A Errância da Humanidade - Consciência Repressiva - Comunismo

 

Jacques Camatte


Introdução original de Black & Red

 

1 - Despotismo do capital

 

2. Crescimento das Forças Produtivas; Domesticação dos Seres Humanos

 

3. Consciência Repressiva

 

4. Comunismo


 

Nota dos tradutores: Traduzido de http://www.reocities.com/~johngray/camwan01.htm

 


Detalhes da publicação

 

O ensaio seguinte, juntamente com Declínio do Modo de Produção Capitalista ou Declínio da Humanidade, também de Jacques Camatte, foi traduzido para o inglês por Fredy Perlman. Ambos foram publicados, sob o título The Wandering of Humanity, por Black & Red (Detroit), em 1975. Eles foram reimpressos na antologia Against Domestication, de Autonomedia, em 1995. Os detalhes da publicação original estão na introdução de Black & Red, que reproduzimos abaixo.

 

Introdução original de Black & Red

 

Os ensaios incluídos na presente obra apareceram primeiro no jornal Invariance (ano 6, Série II Nº. 3, 1973), com os títulos "Errance de l'humanité; Conscience repressive; communisme", e "Declin du mode de production capitaliste ou declin de l'humanité?" O autor dos ensaios, Jacques Camatte, atuou com Amadeo Bordiga e o grupo de teóricos marxistas conhecido como esquerda comunista italiana. Depois dos acontecimentos de maio de 1968, na França, Camatte, junto com seus companheiros de Invariance, começou uma análise crítica das atividades da esquerda comunista italiana, das obras de Bordiga e de Marx. O título do jornal referia-se originalmente à "invariância da teoria do proletariado", a teoria da Liga dos Comunistas e da Primeira Internacional. Em 1973, os críticos diziam, sobre o jornal, que "nada varia mais do que Invariance". Camatte e seus camaradas, prosseguindo na análise crítica, foram levados a concluir que "o que é invariante é o desejo de redescobrir a comunidade humana perdida, e isto não pode ocorrer mediante um restabelecimento do passado, mas unicamente através de uma nova criação." Sua questão teórica os levou a uma completa recusa da teoria das organizações e partidos revolucionários, da teoria da consciência revolucionária, da teoria do progressivo desenvolvimento das forças produtivas. "O movimento de maio na França mostrou que o que é necessário é um novo modo de viver, uma nova vida." (as citações acima são do último artigo de Invariance Nº.3, 1973).

 

(...) Os ensaios na presente obra foram traduzidos do francês por Fredy Perlman, com a assistência de Camatte; as ilustrações foram selecionadas e preparadas por Allan Foster; Lorraine Perlman e Judy Campbell participaram na fotografia, impressão e encadernação.

(...)

 


 

 

A Errância da Humanidade - Consciência Repressiva - Comunismo

 

1 - Despotismo do capital

 

Quando alcança a dominação real sobre a sociedade, o capital se transforma numa comunidade material, superando o valor e a lei do valor, que sobrevivem apenas como algo "superado". O capital faz isto de duas maneiras: 1) a quantidade de trabalho incluída no capital-produto diminui enormemente (desvalorização); 2) a troca tende cada vez mais a desaparecer, primeiro da relação salarial, e depois, de todas as transações econômicas. O capital, que originalmente dependia da relação salarial, torna-se um déspota. Quando há valor, ele é atribuído pelo capital.

 

Capital é capital em processo. Ele adquiriu este atributo com a ascensão do capital fictício, quando a oposição valorização/desvalorização ainda tinha significado, quando o capital ainda não tinha realmente superado a lei do valor.

 

Capital em processo é capital em constante movimento; ele capitaliza tudo, assimila tudo e faz de tudo sua própria substância. Tornando-se autônomo, ele é "forma reificada" em movimento. Ele se torna intangível. Ele revitaliza seu ser - esse vasto metabolismo que absorve as antigas trocas ou as reduz a trocas de tipo biológico - despojando todos os seres humanoos em suas variadas atividades, por mais fragmentadas que sejam (é por isto que o capital obriga os seres humanos a se engajarem nas mais diversas atividades). É a humanidade que é explorada. Mais do que nunca, a expressão "exploração do homem pelo homem" se torna repulsiva.

 

Em seu estado perfeito, o capital é representação. Sua emergência nesse estado se deve à sua antropomorfização, isto é, à capitalização de seres humanos, [1] e à sua substituição do velho equivalente geral, o ouro. O capital necessita de uma representação ideal, posto que uma representação com substância inibe seu processo. O ouro, mesmo se não está totalmente desmonetizado, não pode mais funcionar como padrão. A atividade humana capitalizada se torna o padrão do capital, até mesmo essa dependência no valor e sua lei começam a desaparecer completamente. Isto pressupõe a integração dos seres humanos ao processo do capital e a internalização do capital nas mentes dos seres humanos.

 

O capital se torna representação através do seguinte movimento histórico: o valor de troca se torna autônomo, os seres humanos são expropriados, a atividade humana é reduzida ao trabalho, e o trabalho é reduzido ao trabalho abstrato. Isto acontece quando o capital emerge como fundamento da lei do valor. O capital se torna autônomo domesticando o ser humano. Após analisar-dissecar-fragmentar o ser humano, o capital o reconstrói como uma função de seu processo. A ruptura entre corpo e mente possibilitou a transformação da mente num computador programável pelas leis do capital. Graças, precisamente, à suas capacidades mentais, os seres humanos não apenas são escravizados, mas tornados escravos voluntários do capital. O que parece o maior paradoxo é que o próprio capital reintroduz a subjetividade que tinha sido eliminada quando da emergência da lei do valor. Toda atividade humana é explorada pelo capital. Podemos corrigir a afirmação de Marx, "o trabalho, adicionando um novo valor ao anterior, ao mesmo tempo mantém e eterniza [o capital]" [2] para dizer: toda atividade humana "eterniza" o capital.

 

O capital como representação supera a velha contradição entre monopólio e concorrência. Cada quantum de capital tende a se tornar a totalidade; a concorrência opera entre os vários capitais, cada um dos quais tende a se tornar a totalidade. Produção e circulação são unificadas; a antiga oposição entre valor de uso e valor de troca perde sua raison d´être. Além disso, o consumo é a utilização não só de produtos materiais, mas principalmente de representações que cada vez mais estruturam os seres humanos como seres de capital e revitalizam o capital como representação geral. Os preços não têm mais a função que tinham no período de dominação formal do capital, quando eram representação de valor; eles se tornaram meros índices ou signos de representações do capital. Mercadorias gratuitas – isto não é impossível.  O capital pode destinar uma quantidade específica de produtos a cada indivíduo programado; esta quantidade pode depender de uma atividade imposta ao indivíduo. Tal despotismo seria ainda mais poderoso que o atual. Os seres humanos desejariam ter o dinheiro que lhes "daria" livre acesso à diversidade de produtos.

 

Enquanto se desenvolvia, o capital sempre tendeu a negar as classes. Isto foi finalmente realizado através da universalização do trabalho assalariado e da formação - como estágio transitório - do que é chamado classe universal, um mero conjunto de homens e mulheres proletarizados, escravos do capital. O capital alcançou a completa dominação mistificando as exigências do proletariado clássico, pela sujeição do proletário como trabalhador produtivo. Mas, ao conseguir dominar pela mediação do trabalho, o capital provocou o desaparecimento das classes, desde que, simultaneamente, o capitalista como pessoa foi eliminado [3]. O Estado se torna sociedade quando a relação assalariada é transformada numa relação de constrangimento, numa relação estatista. Ao mesmo tempo, o Estado se torna uma empresa ou bando que faz a mediação entre as diversas gangues do capital.

 

A sociedade burguesa foi destruída e temos o despotismo do capital. Os conflitos de classe são substituídos por lutas entre gangues-organizações que são os diversos modos de ser do capital. Como resultado do domínio da representação, todas as organizações que pretendem se opor ao capital são engolidas por ele; elas são fagocitadas.

Este é o verdadeiro fim da democracia. Não se pode mais afirmar que há uma classe que representa a humanidade futura, e a fortiori não há partido nem grupo; não pode mais haver delegação de poder.

