando no período compreendido entre 1918 (começo da revolução alemã) e o início dos anos 30. Embora não constituam uma análise pormenorizada e exaustiva, as «Teses» são uma resposta acabada dos comunistas de conselhos aos partidários do bolchevismo, superando o confronto dos anos 20 entre a acusação leninista de «esquerdismo» e a refutação «taticista» procedente do KAPD (1). Os antecedentes diretos das posições de Wagner estão nos escritos de Otto Rühle, representante da tendência «unitária» (2), entre 1920 e 1924, e sintetizados no seu livro “Da revolução burguesa à revolução proletária” (1924).

 

(*) Tradução livre da versão galega, publicada em Círculo Internacional de Comunistas Antibolcheviques http://www.reocities.com/cica_web/

 

Notas:

 

(1) Esta refutação «taticista» foi desenvolvida na Resposta de Herman Gorter ao Esquerdismo de Lênin (pode ser encontrada em espanhol na página de ediciones espartaco internacional, no livro descarregável «La izquierda comunista germano-holandesa contra Lênin»). Os comunistas de conselhos estavam em parte vinculados ao KAPD (Partido Operário Comunista da Alemanha), fundado em 1920, e consideravam que as diferenças com os bolcheviques eram táticas e se baseavam nas diferenças das condições orientais e ocidentais da luta de classes. A partir da expulsão do KAPD da III Internacional, da derrota da revolução alemã e do curso da política bolchevique na Rússia e no mundo, entre 1921 e 1924, irá se produzindo a guinada da fração conselhista «kapdista» para as posições antibolcheviques radicais, que já se vinham sendo sustentadas pela tendência «unitária» (ver nota 2) desde 1921. As «Teses» foram, assim, um passo adiante na unificação dos comunistas revolucionários frente ao bolchevismo.

 

(2) A tendência «unitária» defendia a supressão do partido político e o pleno desenvolvimento das Uniões Operárias, como organizações unitárias (econômicas e políticas), considerando que em condições revolucionárias a luta econômica se transforma diretamente em luta política e vice-versa, e que os partidos políticos, inclusive o KAPD, são um obstáculo ao livre desenvolvimento da atividade proletária de massas. Otto Rühle, um de seus primeiros representantes, dizia (em 1920, depois da sua viagem a Rússia, como delegado do KAPD ao II Congresso da III Internacional): «Os operários russos são mais explorados que os operários alemães». E, e em 1921, denunciava: «A Rússia não tem um sistema de conselhos, mas uma comissariocracia, uma burocracia de comissários, que a governa. Os Sovietes são eleitos de acordo com listas de candidatos propostos pelo Partido; existem sob o terror do regime. Portanto, não são conselhos num sentido revolucionário, são conselhos 'de fachada', uma caricatura política. Na Rússia, todo o poder pertence à burocracia, que é o inimigo mortal do Sistema de Conselhos.  

Mas a autonomia proletária e a economia socialista exigem o Sistema de Conselhos. Neste, tudo se produz segundo a necessidade, e todos tomam parte na administração. O partido bolchevique impede que a Rússia tenha um Sistema de Conselhos. E sem conselhos não há construção socialista, não há comunismo. A ditadura do partido é um despotismo dos comissários, é capitalismo de estado... »

«... A ditadura czarista era a de uma classe sobre as demais classes, a dos bolcheviques é a de 5% de uma classe sobre as outras classes e os 95% da sua própria classe. »

 

Questões Fundamentais de Organização», publicado em Die Aktion, nº 37, 1921.)

 

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TESES SOBRE O BOLCHEVISMO

 

Helmut Wagner (1933)

 

 

 

I. A SIGNIFICAÇÃO DO BOLCHEVISMO.  

 

1. Na economia e no estado soviéticos, o bolchevismo criou para si próprio um espaço fechado à praxis social. Fez, da III Internacional, um instrumento para controlar e influenciar o movimento operário internacional. As suas diretivas, em matéria de princípios e tática, são elaboradas como «leninismo». Resta saber se, como disse Stálin, a teoria bolchevique é o marxismo da época do imperialismo e da revolução social e, portanto, o eixo do movimento revolucionário proletário internacional. 

 

2. O bolchevismo conseguiu obter uma reputação internacional no movimento proletário graças à sua vigorosa luta revolucionária contra a guerra mundial de 1914-18 e, principalmente, à revolução russa de 1917. Sua importância histórico-mundial decorre de que, sob a firme direção de Lênin, reconheceu os problemas da revolução russa e, ao mesmo tempo, criou o partido bolchevique, instrumento mediante o qual aqueles problemas foram resolvidos praticamente. A adaptação do bolchevismo aos problemas da revolução russa foi conseqüência de 20 anos de desenvolvimento esmerado e consistente, além de um profundo discernimento nas relações entre as classes fundamentais envolvidas. 

 

3. Para saber se o perfeito domínio das suas tarefas qualifica o bolchevismo para a direção, na teoria, na tática e na organização, da revolução proletária internacional, é preciso examinar, por um lado, as bases e premissas sociais da revolução russa, e, por outro, os problemas da revolução proletária nos grandes países capitalistas.

 

II.  AS PREMISSAS DA REVOLUÇÃO RUSSA.

 

4. A sociedade russa estava fundamentalmente condicionada por sua posição entre a Europa e a Ásia. Enquanto a mais progressiva força econômica e a mais forte posição internacional da Europa ocidental destruíram na Rússia, antes da fim da Idade Media, os começos dum desenvolvimento comercial capitalista, a superioridade política do despotismo oriental criara os alicerces para o aparelho estatal absolutista do Império russo. A Rússia ocupava assim não só geográfica, mas também econômica e politicamente, uma posição intermédia entre os dois continentes, combinando aqueles diferentes sistemas sociais e políticos ao seu próprio jeito.

 

5. Essa posição internacionalmente ambígua de Rússia tem influído, decisivamente, não só no seu remoto passado, mas também nos problemas de sua revolução durante as primeiras duas décadas do século XX. O sistema capitalista criou, em sua ascensão imperialista, dois centros, reciprocamente opostos e intimamente entrelaçados: na área fortemente industrializada da Europa ocidental e norte-americana, o centro capitalista altamente desenvolvido do avanço imperialista ativo; nas regiões agrícolas da Ásia oriental, o centro colonial passivo da pilhagem imperialista. A ameaça ao sistema imperialista surge, deste modo, de ambos os centros: a revolução proletária mundial tem o seu eixo nos países capitalistas da Europa e América, a revolução agrária nacional nos países camponeses da Ásia oriental. Na Rússia, que estava no ponto de divisão entre as esferas de influência dos dois centros imperialistas, as duas tendências revolucionárias misturaram-se. 

