Plum Village
ALDEIA DAS AMEIXEIRAS - MONASTÉRIO DE THICH NHAT HANH

 

A criação de Plum Village remonta ao início dos anos setenta quando Thich Nhat Hanh (Thây) e Cao Ngoc Phuong (Irmã Chân Không) estabeleceram uma pequena comunidade nos redores de Paris.

Tudo começou em 1971, quando Phuong (Irmã Chân Không) foi convidada a organizar um workshop sobre ações de não-violência no Vietnam, numa fazenda em Auvergne na França, onde vivia uma comunidade. Phuong ficou muito impressionada com os jardins e hortas do local, que em muitos aspectos lhe trazia lembranças do Vietnam. Ela foi informada por um amigo da comunidade que os preços da terra eram muito baratos no interior da França, pois muitos fazendeiros estavam deixando o interior para morar em cidades grandes como Paris, e os preços das terras estavam baixos. Ao refletir sobre o assunto, Phuong pensou que adquirir uma casa com jardim em Paris seria muito caro, e assim decidiu tentar encontrar uma casa simples no interior da França.

Depois de muita procura, Thây e Phuong encontraram uma pequena e velha casa, com a qual se identificaram e imediatamente resolveram comprá-la. Seu preço era baixo e estava incluído nele também um pequeno terreno. A propriedade ficava nos redores da pequena cidade de Fontvanes, a 150 km a sudeste de Paris. A casa era localizada numa montanha, tinha uma vista panorâmica da Floresta de Othe, e era circundada por belas plantações de trigo e milho. As dependências da casa eram totalmente inabitáveis – existia apenas um estábulo e um salão que havia sido recentemente divido em dois. Não existiam portas ou janelas, apenas uma lareira e dois pequenos buracos nas paredes de pedra.

Durante algum tempo, Thây, Phuong e seus amigos vietnamitas continuaram a morar em Paris, mas nos fins de semana iam a Fontavnes para restaurar a casa. Depois de um árduo trabalho e muitas noites de frio, o local onde era o estábulo foi transformado num salão aquecido e Thây passou a ocupá-lo. Este salão ficava separado do resto da casa por uma parede que proporcionava a Thây privacidade. O salão maior da casa foi transformado numa sala de meditação e num quarto. No lugar da lareira foi construído um belo altar em homenagem ao Buda.

Muitos amigos da Delegação Budista da Paz iam a Fontvanes aos fins de semanas para ajudar na construção das mais dependências. Foi construído um salão grande para meditação e para o chá. Nas manhãs depois da meditação Thây sempre dava ensinamentos. Por quatro anos assim fizeram. Thây usava o lugar também como um ermitério.

A guerra no Vietnam acabou em 1975. Thây, Phuong e muitos vietnamitas que viviam na França foram impedidos de retornar ao país natal e até mesmo de oferecer qualquer tipo de ajuda ao povo.

A casa que edificaram ficou bastante agradável. Tinha quatro quartos, salão de editação e uma boa cozinha, então os amigos decidiram se mudar para lá. Foi dado ao local o nome de Comunidade "Batatas-Doces". Este nome foi escolhido porque no Vietnam, quando os camponeses não têm arroz comem batatas doces desidratadas, uma alimentação muito precária. Era também uma forma de manter os vietnamitas que viviam na comunidade em contato com a realidade do povo vietnamita. A Comunidade "Batatas Doces" contribuiu para curar muitas feridas provocadas pela guerra no Vietnam como também para aumentar a admiração pelas belezas da França. Moravam lá onze pessoas – cada uma com seu saco de dormir. Nos fins de semanas o número de pessoas aumentava devido à visita de amigos que vinham de Paris e também ficavam lá.

A vida na Comunidade "Batatas Doce" era meditativa e cheia de alegria. Lá se imprimiam e encadernavam livros para os refugiados, plantavam legumes como alface, cenoura, chicórias, etc. Thây mostrou grande habilidade para trabalhos manuais e para jardinagem. Ensinou a todos como plantar e cultivar o solo. Isso foi de grande ajuda para que todos esquecessem as lembranças dolorosas da guerra.

A Comunidade "Batatas Doces" começou a se tornar um refúgio de paz.