 

A publicidade reflete brutalmente o fato de que o capital é representação, de que ele sobrevive devido à sua representação na mente de cada ser humano (internalizando o que foi externalizado). A publicidade é o discurso do capital [4]: tudo é possível, todas as normas desapareceram. A publicidade organiza a subversão do presente em nome de um futuro aparentemente diferente.

 

"Hoje nos deparamos com o problema de permitir que o americano médio se sinta com moral quando namora, quando gasta e mesmo quando compra o segundo ou terceiro carro. Um dos problemas básicos dessa prosperidade é fornecer às pessoas uma sanção e justificação para desfrutá-la, mostrando-lhes que fazer de suas vidas um prazer é moral, e não imoral. Esta permissão dada ao consumidor de gozar livremente a vida, esta demonstração de que ele tem o direito de se cercar de produtos que enriquecem sua existência e lhe dão prazer seria um dos temas principais de toda publicidade e de cada projeto feito para aumentar as vendas." [5]

 

A desintegração da consciência que pode ser vista em manifestações como o movimento de emancipação das mulheres, o movimento de emancipação dos homossexuais e a antipsiquiatria (que só foram possíveis após as obras de Freud, Reich, e o movimento feminista do início do século) não é parte de um simultâneo surgimento da consciência revolucionária, mas apenas reflete o fim da sociedade burguesa baseada no valor de troca, num padrão fixo que afetava todos os níveis da vida humana. A desintegração começou quando o equivalente geral entrou em conflito com a circulação. Se o antigo equivalente geral preparava o terreno, agora se tornou inútil. O Estado tinha que forçar todos os sujeitos a respeitar uma normalidade baseada num padrão que estabelecia os valores da sociedade. A lei do valor aprisionava os seres humanos, moldando-os em estereótipos, em modos fixos de ser. O ápice do desenvolvimento da moral apareceu no imperativo categórico de Kant. Ao inutilizar o equivalente geral, tornando-se representação de si mesmo, o capital removeu as proibições e os esquemas rígidos. Neste ponto, os seres humanos são de tal modo fixados ao movimento do capital, que este pode funcionar com o ser humano normal ou anormal, moral ou imoral.

 

O ser humano finito, limitado, o indivíduo da sociedade burguesa, está desaparecendo. As pessoas estão clamando por um ser humano emancipado, um ser que é ao mesmo tempo um ser social e uma Gemeinwesen. Mas, atualmente, é o capital que está recompondo o homem, dando-lhe forma e matéria; o ser comunal vem na forma do trabalhador coletivo, a individualidade vem na forma do consumidor de capital. Visto que o capital é indefinido, ele permite ao ser humano o acesso a um estado além do finito, num devir infinito de apropriação que nunca se realiza, renovando a cada instante a ilusão de total florescimento.

 

O ser humano feito à imagem do capital deixa de considerar qualquer evento como definitivo, mas apenas como um instante num processo infinito.  O gozo é permitido, mas nunca é possível. O homem se torna um voyeur sensual e passivo, e o capital, um ser sensual e supra-sensual. A vida humana deixa de ser um processo e se torna linear. Aspirado pelo processo do capital, o homem não pode mais ser "ele mesmo". Essa aspiração o esvazia, criando um vácuo que ele deve continuamente preencher com representações (capital).  Em termos gerais, o capital em processo assegura sua dominação ao tornar linear todo processo. Assim, ele quebra o movimento da natureza, levando à destruição da natureza. Mas se a destruição pode pôr em perigo o seu processo, o capital se adapta à natureza (através de medidas antipoluição, por exemplo).

 

O não-vivo se torna autônomo – e triunfa. Morte em vida: Hegel a intuiu, Nietzsche a descreveu, Rainer Maria Rilke a cantou, Freud quase a institucionalizou (instinto de morte), o dadaísmo a exibiu como arte bufona, e os "fascistas" a exaltaram: "Viva a morte". O movimento feminista dos EUA individualizou-a:

 

"O homem gosta da morte – ela excita sua sexualidade e, já morto por dentro, ele quer morrer." [6]

 

A autonomia da forma afeta todos os aspectos da vida dominada pelo capital. O conhecimento só é válido se formalizado, esvaziado de conteúdo. O conhecimento absoluto é a tautologia perfeita; é a forma morta estendida sobre todo conhecimento. A ciência é sua sistematização; a epistemologia é sua redundância.

 

Na era de sua dominação real, o capital fugiu ao controle (como os cibernéticos apontaram), ele escapou [7]. Não é mais controlado pelos seres humanos. (Seres humanos, na forma de proletários podem, ao menos passivamente, representar uma barreira ao capital). Ele não é mais limitado pela natureza. Alguns processos de produção, mantidos por um tempo excessivo, entram em choque com as barreiras naturais: explosão demográfica, destruição da natureza, poluição. Mas, teoricamente, essas barreiras não podem ser consideradas insuperáveis pelo capital. Atualmente, há três vias possíveis para o modo de produção capitalista: (além da destruição da humanidade - hipótese que não pode ser ignorada):

 

- autonomia completa do capital: uma utopia mecânica, na qual os seres humanos se tornam simples acessórios de um sistema automatizado, embora ainda desempenhando um papel executivo;

 

- mutação do ser humano ou uma mudança da espécie: produção de um ser perfeitamente programável que perdeu todas as características da espécie Homo sapiens. Isso não requer um sistema automatizado, já que esse ser humano aperfeiçoado seria fabricado para fazer qualquer coisa;

 

- loucura generalizada: no lugar dos seres humanos e com base em suas atuais limitações, o capital realiza tudo que eles desejam (normal ou anormal), mas os seres humanos não podem se encontrar e o gozo é continuamente lançado no futuro. O ser humano é vencido pelo descontrole do capital, e o mantém em movimento [8].

 

No fundo, o resultado é o mesmo: a evolução do ser humano é congelada, mais rapidamente num caso do que em outro. Essas possibilidades são limites abstratos; na realidade, elas tendem a se desdobrar de uma maneira simultânea e contraditória. Para seguir seu curso infinito, o capital é forçado a exigir a atividade dos seres humanos, a exaltar sua criatividade. E, para assegurar sua permanência, o capital tem que agir depressa. Ele se choca com barreiras de tempo e espaço ligadas à diminuição dos recursos naturais (que não podem ser completamente substituídos por produtos sintéticos) e ao crescimento desordenado da população humana (que causa o desaparecimento de inúmeras formas de vida).

 

Torna-se claro que empunhar a bandeira do trabalho ou de sua abolição é permanecer no terreno do capital, no quadro de sua evolução. Mesmo o movimento para a generalização ilimitada dos desejos é isomórfico ao movimento indefinido do capital.

 

O modo de produção capitalista não é decadente e nem pode ser decadente. Certamente, a sociedade burguesa se desintegrou, mas isto não leva ao comunismo. No máximo, poderíamos dizer que o comunismo foi afirmado em oposição à sociedade burguesa, mas não em oposição ao capital. A fuga do capital não foi percebida; de fato, esta escapada foi percebida com o surgimento dos movimentos fascista, nazista, das frentes populares, do New Deal etc., movimentos que são transições da dominação formal à dominação real. Pensava-se que o comunismo estava emergindo da socialização da atividade humana e, portanto, da destruição da propriedade privada, enquanto, na realidade, o capital estava emergindo como uma comunidade material.

 

 

Notas

 

[1] Isso não exclui um movimento oposto: o capital força os seres humanos a ser humanos.

 

[2] Karl Marx, Grundrisse, London: Pelican, 1973, p. 365.

 

[3] Aqui, vemos uma convergência com o modo de produção asiático, no qual as classes nunca podiam se tornar autônomas; no modo de produção capitalista, elas são absorvidas.

 

[4] Ver o livro de D. Verres, Le discours du capitalisme, Ed. L'Herne. Material interessante também pode ser encontrado nas obras de Baudrillard: Le système des objets e Pour une critique de l'economie politique du signe, Ed. Gallimard.

 

[5] Dichter, citado por Baudrillard em Le système des objets, pp. 218-219.

 

[6] Valerie Solanas, The SCUM Manifesto (The Society for Cutting Up Men), New York: Olympia Press, 1970.