 

6. A economia russa era uma combinação da produção agrária arcaica, característica da Ásia, e da economia industrial moderna, característica da Europa. A servidão, sob diversas formas sobrevivia, para a imensa maioria dos camponeses russos, obstruindo o desenvolvimento de uma agricultura capitalista que mal começava a se esboçar. Os novos métodos desarticularam a aldeia russa e acarretaram um empobrecimento indescritível. Uma situação em que o camponês permanecia encadeado a uma terra que já não podia alimentá-lo. A agricultura russa, abrangendo 80% da população russa e mais da metade da produção total, era até 1917 uma economia feudal salpicada de elementos capitalistas. A indústria russa fora implantada no país pelo regime czarista, que queria ser independente dos países estrangeiros, especialmente na produção de equipamentos militares. Porém, dado que a Rússia não possuía sequer as bases de um sistema bem desenvolvido de ofícios manuais nem dos rudimentos necessários para a emergência de uma classe de «trabalhadores livres», esse capitalismo de estado, apesar de se basear na produção em massa, não deu origem a uma classe operária assalariada. Era um sistema de servidão capitalista e conservou marcas dessa peculiaridade até 1917: na forma de pagamento dos salários, no alojamento dos trabalhadores, na legislação social etc. Os operários russos estavam, pois, não só tecnicamente atrasados, mas eram em grande medida iletrados e atados, direta ou indiretamente, à aldeia. Em muitos ramos da indústria, a força de trabalho estava formada principalmente por trabalhadores camponeses temporários, que não tinham nenhuma conexão permanente com a cidade. 

  A indústria russa era, até 1917, um sistema de produção capitalista mesclado com elementos feudais. A agricultura feudal e a indústria capitalista estavam, assim, mutuamente interpenetradas nos seus elementos básicos, combinadas num sistema que não podia ser governado pelos princípios da economia feudal nem proporcionar as bases para um desenvolvimento orgânico de seus elementos capitalistas.

 

7. A tarefa econômica da revolução russa era, em primeiro lugar, desmascarar o feudalismo agrário e acabar com a exploração dos camponeses, que viviam como servos, industrializando a agricultura e elevando-a ao nível da moderna produção de mercadorias; e, em segundo lugar, possibilitar a criação de uma classe de verdadeiros «trabalhadores livres», libertando o desenvolvimento industrial de todas as travas feudais. Resumindo: a função do bolchevismo era consumar as tarefas da revolução burguesa.

 

8. Tais eram as bases em que se apoiava o estado do absolutismo czarista. A existência desse estado dependia do equilíbrio entre as duas classes proprietárias, nenhuma das quais era capaz de dominar a outra. Se o capitalismo fornecia a coluna vertebral desse estado, seu apoio político era dado pela nobreza feudal. Portanto, "Constituição", "direito ao voto" e sistema de "autogoverno" eram só palavras e não podiam ocultar a impotência política de todas as classes no estado czarista. Dado o atraso econômico do país, tudo isto implicava um método de governo que era uma mistura de absolutismo europeu e despotismo oriental.

        

9. No plano político, a revolução russa devia realizar as tarefas seguintes: destruição do absolutismo, abolição da nobreza feudal e criação duma constituição política e de um aparelho administrativo que assegurassem o cumprimento da tarefa econômica da revolução. As tarefas políticas da revolução russa eram, pois, coincidentes com os seus pressupostos econômicos... com as tarefas da revolução burguesa. 

 

 

III.  AS CLASSES NA REVOLUÇÃO RUSSA.

 

10. Devido à peculiar combinação social de elementos feudais e capitalistas, a revolução russa enfrentava também outros problemas difíceis. No essencial, diferia tão fundamentalmente da revolução burguesa clássica, como a sociedade do absolutismo russo de princípios do século XX diferia da sociedade do absolutismo francês do século XVII.

 

11. Essa diferença, que correspondia à dualidade da estrutura econômica, encontrava a sua mais clara expressão política na atitude das diversas classes da Rússia face ao czarismo e à revolução. Do ponto de vista de seus interesses econômicos, todas essas classes estavam fundamentalmente em oposição ao czarismo. Mas, na prática, essa oposição diferia não só em grau, era também completamente distinta quanto aos seus objetivos.

 

12. A nobreza feudal lutava, antes de tudo, para estender a sua influência sobre o estado absolutista, desejando mantê-lo intacto para conservar seus privilégios.

 

13. A burguesia, numericamente débil, politicamente dependente e diretamente ligada ao czarismo pelas subvenções estatais, conheceria inúmeras mudanças de orientação política. O movimento decembrista de 1825 fora sua única ação revolucionária contra o estado absolutista. Nos anos 70 e 80, apoiou o movimento revolucionário dos narodnikis, com o propósito de aumentar a pressão sobre o czarismo. Também tentaram utilizar, com o mesmo fim, os movimentos grevistas revolucionários até as lutas de outubro de 1905. Seu objetivo não era já a derrubada, mas a reforma do czarismo. No período parlamentar, de 1906 à primavera de 1917, cooperou com o czarismo. Finalmente, a burguesia russa, temendo as conseqüências das lutas revolucionárias das massas proletárias e camponesas, rendeu-se incondicionalmente à reação czarista por ocasião do golpe de Kornilov, cujo objetivo era restaurar o poder do Czar. Tornara-se contra-revolucionária muito antes de ter concluído as tarefas da sua própria revolução. Portanto, apesar de ser uma revolução burguesa, a revolução russa se fez não só sem a burguesia, mas diretamente contra ela. O que teria repercussões fundamentais no conjunto de sua política.

 

14. Os camponeses, que constituíam a maioria esmagadora da população russa, converteram-se no grupo social que, pelo menos passivamente, determinava a revolução russa. Enquanto o campesinato médio e superior, numericamente menos importante, defendia uma política liberal, pequeno-burguesa, os pequenos camponeses famintos e escravizados, numericamente predominantes, estavam forçados a realizar expropriações violentas das grandes fazendas. Incapazes de perseguir uma política de classe própria, os elementos camponeses russos tiveram que seguir a direção de outras classes. Até fevereiro de 1917 tinham sido, apesar de revoltas esporádicas, um baluarte do czarismo. Como resultado da sua imobilidade e atraso massivos, fracassara a revolução de 1905. Mas, em 1917, foram decisivos para acabar com o czarismo, que os tinha organizado em grandes unidades do exército russo, paralisando com sua passividade o desenvolvimento das ações militares. Por meio de suas primitivas mas eficazes revoltas, durante o subseqüente curso da revolução, suprimiram a propriedade latifundiária e criaram as condições necessárias para a vitória da revolução bolchevique, que, não teria sido capaz de superar os anos da guerra civil sem a solidariedade do campesinato.