Em 1982, a comunidade já estava muito pequena para receber todos os amigos que a procuravam. Mesmo fazendo uso de tendas, só podiam ser acomodados cerca de 30 convidados. No verão, os hóspedes que já estavam tinham que ir embora para que outros 30 pudessem ser acomodados. Cada vez mais pessoas queriam morar na comunidade, assim tiveram que mudar para um lugar maior.

Thây tinha ouvido falar que as fazendas no sul da França eram baratas e gostou da idéia de morar mais ao sul, onde era mais quente e ensolarado, além disso, poderiam ser cultivados outros tipos de legumes e frutas, que não cresciam em regiões frias como em Fontvane. A primeira idéia era a região da Provença, entretanto souberam que vendavais eram muito comum na região. Decidiram então seguir para região oeste da França e visitaram Toulouse e Bordeaux. Essas regiões não eram tão ensolaradas, mas pelo menos não estavam sujeitas a vendavais. Ao procurar em jornais locais, encontraram listas de varias fazendas abandonadas e Thây gostou de uma propriedade com trinta acres cercada por lindas elevações cobertas por vegetação, perto de Thenac na região de Dordogne. A fazenda tinha três prédios velhos com 200 anos de construção que devem ter sido usados para criação de gado, porcos e carneiros. Thây ficou feliz quando andou pela floresta: era fácil para ele visualizar um lindo caminho para meditar.

O Irmão Le Nguyem Thieu chegou a França e expressou seu interesse em se juntar a eles no projeto da compra da fazenda. Ele soube que a propriedade próxima a Tenac não era arável e que eles teriam necessidade de cultivar a terra para se manterem. Então o Irmão Le Nguyem Thieu comprou as duas fazendas. A nova fazenda tinha cinco casas velhas construídas em pedra e ficava distante apenas uns três km da outra fazenda. O Irmão Le Nguyem mudou-se para lá com a família e uns refugiados vietnamitas. A fazenda próxima a Tenac recebeu o nome de "Upper Hamlet" e a que ficava em Loubès Bernac, o nome de "Lower Hamlet" e as duas juntas receberam o nome de "Làng Hông", literalmente a "Cidade dos Caquis". Este nome seria dado a um centro de retiro que planejaram construir no Vietnam mas isso nunca foi realizado.

No sudeste da França na região onde haviam comprado as fazendas cresciam uma variedade de ameixas que era cultivada para serem desidratadas e elas eram de excelente qualidade, então decidiram mudar o nome de Làng Hông para "Village des Pruniers" em francês, "Plum Village" em inglês, e "Aldeia das Ameixeiras" em português. Em Lower Hamlet foram plantadas 1250 ameixeiras pelas crianças e adultos incluindo 750 pés que foram adquiridas pelas crianças que sabiam que o dinheiro da venda das ameixas seria enviado para as crianças do Vietnam e para as de outros paises do 3º mundo. Essas árvores exigiam muitos cuidados, mas em 1990 começaram a dar frutos e em 1996 foram colhidas seis toneladas de frutas!

Em outubro de 1982, decidiram deixar "Sweet Potato" e se mudaram para "Plum Village". Primeiramente se mudaram Thây, Irmã Châng Kông, Irmão Le e sua família, e outros refugiados recém-chegados do Vietnam. No primeiro ano, eles já puderem perceber quão maravilhoso era o lugar.

 

Plum Village

Religiosos

Altares

Meditação Andando

Todos os meses de fevereiro quando as árvores estão sem folhas, milhares de brotos começam a nascer do solo frio e rochoso da floresta de "Upper Hamlet", e poucas semanas depois, no início de março, brotos amarelos e ainda frágeis de milhares de narcisos silvestres abrem suas delicadas pétalas e parecem saudar a todos. Por causa de sua beleza encantadora, Thây batizou esta colina de "Dharmakaya Store", ou a "loja do corpo do Darma". Thây então propôs que se organizasse o "Festival dos Narcisos Silvestres" para dar as boas vindas a estes pequenos anjos bodhisatvas. Todos os anos, pessoas de Bordeaux, Toulouse e outras cidades próximas visitam e passam um dia em "Plum Village", para caminhar no mar de narcisos, ouvir palestras do Thây sobre o Darma, apreciar a meditação do chá, cantar e dançar com as crianças.