 

[7] Analisamos a autonomização do capital em Le VIe chapitre inédit du Capital et l'ouvre économique de Marx (1966), particularmente nas notas adicionadas em 1972.

 

Num futuro artigo, analisaremos este assunto mais detalhadamente, mostrando que Marx tinha levantado o problema sem reconhecê-lo em sua totalidade, e analisando o modo de produção capitalista de hoje. Isto também nos levará a definir o trabalho e seu papel no desenvolvimento da humanidade. G. Brulé já iniciou uma análise semelhante em seu artigo em Invariance Nº. 2, Série II: "Le travail, le travail produtif et les mythes de la classe ouvriére et de la classe moyenne". (Trabalho, trabalho produtivo e os mitos da classe operária e da classe média).

 

Em geral, podemos dizer que o conceito de trabalho é redutor: ele abrange só uma parte da atividade humana. Mas reivindicar sua abolição é reivindicar a destruição desse resíduo de atividade, o que é uma demanda utópica do capital. O projeto do comunismo se insere no contexto da vida humana, a atividade é apenas uma modalidade de expressão. O amor, a meditação, o fantasiar, o jogo e outras manifestações dos seres humanos são colocados fora do campo da vida quando nos atrapalhamos com o conceito de trabalho. Marx definiu o trabalho como uma atividade que transforma a natureza ou a matéria para algum propósito, mas esse conceito de natureza não é mais aceitável. No período de dominação do capital, o ser humano não está mais em contato com a natureza (principalmente, durante o trabalho). Entre a natureza e o indivíduo há o capital. O capital se torna natureza.

 

Por outro lado, em suas obras "filosóficas", Marx se refere claramente a toda atividade humana e afirma que o comunismo não pode ser reduzido à libertação do trabalho. Esta posição não desaparece completamente nas demais obras de Marx, e sobrevive ao lado da concepção "reformista revolucionária" expressa em O Capital. Para os marxistas, mais tarde, o problema é simplificado: eles exaltam o trabalho, pura e simplesmente. Na obra de Trotsky, por exemplo, não resta um traço da complexa análise de Marx, mas ela antes exibe uma linguagem de domesticação, a linguagem do capital: "A totalidade da história da humanidade é uma história da organização e educação do homem social pelo trabalho, com vistas a obter uma maior produtividade". (Terrorism and Communism).

 

[8] Essa possibilidade é descrita e exaltada em Future Shock, de Alvin Toffer.

 

 

 

 

2. Crescimento das Forças Produtivas; Domesticação dos Seres Humanos

 

O modo de produção capitalista só se tornaria decadente com a irrupção da efetiva revolução contra o capital. Considere-se que, há um século, os seres humanos estão regredindo, eles vêm sendo domesticados pelo capital. Esta domesticação é a fonte da incapacidade do proletariado de libertar a humanidade. As forças produtivas continuam a crescer, mas são forças do capital.

 

"A produção capitalista desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social apenas se, simultaneamente, usa as duas fontes de que toda riqueza jorra: a terra e o trabalhador" [9].

 

Não faz sentido proclamar que as forças produtivas da humanidade pararam de crescer, que o modo de produção capitalista começou a decair. Tais concepções revelam a incapacidade de muitos teóricos de reconhecer a fuga do capital e, portanto, de compreender o comunismo e a revolução comunista. Paradoxalmente, Marx analisou a decomposição da sociedade burguesa e as condições para o desenvolvimento do modo de produção capitalista: uma sociedade em que as forças produtivas podem se desenvolver livremente. O que ele apresentava como o projeto do comunismo foi realizado pelo capital.

 

Marx elaborou uma dialética do desenvolvimento das forças produtivas [10]. Ele afirmava que a emancipação humana dependia de sua mais completa expansão. A revolução comunista – portanto, o fim do modo de produção capitalista – era para ocorrer quando este modo de produção não fosse mais "amplo o suficiente" para conter as forças produtivas. Mas Marx se atrapalhou numa ambigüidade. Ele pensava que o ser humano fosse uma barreira ao capital, e que o capital destrói os seres humanos por frearem seu desenvolvimento enquanto força produtiva. Marx também sugeriu que o capital pode escapar da barreira humana. Ele foi levado a postular uma autonegação do capital. Esta autonegação tomaria a forma de crises, as quais ele percebia como momentos em que o capital é reestruturado (uma regeneração efetuada pela destruição de produtos que inibem o processo: outra razão pela qual o capitalismo deve desaparecer), ou como o momento real em que o capital é destruído.

 

Em outras palavras, enquanto fornecia os elementos necessários para entender a dominação real do capital sobre a sociedade, Marx não desenvolvia o conceito; ele não reconheceu a fuga do capital. Para Marx, o ouro permanecia uma barreira para o capital, a contradição entre valorização e desvalorização ainda tinha força, a despossessão e estranhamento dos proletários permaneciam um obstáculo para a evolução do capital.

 

"No desenvolvimento das forças produtivas, surge um estágio em que as forças produtivas  e os meios de troca tornam-se, sob as relações existentes, somente um entrave, e deixam de ser forças produtivas para ser forças destrutivas (maquinaria e dinheiro)..."

 

(Antes de continuar a citação, gostaríamos de mencionar o retardamento daqueles que proclamam que atualmente o capital desenvolve apenas forças destrutivas. Para Marx, já em 1847, o capital é destruição; ele continuou a manter esta visão.)

 

"... e, conectado com isto, uma classe que suporta todos os fardos da sociedade sem desfrutar suas vantagens, que é excluída da sociedade,  é forçada ao mais decidido antagonismo na relação com  todas as outras classes; uma classe formada pela maioria dos membros da sociedade, e da qual emana a consciência da necessidade de uma revolução fundamental, a consciência comunista, a qual pode, bem entendido, também surgir em outras classes desde que compreendam a situação desta classe." [11]

 

O proletariado é a grande esperança de Marx e dos revolucionários de sua época. Esta é a classe cuja luta por emancipação libertará toda humanidade. A obra de Marx é, então, uma análise do modo de produção capitalista e do papel do proletariado nele. É por isso que a teoria do valor e a teoria do proletariado são relacionadas, embora não diretamente:

 

"Aplicada, a teoria ricardiana segundo a qual a totalidade do produto social pertence aos trabalhadores como seu produto, porque eles são os únicos produtores reais, leva diretamente ao comunismo. Mas, como Marx também indica na supracitada passagem, formalmente, ela é economicamente incorreta, pois ela é simplesmente uma aplicação da moral à economia. Conforme as leis da economia burguesa, a maior parte do produto não pertence aos trabalhadores que o produziram. Se dissermos: isto é injusto, não deveria ser assim, então o que estaríamos dizendo não teria nada a ver com economia. Estaríamos meramente dizendo que esse fato econômico está em contradição com o nosso senso moral. Marx, portanto, nunca baseou suas exigências comunistas sobre isto, mas sobre o colapso inevitável do modo de produção capitalista que está acontecendo diariamente diante de nossos olhos, num grau cada vez maior..." [12]

 

Marx não desenvolveu uma filosofia da exploração, como Bordiga com freqüência repetia. Como o modo de produção será destruído, e no que consiste essa "ruína"? (Engels, em 1884, forneceu argumentos para aqueles que hoje falam em decadência do capitalismo). Isto não é especificado. Depois de Marx, o proletariado continuou sendo a classe necessária à destruição final, à definitiva abolição do capitalismo, e tinha-se a certeza de que o proletariado seria forçado a fazer isto.

 

Bernstein apreendeu esse aspecto da teoria de Marx, e se dedicou a demonstrar que não havia contradições que levassem à dissolução [13]. Mas isto levou Bernstein a se tornar um apologista da velha sociedade burguesa, cujo capital estava em vias de ser destruído, especialmente depois de 1913; conseqüentemente, sua obra não esclarece de nenhuma maneira a situação atual.

 

Marx deixou-nos o material necessário para superar a teoria do valor e a teoria do proletariado. As duas teorias estão relacionadas e se justificam reciprocamente. Nos Grundrisse, Marx exalta o modo de produção capitalista, que considera revolucionário. Ele não diz explicitamente que o proletariado tem este atributo na medida em que porta as leis internas do capitalismo. O proletariado está presente na análise. Marx postula que a miséria do proletariado necessariamente o empurrará à revolta, à destruição do modo de produção capitalista e, assim, a libertar o que for progressivo neste modo de produção, a saber, a tendência a expandir as força produtivas.