 

15. Apesar do seu atraso, o proletariado russo tinha acumulado uma enorme combatividade, devido à implacável opressão czarista e capitalista. Participou com enorme tenacidade nas ações da revolução burguesa russa, convertendo-se no seu instrumento mais aguçado e confiável. Como cada um de seus enfrentamentos com o czarismo se tornava uma ação revolucionária, o proletariado desenvolveu uma consciência de classe primitiva que, nas lutas de 1917, especialmente na ocupação espontânea das principais empresas, elevou-se à altura da vontade subjetiva do comunismo.

 

16. A intelectualidade pequeno-burguesa desempenhou um papel específico na revolução russa. Intoleravelmente restringidas nos assuntos materiais e culturais, obstruídas no progresso profissional e instruídas nas idéias mais avançadas de Europa ocidental, as melhores forças da intelectualidade russa foram a vanguarda do movimento revolucionário. Mediante sua direção, imprimiram-lhe um selo pequeno-burguês, jacobino. O movimento social-democrata russo, dirigido por revolucionários profissionais, constitui essencialmente um partido da pequena-burguesia revolucionária.

 

17. Para a solução dos problemas apresentados pela revolução russa, surgiu uma peculiar combinação de forças. As massas camponesas eram seu alicerce passivo; as massas proletárias, numericamente débeis ainda que revolucionariamente fortes, representavam sua arma de combate; a pequena fração de intelectuais revolucionários era seu cérebro.

 

18. Essa estrutura triangular era um desenvolvimento necessário da sociedade czarista, que estava dominada politicamente pelo estado absolutista, autonomizado, baseado nas classes possuidoras sem direitos políticos: a nobreza feudal e a burguesia. Os peculiares problemas, implícitos no cumprimento de uma revolução burguesa sem a burguesia e contra ela, tinham sua origem no fato de que, para derrocar o czarismo, era necessário mobilizar o proletariado e o campesinato numa luta pelos seus próprios interesses e, portanto, destruir não só o czarismo mas as formas existentes de exploração feudal e capitalista. Numericamente, os camponeses teriam sido capazes de manejar o assunto sozinhos, mas não estavam politicamente capazes, pois só podiam efetivar seus interesses de classe subordinando-se à direção de outra classe, que determinaria a medida em que os interesses de classe do campesinato seriam atendidos. Em 19l7, os operários russos desenvolveram os começos duma política de classe, comunista e autônoma, mas careciam dos pressupostos sociais para sua vitória, pois a vitória da revolução proletária teria que ser, também, uma vitória sobre o campesinato. Isto era impossível para o proletariado russo que, nos seus diversos estratos, não superava os dez milhões. Assim, eles tinham que subordinar-se, como os camponeses, à direção dum grupo de intelectuais que não estavam organicamente ligados aos seus interesses. 

 

19. A obra dos bolcheviques foi criar a direção da revolução russa e desenvolver uma tática apropriada para a mesma. Eles fizeram o que parecia impossível: criar a aliança entre duas classes antagônicas - as massas camponesas em luta pela propriedade privada e o proletariado que luta pelo comunismo - possibilitando a revolução sob aquelas difíceis condições e assegurando o seu êxito ao manter junta essa combinação operário-camponesa com os férreos laços da ditadura de seu partido. Os bolcheviques constituem o partido dirigente da intelectualidade pequeno-burguesa revolucionária da Rússia e cumpriram a tarefa histórica da revolução russa consistente em vincular a revolução burguesas do campesinato à revolução comunista da classe operária.

 

IV.  A ESSÊNCIA DO BOLCHEVISMO.

 

20. O bolchevismo tem todas as características da revolução burguesa, intensificadas pelo discernimento (tomado do marxismo) das leis do movimento das classes sociais. A frase de Lênin, «o social-democrata revolucionário é o jacobino ligado às massas», é mais que uma comparação externa. É uma expressão da afinidade interna, quanto aos métodos e os objetivos, entre a social-democracia russa e a pequena-burguesia revolucionária da revolução francesa.

 

21. O princípio básico da política bolchevique -a conquista e o exercício do poder pela organização- é jacobino; a grandiosa perspectiva política e sua realização, através da tática da organização bolchevique de lutar pelo poder, é jacobina; a mobilização de todos os meios e forças da sociedade aptos para o derrocamento do oponente absolutista, combinada com a aplicação de todos os métodos que prometiam êxito, as manobras e os compromissos do partido bolchevique com qualquer força social que se possa usar, ainda que só por um instante e no setor menos importante... tudo isso é espírito jacobino. Finalizando, a concepção essencial da organização bolchevique é jacobina, pois consiste na criação duma organização estrita de revolucionários profissionais que é, e continuará sendo, a ferramenta dócil e militarmente disciplinada duma direção onipotente.

 

22. Teoricamente, o bolchevismo não chegou a elaborar um pensamento autônomo que pudesse considerar-se um sistema coerente. Ao contrário, apropriou-se o método marxista de análise das classes e adaptou-o à situação revolucionária russa, ou seja, mudou o seu conteúdo básico e manteve os seus conceitos.

        

23. O único êxito ideológico do bolchevismo foi vincular sua própria teoria política com o materialismo filosófico. Como protagonista radical da revolução burguesa, volta a cair na ideologia radical da revolução burguesa, convertendo-a no dogma de sua própria visão da sociedade humana. Esta vinculação ao materialismo filosófico se faz acompanhar pelo contínuo recair num idealismo que considera a prática política como emanação, em última instância, da ação dos dirigentes.

 

24. A organização do bolchevismo surgiu nos círculos social-democratas de intelectuais revolucionários e se desenvolveu através de lutas, cisões e derrotas, como uma organização de dirigentes, cujos postos essenciais são ocupados por intelectuais pequeno-burgueses. A situação de ilegalidade, na Rússia, favoreceria crescimento. O bolchevismo formou-se, então, como uma organização de caráter militar, baseada em revolucionários profissionais. Sem esse rígido instrumento de poder, a tática bolchevique não teria chegado a bom termo e a tarefa histórica da intelectualidade revolucionária de Rússia não teria sido realizada.

 

25. Tendo sido elaborada para conquistar o poder, a tática bolchevique se revelou - especialmente, até outubro de 1917 – de uma grande uniformidade interna. Suas contínuas flutuações exteriores eram só adaptações temporais às situações e relações de forças variáveis entre as classes. De acordo com o princípio de absoluta subordinação dos meios ao fim e sem qualquer consideração dos efeitos ideológicos sobre as classes que dirigia, a tática foi revisada inclusive em pontos aparentemente fundamentais. A tarefa dos funcionários era fazer essas manobras acessíveis para as «massas». Por outro lado, toda agitação ideológica entre as massas, ainda que fundamentalmente em contradição com o programa do partido, foi utilizada. Isso tinha de ser feito, pois o objetivo era a captação incondicional das massas para a sua política. E porque essas massas, operárias e camponesas, tinham interesses e consciência de classe completamente diferentes. Precisamente por essa razão, o método táctico do bolchevismo se aproxima da política revolucionária burguesa. De fato, é o método dessa política o que o bolchevismo efetiva.