O desejo deles era abrir "Plum Village" para assistentes sociais e todos aqueles que necessitassem de um retiro, de modo, que tão logo eles se mudaram para lá, começaram a limpar as construções velhas e colocar piso de madeira e também camas. No verão de 1982, foram recebidas 100 pessoas; em 1983, 200 pessoas; e, desde 1991, mais de 1000 pessoas, de todas as partes do mundo. Durante a abertura do período de verão, de 15 de julho a 15 de agosto, qualquer pessoa que se inscreve com antecedência pode compartilhar a prática de plena atenção sob a orientação de Thây e sua Sangha. Juntos praticam meditação sentada, andando e participam das discussões sobre o Darma. Famílias e amigos praticam juntos e cada dia Thây dá uma palestra em vietnamita, inglês ou francês, com tradução simultânea para alemão, italiano e espanhol. Há também atividades para todas as crianças presentes.

Os ensinamentos de Thây Nhat Hanh durante o retiro de verão são para crianças e adultos cultivarem a paz neles mesmos e no mundo. O aspecto singular de Plum Village, como um centro de retiro é o foco nas crianças. As crianças são convidadas a participar de curtos períodos de meditação sentada ou andando, e da meditação do chá (as crianças participam da "meditação da limonada"), comer as refeições em silêncio, com plena atenção e apreciação. Ocorre que muitas crianças praticam a meditação muito melhor do que seus pais, e quando voltam para casa, lembram a eles para retornar ao momento presente e apreciar as coisas maravilhosas que estão em volta.

O retiro de verão é uma das maiores alegrias em Plum Village.

Por volta de 1987 alguns monges, monjas, leigos vietnamitas e ocidentais quiseram ficar durante um ano para estudar budismo e praticar a plena atenção com Thây. Como resultado se formou uma comunidade residente de cerca de 50 membros. Mais da metade sendo constituída por monges e monjas. Thây também desenvolveu um programa de quatro anos de treinamento para formar mestres, os "agentes de transformação" para o Vietnam e Ocidente. Os primeiros aprenderam a transformar seus próprios "nós" e se tornarem "sólidos como montanhas e puros como uma flor", e só assim puderam compartilhar o Darma através de seus próprios "insights" e seu próprio "ser" e não apenas através dos livros.

Por solicitação dos amigos do ocidente, Thây conduz no mês de junho um retiro especial em inglês a cada dois anos. A transformação para muitos amigos ocidentais que não podem ficar o ano todo tem sido imensa. Muitas pessoas, que depois de praticar seriamente por três anos – ouvindo os ensinamentos e vivendo na comunidade – se tornaram puras como flores.

No inicio de abril de cada ano, as flores das ameixeiras iluminam todo o "Lower Hamlet". Olhando para o pomar, parece que está se olhando de noite para o céu com milhares de pequenas estrelas. As manhãs em Plum Village na primavera, outono e inverno são normalmente cheias de neblina, freqüentemente, se tem a impressão de que se esta caminhando nas nuvens. O pôr do sol e a lua-cheia são também ocasiões maravilhosas para as pessoas praticarem meditação andando e proporcionam inspiração para muitas pessoas descobrir talento artístico. Muitos residentes descobriram talentos musicais e artísticos somente por viver momentos tão maravilhosos como estes.

Devido a sua imensa expansão nos anos recentes, a comunidade está agora composta por sete Hamlets (Aldeias): Upper Hamlet, Middle Hamlet, West Hamlet e Lower Hamlet localizados no sudeste da cidade de Sainte Foy la Grande; New Hamlet, Gatehouse New Hamlet e Hillside New Hamlet localizados a oeste da cidade de Duras.

Plum Village, monastério budista possui atualmente um corpo monástico constituído por cerca de cento e vinte religiosos. Entre eles, europeus e americanos, sendo maioria de vietnamitas jovens: filhos de refugiados ou orfãos de guerra. Plum Village é também um centro de prática para pessoas leigas. É uma comunidade internacional cheia de alegria fruto de muitas experiências, que continua a aprender e a praticar.

Todos necessitam de um lugar para se renovar. Plum Village é este lugar.


Learning True Love - Irmã Chân Không - Parallax Press - Tradução de Rosa Biagio

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