 

Em O Capital, não se trata do proletariado como a classe que representa a dissolução da sociedade, como sua negação. Trata-se da classe operária, uma classe mais ou menos integrada na sociedade e que se engaja no reformismo revolucionário: luta por aumentos salariais, contra o trabalho pesado imposto às mulheres e crianças, luta pela redução da jornada de trabalho.

 

No fim do primeiro volume, Marx explica a dinâmica que leva à expropriação dos expropriadores, o aumento da miséria [14] que forçará o proletariado a se insurgir contra o capital [15].

 

No terceiro volume, e também na Crítica do Programa de Gotha, Marx não descreve uma real descontinuidade entre capitalismo e comunismo.  As forças produtivas continuam a crescer. A descontinuidade reside no fato de que o objetivo da produção é invertido (depois da revolução; isto é, a descontinuidade é temporal). O objetivo não é mais a riqueza, mas os seres humanos. Contudo, se não há descontinuidade real entre capitalismo e comunismo, os seres humanos devem ser transformados intencionalmente; de que outra maneira o objetivo poderia ser invertido? Este é o reformismo revolucionário de Marx, na sua máxima amplitude. A ditadura do proletariado, a fase de transição (nos Grundrisse, é o próprio modo de produção capitalista que constitui esta fase transitória: isto é obviamente de extrema relevância  para o modo como definimos o comunismo atualmente) é um período de reformas, sendo as mais importantes a redução da jornada de trabalho e o uso do bônus de trabalho. O que devemos notar aqui, ainda que não insistamos sobre isso, é a conexão entre reformismo e ditadura.

 

O proletariado parece ser necessário para guiar o desenvolvimento das forças produtivas além do pólo do valor, aproximando-o do pólo da humanidade. Pode acontecer que o proletariado seja integrado pelo capital, mas - e diversos marxistas abusam disso - as crises destroem as reservas do proletariado e o reinstalam em seu papel revolucionário. Então, a insurreição contra o capital é novamente possível.

 

Assim, a obra de Marx parece ser, em grande medida, a autêntica consciência do modo de produção capitalista. A burguesia e os capitalistas subseqüentes foram capazes de expressar apenas uma falsa consciência com ajuda de suas várias teorias. Posteriormente, o modo de produção capitalista teria realizado o projeto proletário de Marx. Permanecendo num terreno estritamente marxista, o proletariado e seus teóricos foram superados pelos seguidores do capital. Tendo alcançado a dominação real, o capital confirma a validade da obra de Marx em sua forma reduzida (como materialismo histórico). Os proletários alemães, no início deste século, enquanto pensavam que suas ações estavam destruindo o modo de produção capitalista, não viam que estavam apenas tentando geri-lo. A falsa consciência apossou-se do proletariado.

 

O materialismo histórico é a glorificação da errância na qual a humanidade se engajou há mais de um século: o crescimento das forças produtivas como a condição sine qua non da emancipação. Mas, por definição, todo crescimento quantitativo ocorre na esfera do indefinido, o falso infinito. Quem medirá o "tamanho" das forças produtivas para determinar se chegou ou não o grande dia? Para Marx, havia um duplo e contraditório movimento: o crescimento das forças produtivas e a miserabilização do proletariado; isto levaria a uma colisão revolucionária. Dito em outros termos, havia uma contradição entre a socialização da produção e a apropriação privada.

 

O momento em que as forças produtivas alcançassem o nível requerido para a transformação do modo de produção deveria ser aquele em que começaria a crise do capitalismo. Esta crise deveria expor a estreiteza deste modo de produção e sua incapacidade para conter novas forças produtivas, fazendo assim visível o antagonismo entre as forças produtivas e as formas capitalistas de produção. Mas o capital se evadiu; ele absorveu as crises e conseguiu prover uma reserva social para os proletários. Para muitos, só resta avançar: uns dizem que as forças produtivas ainda não estão suficientemente desenvolvidas, outros dizem que pararam de crescer. Ambos reduzem todo o problema à organização da vanguarda, o partido, ou à tarefa de conscientização.

 

Desenvolvimento, no contexto da errância, é desenvolvimento no contexto da mistificação. Marx considerava a mistificação o resultado de uma relação invertida: o capital, produto da atividade do trabalhador, aparece como criador. A mistificação se enraíza em eventos reais; é a realidade em processo que mistifica. Algo é mistificado mesmo através de uma luta do proletariado contra o capital; a mistificação generalizada é o triunfo do capital. Mas se, como conseqüência de sua antromorfização, essa realidade produzida pela mistificação é agora a única realidade, então a questão deve ser posta de modo diferente. 1) Desde que a mistificação é estável e real, não se trata de esperar por uma desmistificação que apenas exporia a verdade da situação anterior. 2) Devido à fuga do capital, a mistificação aparece como realidade e, assim, é absorvida e se torna inoperante. Eis o despotismo do capital.

 

Afirmar que a mistificação ainda é operante poderia significar que os seres humanos são capazes de se engajar em relações reais e são continuamente mistificados. De fato, a mistificação foi operante e se tornou realidade. Trata-se de um estágio histórico já concluído. Isto não elimina a importância de entendê-la e estudá-la, assim como de entender o movimento que levou ao estágio atual do modo de produção capitalista e estar consciente dos agentes reais através das épocas.

 

 Ambas, a realidade mistificante-mistificada e a realidade previamente mistificada devem ser destruídas. A mistificação só é “visível” se rompermos (sem ilusões quanto às limitações desta ruptura) com as representações do capital. A obra de Marx é muito importante para esta ruptura. Mas ela tem um defeito grave: deixa de explicar toda a magnitude da mistificação, porque não reconhece a fuga do capital.

 

Antes, a revolução era possível tão logo a mistificação fosse exposta; o processo revolucionário era sua destruição. Hoje, o ser humano foi absorvido, não só na determinação de classe em que esteve preso há séculos, mas como um ser biológico. É uma totalidade que deve ser destruída. Já não basta desmistificar. A revolta dos seres humanos ameaçados na imediatez de suas vidas cotidianas vai além da desmistificação. O problema é criar outras vidas. Este problema está, simultaneamente, fora do antigo discurso do movimento operário e sua velha prática, e fora da crítica que considera esse movimento uma simples ideologia (e considera o ser humano uma borra ideológica).

 

Notas

 

[9] Marx, O Capital, Vol. 1.

 

[10] Isto requer um estudo detalhado, que incluiria a análise do trabalho. No artigo seguinte, iniciamos tal estudo: ele apresenta as primeiras conclusões a que chegamos. Em particular, queremos analisar o estágio dessa decadência da humanidade, como se expressa etc. Além disso, queremos mostrar a íntima conexão entre o movimento do valor e a dialética das forças produtivas. O fim do movimento do valor e do capital é o fim de um modo de representação e destrói sua autonomia. A dialética marxiana será completamente superada.

 

[11] Marx & Engels, A Ideologia Alemã.

 

[12] Engels, Prefácio de A Miséria da Filosofia, de Marx.

 

[13] Ver particularmente "The Movement of Income en Modern Society" e "Crises and Possibilities of Adaptation" em Presuppositions of Socialism and the tasks of Social Democracy, Rowohlt, pp. 75 e seguintes.

 

[14] Aqui, devemos ter cuidado. Como Bordiga justamente observou, para não reduzir isso a um conceito econômico.

 

[15] Marx, O Capital, Vol. 1.

 


 

3. Consciência Repressiva

 

A mistificação afeta não só a sociedade capitalista, mas a teoria do capitalismo. A teoria marxista elevada ao nível de consciência proletária é uma nova consciência: consciência repressiva. Descreveremos algumas de suas características, deixando de lado a questão de determinar se todas as formas de consciência através da história são repressivas ou não.

 

O objeto da consciência repressiva é o objetivo que ela pensa que controla. Visto que há um fosso entre o objetivo e a realidade imediata, esta consciência se torna teleológica e refina as diferenças entre o programa mínimo ou imediato e o programa máximo, futuro ou mediato. Quanto mais longo o caminho para sua realização, tanto mais a consciência faz de si o objetivo e se reifica numa organização que deve encarnar o objetivo.