 

V. AS ORIENTAÇÕES DA POLÍTICA BOLCHEVIQUE

 

26. O bolchevismo nasceu da vontade de derrubar o regime czarista. Enquanto ataque ao absolutismo, é revolucionário burguês. No decurso das lutas a respeito da linha tática na social-democracia russa para alcançar seu objetivo, o bolchevismo desenvolve seus métodos e suas consignas.

 

27. A tarefa histórica do bolchevismo foi soldar duas rebeliões opostas, a do proletariado e a do campesinato, assumindo a direção de ambas e orientando-as para um objetivo comum: a abolição do estado feudal. Tinha que combinar a revolta camponesa (fase da revolução burguesa, correspondente ao começo do desenvolvimento da sociedade burguesa) com a revolta proletária (fase da revolução proletária, correspondente ao final do desenvolvimento da sociedade burguesa) numa ação unificada. Só conseguiu fazê-lo, porque desencadeou um esforço estratégico, no qual utilizou as mais diversas agitações e tendências de classe.

 

28. Esta estratégia (que consistia em instrumentalizar o descontentamento das massas) começa explorando as menores divisões e erros no campo inimigo. Assim, Lênin falou dos burgueses liberais como «nossos aliados de amanhã» e, noutra ocasião, defendeu os sacerdotes que se opunham ao governo que não os satisfazia, do ponto de vista material, declarando-se disposto a apoiar as seitas religiosas perseguidas pelo czarismo.

 

29. Contudo, Lênin formulou com precisão sua tática, na questão dos “aliados da revolução”.  Utilizando as experiências de 1905, opôs-se energicamente a todo compromisso com os grupos capitalistas dominantes e limitou a política de «alianças» e os compromissos aos elementos da pequena burguesia e do campesinato pobre, ou seja, àqueles que, historicamente, podiam ser mobilizados para a revolução burguesa na Rússia.

 

30. A consigna tática da «ditadura democrática dos operários e os camponeses» indicava, em 1905, a orientação geral do bolchevismo e expressava a idéia ilusória de um parlamentarismo sem a burguesia. Mais tarde, essa consigna foi substituída por outra: «aliança de classes entre operários e camponeses». Esta fórmula ocultava a necessidade de pôr em movimento as duas classes para possibilitar a tomada do poder pelos bolcheviques.

 

31. Essas consignas pontuais, que mobilizaram as duas classes determinantes para a revolução russa a partir dos seus interesses econômicos conflitantes, eram a conseqüência de uma implacável vontade de explorar as forças dessas classes. Para mobilizar o campesinato, os bolcheviques, já em 1905, forjaram a consigna da «expropriação radical dos latifundiários pelos camponeses». Esta consigna podia ser  considerada, do ponto de vista dos camponeses, como uma incitação a repartir as grandes fazendas. Quando os mencheviques assinalaram o caráter reacionário das consignas agrárias bolcheviques, Lênin respondeu que os bolcheviques não tinham decidido o que iam fazer com as terras expropriadas. Resolver esse assunto seria função da social-democracia no poder. A reivindicação da expropriação dos latifúndios pelos camponeses, embora demagógica, correspondia aos interesses dos camponeses. Do mesmo modo, os bolcheviques difundiram suas consignas entre os operários, em particular a dos sovietes. O fato de que a consigna determinara a tática dos operários era, simplesmente, um êxito momentâneo; o partido bolchevique não considerava que uma consigna o ligasse às massas como uma obrigação de princípio; ao contrário, via nela o meio propagandístico de uma política que apontava, em última instância, à conquista do poder pela organização.

 

32. Entre 1906 a 1914, o bolchevismo aplicou a tática do «parlamentarismo revolucionário», combinando atos legais e ilegais. Esta tática correspondia à situação da revolução burguesa na Rússia. Com ajuda desta tática, conseguiu unificar a guerrilha que, em duas frentes, operários e camponeses faziam contra o czarismo, fazendo da mesma o elemento decisivo para a preparação da revolução burguesa nas condições russas. Dada a política ditatorial do czarismo, cada progresso da social-democracia russa na atividade parlamentar acarretava, na prática, um caráter revolucionário-burguês. A tática de mobilização do campesinato e do proletariado (as duas classes decisivas para a revolução russa) iria se consolidando durante o período entre a revolução de 1905 até a guerra mundial e, neste sentido, a Duma serviu como tribuna da propaganda entre os operários e os camponeses.

 

VI. O BOLCHEVISMO E A CLASSE OPERÁRIA. 

 

33. O bolchevismo resolveu o problema histórico da revolução burguesa, na Rússia feudal e capitalista, com a ajuda do proletariado, que foi o instrumento ativo e combatente. Apropriou-se, também, da teoria revolucionária da classe operária e a transformou para adequá-la aos seus propósitos. O «marxismo-leninismo» não é marxismo, mas um encobrimento, adaptado às necessidades da revolução burguesa na Rússia, do conteúdo social da revolução russa. Apesar de ter permitido compreender a estrutura social russa, esta teoria se converteu, manipulada pelo bolchevismo, num meio para ocultar o conteúdo de classe da revolução bolchevique. Detrás dos conceitos e consignas marxistas, esconde-se uma revolução burguesa que foi realizada, sob a direção da intelectualidade pequeno-burguesa, pelas forças unidas do proletariado socialista e o campesinato ligado à propriedade privada, contra o absolutismo czarista, a nobreza latifundiária e a burguesia.

 

34.  Sob a concepção bolchevique do papel do Partido em sua relação com a classe operária, oculta-se a absoluta reivindicação da liderança por parte da intelectualidade revolucionária, pequeno-burguesa e jacobina. A intelectualidade pequeno-burguesa somente podia expandir sua organização e converte-la numa arma revolucionária ativa se atraísse e utilizasse as forças proletárias. Por isso chamou de proletário o seu partido jacobino. A subordinação da classe operária combatente a uma direção pequeno-burguesa era justificada pela doutrina bolchevique da «vanguarda» do proletariado, cuja prática se baseia no princípio segundo o qual o partido encarna à classe. Ou seja: o partido não é um instrumento dos proletários, os proletários são o instrumento do partido.

               

35. A necessidade de basear a política bolchevique nas duas classes subalternas da sociedade russa foi traduzida pelo bolchevismo na fórmula duma «aliança de classes entre o proletariado e o campesinato», uma aliança na qual se fundem, de modo voluntarista, interesses de classe antagônicos.

 

36. Os bolcheviques disfarçaram sua pretensão de dirigir incondicionalmente o campesinato sob a fórmula da «hegemonia do proletariado na revolução». Ora, considerando que o proletariado é dirigido pelo partido bolchevique, a «hegemonia do proletariado» significa a hegemonia do partido bolchevique e sua vontade de dominar ambas as classes.

 

37. A pretensão dos bolcheviques de tomar o poder apoiando-se nas duas classes encontra a sua expressão mais elevada na concepção bolchevique da «ditadura do proletariado». Essa fórmula, ligada à concepção do partido como organização dirigente da classe, significa, desde o começo, a onipotência da organização jacobino-bolchevique. Seu conteúdo de classe foi, ademais, completamente suprimido pela definição bolchevique da ditadura do proletariado como a «aliança de classes entre o proletariado e o campesinato sob a hegemonia do proletariado» (Stálin e o programa da III Internacional.) Deste modo, o princípio marxista da ditadura da classe operária foi deformado pelo bolchevismo ao fazer de tal ditadura uma dominação de duas classes opostas por um partido de caráter jacobino.

        

38. Os próprios bolcheviques sublinharam o caráter burguês de sua revolução, com sua fórmula revisada da «revolução popular» ("Volksrevolution"), com a qual entendem a luta comum das diferentes classes dum povo na mesma revolução. Essa é a consigna típica de toda revolução burguesa, ou seja: toda revolução que mobiliza, sob a direção burguesia, as massas de pequeno-burgueses e proletários em benefício da burguesia.

 

39. Em vista da luta da organização pelo poder sobre as classes revolucionárias, qualquer atitude democrática do bolchevismo converte-se num mero movimento táctico. Isto se viu sobretudo na questão da democracia operária nos sovietes. A consigna leninista, de Março de 1917, «Todo poder aos soviets», continuava fiel à característica fundamental da revolução russa (o sistema de duas classes), posto que os sovietes eram «conselhos de operários, camponeses e soldados» (e os soldados eram camponeses). Ademais, a consigna fora lançada por Lênin na revolução de fevereiro com uma finalidade tática, já que essa fórmula poderia assegurar a transição «pacífica» do domínio da coalizão social-revolucionária menchevique ao domínio dos bolcheviques, através do crescimento da influência destes nos sovietes. Depois da manifestação de Julho, a influência dos bolcheviques sobre os sovietes declinou. Lênin abandonou provisoriamente a consigna sobre os conselhos e demandou a organização doutros órgãos insurrecionais pelo partido bolchevique. Foi só quando, como resultado do golpe de Kornilov, a influência bolchevique cresceu rápida e fortemente nos sovietes, que o partido de Lênin relançou a consigna. Desde  que os bolcheviques consideraram os sovietes como órgãos insurrecionais, em lugar de como órgãos de autogoverno da classe proletária, deixavam claro que para eles os sovietes eram somente uma ferramenta, com ajuda da qual o seu partido poderia tomar o poder. Isto ficou demonstrado, na prática, não só com a organização do estado soviético depois da conquista do poder, mas também no caso particular da sangrenta repressão da sublevação de Kronstadt. No final dessa insurreição, as reivindicações capitalistas apresentadas pelos camponeses foram atendidas, pela política da NEP. As reivindicações democráticas do proletariado, contudo, foram afogadas no sangue proletário.

        

40. As disputas em torno da forma e da composição dos sovietes russos resultaram, já em 1920, na formação duma genuína - ainda que débil - corrente comunnista no partido russo. A Oposição Operária defendia a execução da democracia conselhista para a classe operária. Como toda oposição séria contra o regime, esta seria desmantelada mediante a prisão, o exílio ou a execução militar de seus membros, mas sua plataforma permaneceu como ponto de partida histórico para um movimento comunista-proletário, contra o regime bolchevique.

 

41. O problema dos sindicatos foi determinado igualmente pela atitude dos bolcheviques, de dominar e dirigir os operários. Na Rússia, os bolcheviques despojaram completamente os sindicatos de qualquer traço concernente à organização do trabalho, impondo-lhes, depois da tomada do poder, uma disciplina militar. Noutros países, o resultado final da política bolchevique tem sido proteger as organizações sindicais reformistas e burocráticas. Em vez de desmantelar tais organizações, os bolcheviques têm defendido a «conquista» do seu aparato. Eles eram os mais ferozes oponentes da idéia das organizações de fábrica revolucionárias, que encarnavam a democracia proletária. Os bolcheviques lutaram pela conquista ou renovação das organizações controladas por uma burocracia centralizada, as quais eles pretendiam dirigir ocupando seus postos de mando.

 

42. Como dirigentes de uma ditadura jacobina, os bolcheviques combateram sem tréguas a idéia da autodeterminação da classe operária e exigiram a subordinação do proletariado à organização burocrática. Antes da guerra, nas discussões que ocorreram sobre a questão da organização na II Internacional, Lênin fora um veemente e vingativo adversário de Rosa Luxemburgo e se apoiara, abertamente, no então centrista Kautsky, que, mais tarde, durante e depois da guerra, desmascarou-se por completo. Já naquela fase, o bolchevismo demonstrou (e a história posterior o confirmaria) que não só não entendia o desenvolvimento da consciência de classe e das organizações do proletariado, mas também que combatia por todos os meios todas as tentativas teóricas e práticas de articular verdadeiras organizações de classe e uma verdadeira política de classe.

   

VII.  A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE.

 

43. O bolchevismo chamou de burguesa a revolução de fevereiro, e de proletária a revolução de outubro. Assim, pretendia fazer passar seu regime como dominação do proletariado e sua política econômica como socialismo. Essa visão da revolução de 1917 é absurda, porque supõe que um desenvolvimento de sete meses teria sido suficiente para criar as bases econômicas e sociais da revolução proletária num país que mal tinha entrado no processo da revolução burguesa. Ou seja, essa visão presume saltar todo um processo de desenvolvimento econômico e social que requeriria, no mínimo, décadas. Na realidade, a revolução de 1917 é um processo de transformação unitária que começou com a derrubada do czarismo e alcançou seu apogeu na vitoriosa insurreição armada dos bolcheviques, o 7 de novembro. Este violento processo de transformação é o da revolução burguesa russa, nas peculiares condições históricas da Rússia.

 

44. Ao longo desse processo, o partido da intelectualidade jacobina revolucionária tomou o poder apoiando-se nos dois movimentos sociais que haviam desencadeado a insurreição de massas, os movimentos proletário e camponês. Para substituir o governo triangular derrocado (czarismo, nobreza e burguesia), criou-se o triângulo bolchevismo, campesinato e proletariado. Assim como o aparelho estatal do czarismo dominava as duas classes proprietárias, também o novo aparelho estatal bolchevique começou a tornar-se independente das duas classes que lhe serviam de base. A Rússia saiu do absolutismo czarista e caiu no absolutismo bolchevique.