 

O projeto dessa consciência é enquadrar a realidade em seu conceito. Esta é a fonte de todos os sofismas sobre a divergência entre elementos objetivos e subjetivos. O que existe, mas não pode ser. E precisamente por sua inabilidade para ser, tem que negar e desprezar o que quer seja que está tentando emergir, tentando ser.

 

Em outras palavras, existe - mas necessita de determinados eventos para ser real. Posto que é um produto do passado, é refutada por cada evento atual. Assim, só pode existir como uma polêmica com a realidade. Ela recusa tudo. E só pode sobreviver por congelamento, tornando-se cada vez mais totalitária. Para funcionar, deve ser organizada: daí a mística do partido, dos conselhos, e de outras coagulações da consciência despótica.

 

Toda ação direta que não reconhece essa consciência (e toda gangue política pretende encarnar a consciência verdadeira) é condenada por ela. A condenação é seguida pela justificação: a impaciência dos que se revoltam, falta de maturidade, provocação da classe dominante. A figura se completa com a ladainha sobre o caráter pequeno-burguês dos eternos anarquistas e o utopismo de intelectuais ou jovens. As lutas não são reais se não ressuscitam a consciência de classe; alguns defendem a guerra como um meio para que essa consciência seja enfim produzida.

 

A teoria se tornou consciência repressiva. O proletariado se tornou um mito, não em termos de sua existência, mas em termos de seu papel revolucionário, como classe que deve libertar toda a humanidade e assim resolver todas as contradições sócio-econômicas. Na realidade, ele existe em todos os países caracterizados pela dominação formal do capital, nos quais ainda constitui a maioria da população. Em países caracterizados pela dominação real do capital, ainda encontramos um grande número de homens e mulheres sob condição semelhante a dos proletários do século XIX. Mas a atividade de cada partido e de cada grupo é organizada em torno do mito. O mito é a sua fonte. Tudo começa com o aparecimento dessa classe que é definida como a única classe revolucionária da história, ou, ao menos, como a mais revolucionária. O que quer que tenha acontecido antes é ordenado como uma função do surgimento desta classe, e os eventos anteriores são secundários com relação àqueles vividos ou criados pelo proletariado. Ele define até o comportamento. Tudo que for proletário é salvo; quem não for deve expiar esta falta com várias práticas, indo tão longe quanto prestar “serviço revolucionário obrigatório” em fábricas. Um grupo consegue ser revolucionário quando exibe um ou vários proletários "autênticos". A presença do homem com mãos calosas é a garantia, o certificado de autenticidade revolucionária. O conteúdo do programa defendido pelo grupo, sua teoria, mesmo suas ações, perdem a importância; tudo que importa é a presença ou ausência do "proletário". O mito sustenta e revive o antagonismo entre intelectual e manual. Muitos conselhistas fazem um culto do anti-intelectualismo que lhes serve como substituto da teoria e como justificação. Eles podem pronunciar qualquer idiotice; serão salvos; são proletários.

 

Assim como muitos pensam que quando alguém sai do partido deixa por isso de ser revolucionário, também há quem considere impossível ser revolucionário sem reivindicar uma posição proletária, sem incorporar as virtudes ditas proletárias. A contra-revolução acabaria nas fronteiras míticas que separam o proletariado do resto do corpo social. Qualquer ação é justificada em nome do movimento proletário. Não se age porque é necessário agir, devido ao ódio ao capital, mas porque o proletariado deve recuperar sua base de classe. Ação e pensamento são revelados por intermediários.

 

Foi desse modo que, sobretudo depois de 1945, o proletariado como classe revolucionária sobreviveu a si mesmo: pelo seu mito.

 

Um estudo histórico dos movimentos proletários revolucionários exporia o caráter limitado desta classe. O próprio Marx mostrou claramente seu caráter reformista. Fundamentalmente, de 1848, quando reivindicava o direito ao trabalho, até 1917-1923, quando reivindicava pleno emprego e autogestão por sindicatos operários, o proletariado rebelou-se unicamente no interior do sistema capitalista. Isto parece conflitar com as afirmações de Marx em "Notas Críticas sobre o Artigo 'O Rei da Prússia e a Reforma Social' por um prussiano". Mas naquele momento o proletariado realmente se manifestava como uma classe sem reservas, como uma negação total. Estava forçado a criar uma profunda ruptura que possibilitaria um entendimento do que a revolução comunista e o comunismo podem ser. Marx estava certo.  Mas o modo de produção capitalista, para sobreviver, foi forçado a aniquilar a negação que o minava. O proletariado que está fora da sociedade, como disseram Marx e Engels em A Ideologia Alemã, agora é cada vez mais integrado à sociedade; é integrado, na medida em que luta pela sobrevivência, por sua afirmação; quanto mais ele se organiza, mas se torna reformista. Ele teve êxito, com o Partido Socialista Alemão, em formar uma contra-sociedade que é finalmente absorvida pela sociedade do capital, e o movimento negativo do proletariado acabou [16].

 

Kautsky, Bernstein e Lênin não teriam simplesmente reconhecido a realidade do movimento operário quando declararam que era necessário unificá-lo com o movimento socialista: "O movimento operário e o socialismo não são de modo algum idênticos por natureza." (Kautsky)?

 

A desacreditada afirmação de Lênin, de que o proletariado, se deixado a si mesmo, só pode alcançar a consciência sindical não descreve a verdade sobre a classe atada ao capital? Isto só pode ser criticado do ponto de vista da distinção feita por Marx, em A Miséria da Filosofia, entre classe como objeto do capital e classe como sujeito. Sem uma sublevação revolucionária, o proletariado não pode se tornar sujeito. O processo pelo qual o proletariado se tornaria sujeito implicava uma consciência exterior que, num dado momento, se encarnaria no proletariado. Esta consciência vinda de fora é a forma mais reificada e alienada de consciência repressiva! Conseqüentemente, não se trata de requentar o debate e retornar a Marx, trata-se de reconhecer que o ciclo da classe proletária terminou, antes de tudo porque seus objetivos foram realizados, depois, porque ela não é mais determinante no contexto global. Chegamos ao fim do ciclo histórico em que a humanidade (principalmente a parte situada no ocidente) movia-se dentro de sociedades de classes. O capital realizou a negação das classes - mediante a mistificação, posto que ele assimila os conflitos e colisões que caracterizam a existência de classes. A realidade é despotismo do capital. É o capital que devemos encarar, não o passado.

 

Quase todos os social-democratas foram conscientes do divórcio entre o movimento real, reformista, da classe operária e o objetivo socialista. Bernstein proclamava que era necessário se adaptar de uma vez por todas, clara e honestamente, não hipocritamente (como a maioria dos socialistas) fazendo discursos revolucionários para esconder compromissos [17]. Ao mesmo tempo, tornou-se cada vez mais problemático definir e delimitar a classe proletária. O problema se tornou tão agudo que, no começo deste século, quase todos os revolucionários estavam tentando definir o proletariado em termos de consciência: Rosa Luxemburgo, Pannekoek, diretamente; Lênin, Trotsky, indiretamente pelo partido etc. A revolução russa apenas aumentou a urgência de especificar a classe proletária; este é o contexto das tentativas de Korsch, e especialmente de Lukács em História e Consciência de Classe. Mais tarde, Bordiga diria que a classe poderia ser definida em termos do modo de produção que ela constrói. Assim, ela só pode ser uma classe para si no momento em que suas ações se orientam para esse objetivo, só na medida em que ela reconhece seu programa (o qual descreve esse modo de produção). Para Bordiga, ela existe quando o partido existe, porque o programa só pode ser conduzido pelo partido. "Ainda necessitamos de um objeto, o partido, para a prefiguração da sociedade comunista" [18]. Mas, na medida em que homens e mulheres são capazes de se moverem por si mesmos para o comunismo, como é evidente entre os jovens hoje, torna-se óbvio que este objeto, o partido, não é necessário.

 

Em suma: para os defensores tanto do partido quanto dos conselhos, o problema da ação seria amplamente reduzido a encontrar um meio direto ou indireto de tornar o proletariado receptivo à sua própria consciência - visto que, neste ponto de vista, o proletariado só é ele mesmo através de sua consciência de si.

 

 

 

Notas

 

[16] O que prova que era impossível defender um discurso e comportamento "classista" enquanto se mantém a tese "aclassista" básica da necessidade de autonegação do proletariado.

 

[17] Sobre este assunto, ver o livro de H. Mueller publicado em 1892, Der Klassenkampf in der Deutschen Sozialdemocratie, Verlag-kooperative Heidelberg-Frankfurt-Hanover-Berlin, 1969. Este livro mostra claramente a dualidade-duplicidade de homens como Bebel, que se expressava como "direitista" no parlamento e como "esquerdista" nas reuniões com os operários; para um público dizia que só depois de muito tempo os princípios do socialismo poderiam ser realizados, para outro público dizia que o socialismo era iminente. Este livro também é interessante porque contém posições que foram depois assumidas pelo KAPD (Partido Comunista Operário da Alemanha).

 

[18] Bordiga, no encontro de Milão, em 1960.

 

 

4. Comunismo

 

O reformismo revolucionário - projeto de criar o socialismo baseado no capitalismo e em continuidade com o modo de produção capitalista - se desintegrou, entre 1913 e 1945. É o fim do que se revelou uma ilusão: a ilusão de ser capaz de dirigir o desenvolvimento das forças produtivas num sentido diferente daquele que tomou na realidade. Podemos realmente concordar com a visão de Marx de que, depois de 1848, o comunismo era possível precisamente porque a irrupção do modo de produção capitalista tinha rompido todas as barreiras sociais e naturais e fez possível o livre desenvolvimento. Mas a mentalidade, as representações da população eram tais que ela não podia conceber nem perceber tal futuro. Ela era muito dependente do movimento milenar do valor, ou estava muito debilitada pelas limitações dos pervertidos remanescentes de suas antigas comunidades para ser capaz de se lançar num novo caminho e alcançar outra comunidade. Até mesmo Marx e Engels, no fundo, consideravam o capitalismo um momento necessário, e pensavam que todos os seres humanos, por toda parte, inevitavelmente, teriam de experimentá-lo. Somente a revolta dos populistas russos, e seu desejo de evitar a trilha do capitalismo, fez Marx entender seu erro. Mas este reconhecimento foi insuficiente. Desde a metade do século XIX, com a justificação fornecida pela teoria marxista (a teoria do proletariado), toda a humanidade cairia na errância: desenvolver as forças produtivas.

 

Se não podemos mais aceitar a análise teórica de Marx, do papel das forças produtivas, podemos, todavia, concordar com ela depois de um desvio. O capital escraviza a humanidade em nome da própria humanidade porque está antromorfizado. Isto nada mais é do que o reino da morte. Os seres humanos são dominados por seu ser passado, enquanto o contemplam. É um processo que, continuamente, sempre começa outra vez. O capital penetra o pensamento, a consciência, e assim destrói os seres humanos tais como foram produzidos por séculos de sociedade de classes. Sua perda de substância é a perda de seu ser anterior, que o capital lhes sugou. Uma vez que este processo está quase concluído, o capital está agora passando do ataque à dimensão passada da humanidade para um ataque contra sua dimensão futura: ele deve conquistar a imaginação. O ser humano é assim espoliado e tende a ser reduzido à dimensão biológica. O fenômeno atinge as raízes. Em outras palavras, o desenvolvimento das forças produtivas parece ter sido necessário para destruir os velhos esquemas, modos de pensamento, representações arcaicas que limitavam os seres humanos (esta destruição está sendo analisada por filósofos como Foucault). Ameaçados em sua existência puramente biológica, os seres humanos começam a se insurgir contra o capital. É aqui que tudo pode ser reconquistado pela criação generalizada. Mas este processo não é simples, unidimensional. O capital pode ainda tirar proveito da criatividade dos seres humanos, se regenerando e se re-substancializando mediante a pilhagem de suas imaginações. A importância e profundidade da luta podem ser apreendidas face à alternativa: comunismo ou destruição da espécie humana. E não se deve esquecer que, durante a errância, vários movimentos revolucionários buscaram uma saída e várias possibilidades foram bloqueadas; eles agora podem se manifestar [19].

 

Nós temos que interromper a errância e destruir a consciência repressiva que inibe a emergência do comunismo. Para fazê-lo, temos que parar de ver o comunismo como um prolongamento do modo de produção capitalista, e parar de pensar que basta suprimir o valor de troca e fazer o valor de uso triunfar. Esta dicotomia já não significa nada. O valor de uso está atado ao valor, mesmo se ele gira em torno do princípio de utilidade ao invés do de produtividade; relacionado à dominação direta dos seres humanos, ele é inseparável da propriedade privada.

 

O comunismo não é um novo modo de produção [20]; ele é a afirmação de uma nova comunidade. Trata-se do ser, da vida, quando menos porque há um deslocamento fundamental: da atividade gerada ao ser vivo que a produziu. Até hoje, os homens e mulheres foram alienados por esta produção. Eles não ganharão domínio sobre a produção, mas criarão novas relações entre si que determinarão uma atividade inteiramente diferente.

 

O comunismo também não é uma nova sociedade [21]. A sociedade surge da subjugação de alguns grupos étnicos por outros, ou da formação das classes. A sociedade é uma rede de relações sociais que rapidamente se convertem em intermediários despóticos. O homem em sociedade é o homem escravizado pela sociedade.

 

O comunismo põe fim às castas, às classes e à divisão do trabalho (em que se enxertou o movimento do valor que, por sua vez, anima e exalta essa divisão). O comunismo é antes de tudo união. Ele não é dominação da natureza, mas reconciliação e, portanto, regeneração da natureza: os seres humanos não mais tratariam a natureza como um mero objeto para seu desenvolvimento, como uma coisa útil, mas como um sujeito (não no sentido filosófico) inseparável deles, até porque a natureza está neles. A naturalização do homem e a humanização da natureza (Marx) são realizadas; a dialética do sujeito e do objeto termina.

 

O que segue é a destruição da urbanização e a formação de uma multidão de comunidades, distribuídas sobre a terra. Isto implica a supressão da monocultura, outra forma da divisão do trabalho, e uma completa transformação do sistema de transporte: o transporte diminuirá consideravelmente. Somente um modo de vida comunal (comunitário) permitirá ao ser humano dominar sua reprodução, limitar o crescimento (hoje louco) da população sem recorrer a práticas desprezíveis (tais como destruir homens e mulheres).

 

A dominação de um grupo sobre outro, a sociedade de classes, se origina na sedentarização do ser humano. Ainda vivemos com os mitos gerados na época dessa fixação em alguma parte de nossa mãe-terra: mitos da terra natal, do estrangeiro; mitos que limitam a visão do mundo, que mutilam. É óbvio que a reação não pode ser um retorno a um nomadismo do tipo praticado por nossos distantes ancestrais, que eram coletores. Homens e mulheres adquirirão um novo modo de ser, para além do nomadismo e do sedentarismo. Uma vida sedentária constituída pela inatividade corporal é a causa radical de quase todas as doenças somáticas e psíquicas dos atuais seres humanos. Uma vida ativa e não-fixa curará todos estes problemas sem medicina nem psiquiatria.

 

A passagem ao comunismo implica uma transformação da técnica. A tecnologia não é uma coisa neutra; é determinada pelo modo de produção. No Ocidente, mais do que em outro lugar, os vários modos de produção separam cada vez mais os seres humanos da tecnologia, que originalmente nada mais era do que uma modalidade do ser humano. A busca de uma tecnologia conveniente é a busca de uma tecnologia que seja novamente um prolongamento do ser humano e não algo autônomo a serviço de um ser opressivo [22].

 

Os seres humanos, no comunismo não podem ser definidos como simples usuários. Isto seria um comunismo concebido como um paraíso terrestre onde as pessoas disporiam do que existe com tal imediação que os seres humanos seriam indistinguíveis da natureza (o homem, como disse Hegel, neste contexto, seria um animal). Os seres humanos são criadores, produtores, usuários. Todo o processo é reconstituído num alto nível e para cada indivíduo. Nas relações entre indivíduos, o outro não é mais considerado em termos de utilidade; o comportamento em termos de utilidade finda. Os sexos são reconciliados, mantendo suas diferenças; eles perdem as diferenças e oposições rígidas produzidas por milênios de antagonismo.