 

45. A política dos bolcheviques alcança, no período revolucionário, seu auge com a mobilização e o controle das forças sociais da revolução. A tática revolucionária bolchevique culminou na preparação e execução da insurreição armada. A sublevação violenta converteu-se, para os bolcheviques, numa ação militar coordenada e minuciosamente planejada que tinha como motor e potência dirigente o partido bolchevique e suas tropas de choque. A concepção, preparação e execução da insurreição armada pelos bolcheviques leva o cunho da política de conspiração jacobina (que, na Rússia, era a única política possível): uma insurreição no contexto peculiar de uma revolução burguesa contra a burguesia. 

 

46. As consignas da revolução bolchevique, no plano econômico, evidenciaram seu caráter de revolução burguesa. Para as massas camponesas, os bolcheviques simbolizavam a expropriação violenta dos bens latifundiários mediante a ação espontânea da pequena burguesia ávida por terras. Em sua prática e consignas agrárias (Paz e Terra), os bolcheviques expressavam os interesses dos camponeses em luta para proteger a pequena propriedade privada (interesses capitalistas). Em vez de apoiar os interesses do proletariado socialista contra a propriedade feudal e capitalista da terra, os bolcheviques foram, na questão agrária, os defensores implacáveis dos interesses do pequeno capitalista.

 

47. No que diz respeito aos operários, o programa econômico da revolução bolchevique também não tinham um conteúdo socialista. Lênin rejeitara severamente a acusação menchevique de que o bolchevismo propunha uma política utópica de socialização da produção num país que ainda não estava maduro para isso. Os bolcheviques responderam que não se tratava em absoluto duma questão de socializar a produção, mas de por a produção sob o controle dos operários. A consigna “controle da produção” serviu à tentativa de manter a eficácia dos métodos capitalistas na organização técnica e econômica da produção, despojando-o do seu caráter de exploração. A consigna “controle da produção” enuncia o caráter burguês da revolução bolchevique, assim como o fato de que os bolcheviques se limitaram a estabelecer uma economia de tipo burguês (em lugar de consolidar os resultados da vitória de 1917).

 

48. A força elementar do avanço dos operários, por um lado, e a sabotagem dos patrões derrubados, por outro, fizeram os bolcheviques se apropriarem das empresas industriais e a confiar a direção das mesmas à burocracia governamental. A economia estatizada, sufocada durante o período do comunismo de guerra pela super-organização, foi chamada por Lênin de capitalismo de estado. Somente na era de Stálin a economia de estado passou a ser chamada de socialista. 

 

49. O próprio Lênin não tinha uma concepção básica da socialização da produção diferente de uma economia estatal dirigida burocraticamente. Para ele, a economia de guerra alemã e o serviço postal eram modelos de organização socialista: uma organização econômica burocrática e centralista. Lênin viu somente o lado técnico, não o lado proletário e social do problema da socialização. Lênin apoiou-se, e com ele o bolcheviques em geral, nos conceitos da socialização propostos pelo centrista Hilferding, que no seu «Capital financeiro» tinha pintado o quadro idealizado dum capitalismo completamente organizado. O verdadeiro problema da socialização da produção – apropriar-se das empresas e da organização da economia pela classe operária e dos seus órgãos de classe, os conselhos – foi ignorado pelo bolchevismo. E nem podia ser diferente, porque a idéia marxista da associação de produtores livres e iguais é antagônica, em essência, à concepção jacobina de organização, e porque Rússia não possuía as condições sociais e econômicas necessárias para o socialismo. O conceito de socialização dos bolcheviques não é, pois, senão uma economia capitalista gerida pelo estado e dirigida, de fora e por cima, pela sua burocracia. O socialismo bolchevique é capitalismo organizado pelo estado.

 

VIII.  O INTERNACIONALISMO DOS BOLCHEVIQUES E A «QUESTÃO NACIONAL».

 

50. Durante a guerra, de 1914-1918, os bolcheviques representaram uma posição internacionalista conseqüente, sob a consigna «transformar a guerra imperialista em guerra civil» e comportavam-se, aparentemente, como marxistas coerentes. Mas seu internacionalismo revolucionário era parte de sua tática, assim como o retrocesso em direção à NEP. O apelo ao proletariado internacional era só um aspecto duma ampla política cujo objetivo era ganhar o apoio internacional à revolução russa. O outro aspecto era a política e a propaganda da «autodeterminação nacional», em que a perspectiva de classe era abandonada, ainda mais radicalmente do que no conceito de «revolução popular», em favor dum apelo geral a elementos de todas as classes.

 

51. Esse internacionalismo de duas caras dos bolcheviques correspondia à situação internacional da Rússia e de sua revolução. Geográfica e sociologicamente, Rússia estava entre dois centros do sistema imperialista mundial. A coincidência da tendência imperialista ativa e a tendência colonial passiva do capital mundial produziu o desmoronamento desse sistema. As classes reacionárias foram incapazes de restabelecê-lo, como demonstrou sua decisiva derrota no golpe de Kornilov e, mais tarde, na guerra civil. O único perigo autêntico que ameaçava a revolução russa era o de uma intervenção imperialista. Só uma invasão militar por parte do capital imperialista poderia abater o bolchevismo e restaurar o czarismo, instrumento do sistema mundial de exploração imperialista. Para defender-se do imperialismo mundial, o bolchevismo tinha que organizar um contra-ataque nos centros imperialistas de poder. Daí a política internacional de duas caras do bolchevismo.

 

52. Em nome da revolução proletária mundial, o bolchevismo lançou o proletariado internacional ao ataque no centro do imperialismo mundial, nos países capitalistas mais desenvolvidos. Em nome do «direito à autodeterminação das nações», o bolchevismo lançou os povos camponeses oprimidos do Extremo Oriente contra o centro colonial do imperialismo mundial. Com essa política internacional em dois tempos, que abria imensas perspectivas, o bolchevismo tentou impulsionar o braço proletário e o braço camponês de sua revolução na esfera do capitalismo mundial.

 

53. Para o bolchevismo, a «questão nacional» era uma questão prática. Portanto, não só uma conveniência da revolução burguesa russa – uma revolução que utilizou os sentimentos nacionais das capas camponesas e das minorias nacionais oprimidas do Império russo para derrubar o czarismo. Essa posição reflete também o internacionalismo camponês de uma revolução burguesa que só se realizou na era do imperialismo mundial, e que só podia manter-se fora da rede internacional imperialista com a ajuda duma contrapolítica internacional ativa.

 

54. Para conduzir essa política de apoio internacional à revolução burguesa no território russo, o bolchevismo criou duas organizações internacionais: a III Internacional, para mobilizar os trabalhadores dos países capitalistas altamente desenvolvidos, e a Internacional Camponesa, uma organização para a utilização dos camponeses orientais. A finalidade dessa política internacional que se apoiava em duas classes (o proletariado e o campesinato) era a revolução mundial, na qual se incluía a revolução proletária internacional (européia e americana) e a revolução camponesa nacional (essencialmente, oriental), no marco de uma política mundial bolchevique, às ordens de Moscou. Assim, o conceito de «revolução mundial» tinha para os bolcheviques um conteúdo de classe totalmente diferente ao da revolução proletária internacional.