 

Essas poucas características esclareceriam como o movimento de ascensão da comunidade humana pode ser concebido.

 

Somos todos escravos do capital. A libertação começa com a recusa de se perceber nos termos de categorias do capital, isto é, como proletário, como membro da nova classe média, como capitalista etc. Então, paramos também de perceber o outro - neste movimento para a libertação - nos termos dessas mesmas categorias. Neste ponto, o movimento de reconhecimento dos seres humanos pode começar. Obviamente, isto é apenas o começo do movimento de libertação, e sempre ameaçado de fracassar. Recusar-se a levar isto em conta nega o poder do capital. O que tem de ser compreendido é uma dinâmica. Somos escravos; nossa meta não é nos tornarmos senhores, mesmo sem escravos, mas abolir por completo a dialética do senhor e do escravo. Esta meta não pode ser realizada estabelecendo comunidades que, sempre isoladas, nunca são um obstáculo para o capital, podendo ser facilmente cercadas pelo capital, não passando de desvios em relação à sua norma (desvios que fazem a norma visível como tal). Tampouco a meta pode ser alcançada cultivando um ser individual, no qual se encontraria finalmente o ser humano real. Efetivamente, essas abordagens deveriam ser conectadas. Perceber-se como um ser humano livre de qualquer atributo já remove a coleira imposta pela sociedade de classes. O desejo de comunidade é absolutamente necessário. A reafirmação da individualidade (especialmente, no seu aspecto temporal) é uma recusa da domesticação. Mas isto é inadequado, mesmo como elemento primitivo de rebelião; o ser humano é uma individualidade e uma Gemeinwesen. A redução do ser humano à sua atual condição inexpressiva só poderia ocorrer pela supressão da Gemeinwesen, da possibilidade de cada indivíduo absorver o universal e abranger a totalidade das relações humanas numa totalidade de tempo. A variedade de religiões, filosofias e teorias são meros substitutos deste componente essencial do ser humano. Se o comunismo é a morte do tédio, da repetição, os seres humanos emergirão em toda sua diversidade; a Gemeinwesen será reafirmada por cada um. Isto implica que, desde já, recusemos o despotismo de uma religião, uma filosofia, uma teoria.

 

Recusar-se a cair na armadilha de uma teoria não é abandonar toda reflexão teórica. É justamente o oposto. Mas esta recusa postula que o ato teórico é insuficiente. A teoria pode tentar a reconciliação entre sentidos e cérebro, mas permanece no interior desta separação. O que deve ser afirmado é a totalidade da vida, a integralidade de suas manifestações, o ser total unificado. Talvez ainda seja necessário continuar com a ajuda das intuições de Marx, por exemplo, mas é cada vez mais imbecil se dizer marxista. E, assim como a consciência repressiva, a teoria pode se tornar um simples álibi para a inação.  No começo, a recusa de agir pode ser perfeitamente justificada. Contudo, a separação da realidade leva com freqüência a não perceber os novos fenômenos que a formam. Neste momento, a teoria, em vez de ajudar a estabelecer contato com a realidade, se torna um agente da separação, da supressão, e finalmente é transformada numa ejeção do mundo. Esperar é particularmente difícil para os que não querem reconhecer que outros podem alcançar a teoria sem nós, sem nosso grupo ou partido como intermediários. A teoria, como a consciência, exige objetificação numa extensão tal que mesmo um indivíduo que recusa as arruaças políticas pode erigir a teoria ao status de balbúrdia. Num assunto que passa como revolucionário, a teoria é um despotismo: todos deveriam reconhecer isto.

 

Após a dominação do corpo pela mente, por mais de dois milênios, tornou-se óbvio que a teoria ainda é uma manifestação desta dominação.

 

É a totalidade da vida que se torna determinante. Todas as diversas produções do passado - arte, filosofia, ciência - são fragmentos. São tanto elementos da vasta espoliação dos seres humanos, quanto tentativas de remediá-la. Mas a questão não é mais realizar a arte ou a filosofia; o capital já fez isto a seu modo; a questão é criar e conquistar outro mundo: um mundo em que todas as potencialidades biológicas da espécie possam enfim se desenvolver. Neste amplo movimento, é fútil querer se apresentar como o detentor da verdade. Antes de tudo, a verdade, como o valor, carece de uma medida, um padrão, um equivalente geral, uma norma – portanto, de um Estado. Em segundo lugar, a verdade nunca é mais do que uma verdade. A inflação histórica desse conceito é paralela à sempre mais completa destruição dos seres humanos. Não se pode propor nada menos do que uma outra vida, na qual os gestos, as palavras, a imaginação e todos os sentimentos humanos não serão mais aprisionados, onde os sentidos e o cérebro se unificarão. Somente esta união pode eliminar todas as fixações da loucura. É óbvio que tudo isto só pode ser conquistado mediante a destruição do modo de produção capitalista. É toda a humanidade, através dos tempos, que é hostil ao capital. Os seres humanos terão que suportar uma profunda revolucionarização para se tornarem capazes de se opor ao capital; as ações deste movimento são acompanhadas pela produção de revolucionários.

 

A emergência da revolução em todos os domínios de nossas vidas leva algumas pessoas a superestimar os lugares em que sentiram essa emergência.

 

A revolução não emerge dessa ou aquela parte do nosso ser - do corpo, do espaço ou do tempo. Nossa revolução, como projeto para restabelecer a comunidade, é necessária desde o momento em que as antigas comunidades foram destruídas. A redução da revolução comunista a uma insurreição que resolveria as contradições postas pelo modo de produção capitalista foi nociva. A revolução terá que resolver todas as velhas contradições criadas pelas sociedades de classes absorvidas pelo capital, todas as contradições entre comunidades relativamente primitivas e o movimento do valor de troca sendo constantemente absorvidas pelo movimento do capital (na Ásia e particularmente na África). Além disso, o movimento revolucionário é a revolução da natureza, o advento do pensamento e domínio do ser com a possibilidade de usar os centros pré-frontais do cérebro que, supõe-se, têm relação com a imaginação. A revolução tem uma dimensão biológica e, portanto, cósmica, considerando nosso universo limitado (ao sistema solar); cósmica também no sentido dos antigos filósofos e místicos. Isto significa que a revolução não é apenas o objeto da paixão de nossa época, mas também que milhões de seres humanos, desde nossos antigos ancestrais que se rebelaram contra o movimento do valor de troca, que viam como uma fatalidade, passando por Marx e Bordiga, que, em sua dimensão de profetas, testemunharam essa invencível paixão pela busca de uma nova comunidade, de uma comunidade humana. Querer situar a revolução é como querer fixar seu cume. Saint-Just disse que a revolução não pode parar até que a felicidade tenha sido realizada, mostrando assim a falsidade de querer julgar os homens nos termos dos fatos puramente histórico-materiais de uma dada época. O ser humano nunca é um ser-aí. Ele só pode existir pela superação e não pode ser apenas o que tem de ser superado (Nietzsche). Estrutural e biologicamente, o homem é uma superação porque ele é um ser exponenciável. Em outras palavras, os seres humanos são exploradores do possível e não se contentam com o imediatamente realizável, principalmente se isto lhes é imposto. Eles perdem essa paixão, essa ânsia de criar – pois o que é a busca do possível senão invenção? – quando são desenraizados, estranhados, cortados de sua Gemeinwesen e, assim mutilados, reduzidos a meros indivíduos. Com a dominação real do modo de produção capitalista, o ser humano é completamente esvaziado.

 

Todas as revoluções da espécie tentam ir além do atual momento, além do que é permitido pelo desenvolvimento das forças produtivas (Bordiga). Este alcance além do possível é o que constitui a continuidade entre as gerações humanas, assim como a perspectiva do comunismo concebido como destruição das classes, da troca e do valor, constitui a continuidade entre os vários revolucionários. É o que, seguindo Marx, chamamos de partido histórico [23].