 

55. Portanto, a política internacional do bolchevismo era apenas uma repetição em escala mundial da revolução russa (combinando a revolução proletária e a revolução camponesa), política que situava o partido bolchevique russo no comando dum sistema mundial que combinava os interesses comunistas do proletariado com os interesses capitalistas dos camponeses. Esta política foi positiva na medida em que protegeu o estado bolchevique da invasão imperialista, obstaculizando as intenções dos estados capitalistas. E permitiu também ao estado bolchevique ocupar seu lugar no sistema imperialista mundial, utilizando métodos capitalistas de relações comerciais, acordos econômicos e pactos militares de não-agressão. Esta política deu à Rússia a oportunidade de se consolidar no âmbito nacional e de ampliar sua posição internacional.  Mas a tentativa de impulsionar políticas bolcheviques ativas em escala mundial fracassou. Com o fracasso da política bolchevique na China, o experimento da Internacional Camponesa faliu. A III Internacional, depois do fiasco do partido “comunista” alemão, deixou de ser um fator importante na política mundial bolchevique. A tentativa gigantesca de transplantar a política bolchevique russa à escala mundial fracassou historicamente, demonstrando as limitações nacionais do bolchevismo russo. Contudo, a experiência bolchevique na política de grande potência internacional forneceu tempo ao bolchevismo para recuar às posições nacionais (russas) e se converter aos métodos capitalistas-imperialistas de política internacional. Em teoria, esse recuo se justificou com a fórmula do «socialismo num só país», por meio da qual o conceito de «socialismo» que a prática econômica russa tinha amputado de seu conteúdo proletário e convertido externamente num capitalismo de estado, não diferia muito do reformismo e do fascismo pequeno-burguês.

 

56. É, de fato, inessencial, agora que podemos ver os resultados de 15 anos de bolchevismo, tanto no plano nacional quanto no internacional, se Lênin imaginava, no momento da fundação da III Internacional – e mesmo antes – que sua evolução seria o que foi. Na prática, o bolchevismo, com sua concepção do «direito à autodeterminação nacional», tem desenvolvido as tendências a uma política de grande potência mundial. E também contribuiu, através da III Internacional, decisivamente para que o proletariado europeu tenha sido incapaz de se elevar ao nível de um comunismo revolucionário e tenha permanecido no beco sem saída do reformismo, reformismo suscitado pelo bolchevismo com o enfeite de uma fraseologia revolucionária. Foi assim que o conceito da «Pátria russa» se tornou uma pedra angular dos partidos bolcheviques, enquanto que para o comunismo proletário é a classe operária internacional que deve estar no centro de toda orientação internacionalista.

 

IX.  O BOLCHEVISMO ESTATIZADO E A III INTERNACIONAL.

 

57. O estabelecimento do estado soviético foi o estabelecimento da dominação do partido do maquiavelismo bolchevique. A base sociológica desse poder estatal, autonomizado das classes que o apoiaram e que criou a burocracia bolchevique, era composta pelo proletariado e o campesinato russos. O proletariado, encadeado pela filiação compulsória aos sindicatos e pelo terrorismo da Checa, era a base da economia estatal bolchevique sob o controle da burocracia. O campesinato ocultava e esconde, ainda hoje, as tendências ao capitalismo privado da economia russa. Em sua política interna, o bolchevismo oscilava entre as duas tendências.  Tentou dominá-las através de métodos violentos, como o plano quinzenal e a coletivização forçada. Mas, na prática, apenas tem incrementado as dificuldades econômicas, chegando ao ponto de exasperar as tensões econômicas entre operários e camponeses. O experimento da economia nacional planificada burocraticamente não pode ser considerado, de modo algum, como um êxito. Os grandes cataclismos internacionais que ameaçam a Rússia só podem exacerbar os conflitos do seu sistema econômico, até fazê-los intoleráveis e, provavelmente, acelerar a ruína desse – até agora – gigantesco experimento econômico.

 

58. A economia russa está determinada essencialmente pelas seguintes características: apóia-se nas bases de uma produção de mercadorias; é gerida segundo as normas da rentabilidade; revela um sistema capitalista de remuneração, com salários e ritmos de trabalho acelerados; e, por fim, leva os refinamentos da racionalização capitalista ao extremo. A economia bolchevique é produção estatal que utiliza métodos capitalistas.

 

59. Essa forma de produção estatal inclui também a mais-valia, que é extorquida ao máximo dos trabalhadores. A mais-valia não beneficia direta e abertamente a nenhuma classe da sociedade russa, mas enriquece o aparelho parasitário da burocracia no seu todo.  Além de sua bastante custosa manutenção, a mais-valia produzida contribui para aumentar a produção, garantir o apoio da classe camponesa e para regular as dívidas no exterior. Portanto, a mais-valia produzida pelos operários russos não só beneficia a camada economicamente parasitária da burocracia no poder, mas os camponeses russos, enquanto setor particular do capital internacional. A economia russa é, pois, uma produção de lucro e de exploração. É capitalismo de estado nas condições históricas particulares do regime bolchevique, ou seja, uma produção de tipo capitalista que se diferencia da dos países mais industrializados e pretende ser muito mais avançada.

 

60. O capitalismo de estado bolchevique coloca o problema da libertação do proletariado russo novamente na agenda. A nova revolução proletária na Rússia, contra a burocracia bolchevique e seu estado, assim como contra o campesinato capitalista que tem se fortalecido politicamente nas coletividades, somente pode ocorrer em conexão com uma revolução proletária nos grandes estados capitalistas. Esta é tão inevitável quanto aquela. Especificamente, se considerarmos que o capitalismo de estado bolchevique e a sua política de industrialização acelerada tem melhorado suas perspectivas.

 

61. A política exterior da URSS tem sido determinada pela necessidade de reforçar a posição do partido bolchevique e do aparelho estatal controlado por ele. Economicamente, o governo russo tenta estabelecer uma base industrial forte. O isolamento da economia da Rússia exigiu uma vigorosa política de supressão da autarquia forçada, com a manutenção do controle do monopólio do comércio exterior. Tratados comerciais, concessões e transações para obter créditos volumosos restabeleceram os laços da economia estatal russa com a produção capitalista mundial e o seu mercado, no qual Rússia entrou – em parte como cliente cortejada, em parte como competidora feroz. Por outro lado, essa política econômica, ligada ao capitalismo mundial, obrigou o governo russo a cultivar relações amistosas e pacíficas com as potências capitalistas. Os princípios duma política mundial bolchevique, se é que existiram, foram subordinados de modo oportunista aos acordos comerciais. Toda a política exterior do governo russo tem se caracterizado por uma diplomacia capitalista e, assim, separou definitivamente, no campo internacional, a teoria bolchevique de sua prática.

 

62. O bolchevismo pôs, no centro de propaganda da III Internacional para o exterior, a tese do «cerco imperialista da União Soviética», ainda que tal frase não concordasse minimamente com as complicadas linhas de conflitos dos interesses imperialistas e seus agrupamentos continuamente cambiantes. O bolchevismo tentou mobilizar o proletariado internacional a serviço de sua política exterior, mediante uma política semiparlamentar e semigolpista praticada pelos partidos “comunistas”, para fomentar distúrbios nos países capitalistas e, assim, fortalecer a posição diplomática e econômica da Rússia.

 

63. Os conflitos entre a Rússia e as potências imperialistas desencadearam a contrapropaganda da III Internacional, sob as consignas: «Ameaça de guerra contra a U.R.S.S.», «Defendei a União Soviética». Assim, como esses conflitos lhes eram apresentados como os únicos determinantes da política, os proletários não podiam compreender a realidade efetiva dos fatos da política mundial. Os membros dos partidos “comunistas” foram convertidos, sobretudo, em cegos e oportunistas defensores da União Soviética, ignorando que ela ocupa, há muito tempo, um lugar privilegiado na política imperialista mundial.

 

64. O perpétuo grito de alarma, diante de uma guerra iminente das potências imperialistas aliadas contra a U.R.S.S., serviu na política interior para justificar a militarização intensiva do trabalho e o aumento da pressão sobre o proletariado russo. Ao mesmo tempo, contudo, a União Soviética tinha – e tem – o maior interesse em evitar um conflito militar com outros estados. A sobrevivência do governo bolchevique depende internamente, em grande medida, de sua capacidade para evitar toda convulsão, tanto militar quanto revolucionária, na política exterior. Então, a III Internacional, em flagrante contradição com sua teoria e propaganda internas, dedica-se na prática a sabotar todo verdadeiro desenvolvimento revolucionário proletário e, nos partidos “comunistas”, difunde a concepção de que a tarefa de consolidar as bases econômicas e militares da União Soviética é prioritária em relação ao avanço da revolução proletária na Europa.  Por outro lado, ainda que seja para salvaguardar seu prestígio, o governo russo não poupa gestos de hostilidade contra as potências imperialistas. Mas, na prática, sempre capitula. Um exemplo: a «venda» da via férrea manchu ao imperialismo japonês. O reconhecimento, às pressas, da União Soviética pelos Estados Unidos da América, nesse mesmo momento, é mais uma prova de que os poderes imperialistas também sabem, nos limites de seus interesses conflitantes, avaliar positivamente a União Soviética. Mas, sobretudo: a União Soviética tem reiterado seus laços com o capitalismo iniciando e estreitando relações econômicas particularmente firmes com a Itália fascista e a Alemanha de Hitler. A União Soviética se apresenta como um sólido apoio econômico e, portanto, político, da maioria das ditaduras fascistas mais reacionárias da Europa.

 

65. Essa política de entendimento incondicional entre a URSS e os países capitalistas imperialistas não tem só razões econômicas, nem é só uma expressão de inferioridade militar. A «política de paz» da União Soviética está, mais bem, totalmente garantida decisivamente pela situação interna do bolchevismo. De fato, a “política de paz” da União Soviética depende decisivamente da situação do bolchevismo no interior do país. Sua sobrevivência enquanto potência estatal autônoma depende de seu êxito em manter um equilíbrio entre a classe operária dominada e o campesinato. Apesar do avanço realizado na industrialização do país, o campesinato russo conserva ainda uma posição de força. Primeiro, em suas mãos está em grande medida, apesar das políticas repressivas, os recursos alimentícios do país. Segundo, a coletivização fortaleceu não só o poder econômico, mas também o poder político do campesinato, que como antes luta por interesses capitalistas privados. (De fato, a «coletivização» na Rússia significa uma união coletiva de camponeses proprietários privados que continuam utilizando métodos capitalistas de contabilidade e distribuição.) Terceiro e finalmente, numa guerra, o armamento em massa do campesinato criaria as condições para desencadear uma série de violentas rebeliões camponesas contra o poder bolchevique; assim como, por outro lado, uma revolução do proletariado na Europa faria provável uma rebelião aberta dos operários russos. Nessas bases, a política de entendimento entre o governo russo e as potências imperialistas é uma necessidade vital para o absolutismo bolchevique.

 

66. A própria III Internacional foi utilizada para manipular o proletariado internacional, para subordiná-lo aos objetivos oportunistas de glorificação nacional e da política de segurança internacional do estado russo. Fora da Rússia, a III Internacional se constituiu a partir da unificação dos quadros revolucionários do proletariado europeu. Usando a autoridade da revolução bolchevique, o princípio organizativo e tático do bolchevismo foi imposto na III Internacional com brutalidade e sem considerar as cisões que provocava. O comitê executivo da III Internacional – outra ferramenta da burocracia russa no poder – assumiu o comando de todos os partidos “comunistas” e a política desses partidos perdeu de vista completamente os interesses revolucionários da classe operária internacional. As frases e resoluções revolucionárias serviram de coberta para a política contra-revolucionária da III Internacional e seus partidos, que à maneira bolchevique se tornaram partidos da traição à classe operária e da demagogia irrestrita, como eram os partidos social-democratas. Assim como o reformismo pereceu, no sentido histórico, com a fusão do seu aparelho com o capitalismo, a III Internacional naufragava ao se unir à política capitalista da União Soviética.

 

X. O BOLCHEVISMO E O PROLETARIADO INTERNACIONAL.

 

67. O bolchevismo – nos princípios, na tática e na organização – é um movimento e um método para a revolução burguesa num país predominantemente camponês. Levou o proletariado (orientado num sentido comunista) e o campesinato (orientado num sentido capitalista) a um levante revolucionário, sob o comando ditatorial da intelectualidade jacobina, contra o estado absolutista, o feudalismo e a burguesia. Seu propósito era destruir o absolutismo capitalista-feudal.  Conhecendo as leis do desenvolvimento social e mediante uma estratégia de manipulação, acoplou os interesses de classe opostos de proletários e camponeses.

 

68. O bolchevismo é, pois, não só inútil como critério para a política revolucionária do proletariado internacional, mas um dos seus maiores e mais perigosos obstáculos. A luta contra a ideologia bolchevique, contra as práticas bolcheviques e, portanto, contra todos os grupos políticos que buscam implantá-las no proletariado, é uma das primeiras tarefas na luta pela reorientação revolucionária da classe operária. A política proletária somente poderá ser desenvolvida agindo no terreno da classe proletária, com os métodos e as formas de organização adequados para isso.



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