 

A luta contra a redução da amplitude da revolução é, desde já, uma luta revolucionária. O leitor não se espante se, para apoiar essa amplitude nos referimos a autores classicamente tachados de religiosos, místicos etc. A questão é a reapropriação da Gemeinwesen (e os seres do passado são parte dela), que só pode ser feita depois da unificação da espécie e esta unificação só pode ser concebida compreendendo aspiração, desejo, paixão e vontade de comunidade expressados através dos tempos. O ser humano só pode ser também uma Gemeinwesen se a humanidade vive em comunidade. Tão logo surge a fragmentação, a necessidade de recompor a unidade emerge. No ocidente, essa unidade teve uma forma mediata e coercitiva: o indivíduo foi definido pelo Estado; o conhecimento era um meio de hierarquização e de justificação da ordem estabelecida; o círculo vicioso da prática-teoria emergiu.

 

A revolução comunista é a revolução total. As revoluções biológica, sexual, social, econômica nada mais são do que atributos parciais; a predominância de um é uma mutilação da revolução, que só pode ser sendo tudo.

 

A revolução comunista só pode ser concebida mediante a história e a paleontologia dos seres humanos, assim como de todos os seres vivos. Compreendendo isto, nos tornamos conscientes da revolução. E se ela é, há muito, necessária, hoje pode ser realizada. Antes, ela era possível, mas não inevitável. Existiam outros caminhos "humanos" que ainda permitiam um desenvolvimento humano; sobretudo, permitiam a exteriorização das potências humanas. Hoje, quase tudo já foi exteriorizado e saqueado pelo capital, traçando o único caminho possível fora da revolução comunista: a negação total dos seres humanos. Portanto, devemos entender nosso mundo; devemos entender o despotismo do capital e o movimento de rebelião que rompe com ele. Este ato de entendimento, que está ocorrendo intelectual e também sensualmente (a rebelião é em grande parte uma rebelião corporal), só pode ser alcançado pela recusa da errância e da consciência repressiva.

 

 

Notas

 

[19] A irreversibilidade absoluta não é um fato da história. Possibilidades que apareceram há milhares ou centenas de anos não foram abolidas para sempre. A história não é um Moloch que devora possibilidades, condenando o futuro humano a uma pilhagem irremediável e inevitável. Senão, a história nada mais seria do que uma justificação do que aconteceu. Muitos gostariam de reduzir a história a isto, fazendo dela o pior dos déspotas.

A filosofia de Hegel, com sua dialética da superação (Aufhebung), do movimento que abole e preserva ao mesmo tempo, foi uma tentativa de resgatar o que os seres humanos tinham produzido em épocas anteriores. Hegel estava preocupado com os problemas da perda de realidade, com a multiplicidade de manifestações e de possíveis etc. Assim, ele deu uma enorme importância à memória (ver particularmente o capítulo "O Conhecimento Absoluto" da Fenomenologia do Espírito).

Em contraste, o movimento do capital abole a memória de seus estágios anteriores (por meio de mistificação e feitiço), assim como dos estágios da humanidade e do próprio presente, tal como é em seu mais alto nível de desenvolvimento - a forma "reificada" (ou ossificada) (cf. Marx, Teorias da Mais-valia, volume III, capítulo sobre "O Rendimento e suas Fontes. Economia Política Vulgar").

 

[20] Na realidade, o conceito de modo de produção só é válido para o modo de produção capitalista, assim como o conceito de classe só funciona na sociedade burguesa. Na obra de Marx, o conceito de produção é muito rico em atributos. Ele se empobrece quando saímos dos Manuscritos de 1844 e A Ideologia Alemão ao Capital. Ele se relaciona estreitamente ao conceito de natureza e também a uma certa concepção do ser humano. Em outras palavras, temos um "dado" muito mais complexo quando podemos examiná-lo só com relação à existência das primitivas comunidades comunistas e de sua dissolução. A separação do ser humano da comunidade (Gemeinwesen) é uma espoliação. Como trabalhador, o ser humano perdeu muitos dos atributos que formavam um todo quando ele estava relacionado à sua comunidade.

O processo de expropriação dos seres humanos é real. Quem não entende isto não entende o que é o capital. O homem foi reduzido a um ser inexpressivo; ele perdeu seus sentidos, e sua atividade foi reduzida a trabalho quantitativo. O homem, tornado um ser abstrato, tem paixão pela música que ainda preserva a sensualidade ancestral (daí a popularidade do jazz e da música sul americana). Hoje, o ser humano reduzido tem somente um elemento que o relaciona ao mundo exterior: a sexualidade, que preenche o vazio dos sentidos. Isto precisamente é o que explica a pansexualidade, ou, mais exatamente, a pansexualização do ser que Freud interpretou como uma característica invariável dos seres humanos e que, de fato, resulta de sua mutilação. O que é o subconsciente senão a vida afetiva-sexual do ser humano reprimida pelo capital? O ser humano deve ser domesticado, formatado a uma racionalidade que ele tem de internalizar - a racionalidade do processo de produção do capital. Alcançada a domesticação, o ser humano é despojado dessa vida sensual reprimida, que se torna um objeto de conhecimento, de ciência; ela se torna capitalizável. O inconsciente, tornando-se uma mercadoria, é recortado e empacotado no mercado de conhecimento. O inconsciente não existiu sempre, e hoje ele só existe como um componente no discurso do capital; isto é verdade também para as perversões.

Reduzido à total inexpressividade, o ser humano se torna cada vez mais comparável às partículas elementares estudadas pelos físicos nucleares, nas quais se pode encontrar os princípios da psicologia do ser humano capitalizado que é atraído pelo campo do capital.

 

[21] Também é incorreto falar de sociedade primitiva. Fundamentaremos isto fazendo uma nova análise das comunidades primitivas. É verdade que a obra de Marx não trata adequadamente da existência, desenvolvimento e dissolução das comunidades primitivas, mas não é verdade que Marx estivesse absolutamente errado devido a algum eurocentrismo ou espírito do iluminismo, que imporia à sua obra as mesmas deficiências da teoria burguesa. A maioria dos que defendem este ponto de vista não entendeu a questão da comunidade na obra de Marx e a reduziu sua obra a um simples materialismo histórico.

O que falta à obra de Marx é uma análise detalhada do modo como "a economia" aparece nas comunidades primitivas e provoca sua desintegração. Deveríamos acrescentar também que se torna cada vez mais equivocado falar de sociedade capitalista. Voltaremos a este assunto.

 

[22] Nas comunidades primitivas, os seres humanos dominam a tecnologia. A tecnologia começa a se tornar autônoma na antiga sociedade ocidental, e isto foi temido pelos antigos. A tecnologia força o homem a imitar a natureza, mesmo que depois ele possa encontrar um procedimento não encontrado na natureza. Assim, ele se sujeita a um procedimento compulsório, um "como fazer", um tipo de ordem natural. Ele parece perder a capacidade de criar livremente (sobre este assunto, ver J. P. Vernant em Mythe et pensée chez les grecs, ed. Maspéro). Quando os seres humanos não temem mais a tecnologia, eles simultaneamente se reconciliam com a arte, que foi desprezada no fim da sociedade escravista. Isto ocorreu na Renascença, quando os filósofos definiram o homem como um ser que faz a si mesmo (ver Cassirer, Individual and Cosmos in Renaissance Philosophy). Mas o desenvolvimento da tecnologia não conduziu o homem à natureza; pelo contrário, ela levou à expropriação do homem e à destruição da natureza. O ser humano perde cada vez mais a faculdade de criar. Neste sentido, o temor dos antigos era justificado.

Dos filósofos renascentistas a Marx, passando por Descartes e Hegel, o ser humano é definido em relação à tecnologia (o homem é um fabricante de ferramentas: Franklin) e à produção. Para ir além de Marx, é preciso reexaminar o "fenômeno humano" desde a desintegração das comunidades primitivas até hoje e repensar as obras de filósofos e economistas, de Aristóteles a Marx, para entender mais claramente como o ser humano se percebia num período em que o valor, e depois o capital, dominaram, e para entender como, agora que estamos no fim do fenômeno do valor, podemos conceber a humanidade e o comunismo.

 

[23] "Origine et fonction de la forme parti" (1961,) publicado em Invariance No 1, Série 1.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Biblioteca virtual revolucionária

RETORNAR A PÁGINA PRINCIPAL