Trote: para que?
Desafio aos calouros universitários



14 de abril de 2002 (publicação), 9 de março de 2005 (atualização)

      O trote como se pratica hoje nas universidades, autoritário e humilhante, é instrumento de opressão, para o qual a comunidade acadêmica e toda a sociedade fecham os olhos de forma a proteger seus membros mais sádicos e agressivos. Estes, uma vez mandatários ou cúmplices do poder, exigirão da sociedade a submissão humilhante e abjeta que impõem aos calouros.

        Veteranos exercitam nos "bixos" o autoritarismo que marca nossa vida social e que há muito já deveria ter sido extirpado da sociedade. O trote começa por humilhar a individualidade e termina por anular a liberdade.

        Calouro: revolte-se!
        Imponha-se!

        Não se sinta diminuído frente aos veteranos: você tem os mesmíssimos direitos que eles! Resgate a dignidade que muitas gerações de estudantes deixaram ser massacrada, por medo e um pouco de masoquismo!

        Mas para a revolta é preciso coragem, firmeza de caráter, como quando se discute uma imposição paterna, desobedece uma lei injusta ou encara o opressor! Será que falta coragem a você? Com certeza não! O espírito de rebanho pode ser útil a carneiros mas não a homens!

        Desistir da dignidade é renunciar à própria humanidade e desrespeitar a memória de tantos rebeldes que sofreram para que os homens eliminassem a servidão feudal, a aristocracia, a Inquisição, desafiassem a autoridade e as ditaduras e conquistassem a liberdade de consciência e de expressão e a igualdade de direitos.

        Exija respeito! Faça da universidade extensão de sua casa e não da Torre de Londres! Não espere pelo 13 de maio! Não ratifique com sua passividade as tentativas de dominação que partem dos que se julgam melhores que você, sem o serem.

        Duvide de uma "tradição" que, ao contrário da Ciência e da Técnica, escraviza, humilha, limita, constrange, obriga à submissão e dá vazão a instintos agressivos!

        Não seja diversão fácil
        para sádicos!

        Não acredite que por não se sujeitar ao trote suas relações de camaradagem na universidade serão prejudicadas. Pelo contrário: dando-se ao respeito você será considerado como pessoa e valorizado por isso, e não desprezado por ser pusilânime e submisso.

        Ano que vem, e nos outros anos, não imponha o trote. Recepcione os calouros com solidariedade. Incentive-os. Trate-os como irmãos, como colegas! Desista da covardia e do sadismo! Lembre-se das humilhações por que passou e de quanto isso prejudicou o início de sua vida acadêmica.

        A recepção franca é importante para quem deixa sua cidade, sua família e seus colegas do colegial e se lança à conquista da vida profissional! Não afaste os calouros, mas chame-os para convivência acadêmica estimulante!


        Diga:

        "Não quero ter o cabelo cortado!

        Não aceito humilhações!

        Não quero usar ter a cara pintada!

        Recuso-me a mendigar nos semáforos!"


        Não aceite o trote!

        Desobedeça!

        Ignore as imposições!


        Celso do Lago Paiva, engenheiro agrônomo (Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - ESALQ/ USP, formado em 1990)

        celsolag@terra.com.br

        Fevereiro de 2003



        Dê a sua opinião. Escreva-me.




      Cópias deste documento foram distribuídas a 9 abr. 2002 para calouros, veteranos, funcionários e professores da ESALQ.

      Recebi em seguida as seguintes mensagens de alunos:

      Mensagem 1 (de "Fofão")
        Mensagem 2 (de José Gustavo Borba "Zorba")
          Mensagem 3 (de Thiago Dantas)
            Mensagem 4 (de Michele)
              Mensagem 5 (de Pery Pedro "P-ry")
                Mensagem 6 (de Jamile Simas dos Santos)

      Mensagem 1
        Assunto: ralo na ESALQ
        Data: 3.a, 9 abr. 2002 [...]
             Caro eng.Celso , eu gostaria primeiramente de te informar que trote são aquelas brincadeiras ao telefone, veterano é quem lutou na guerra, e calouro é quem vai cantar no Raul Gil.
             E se você estava tentando tratar do ralo que existe na ESALQ nesta sua infeliz carta, você demonstrou ser uma pessoa muito leiga no assunto e que deve ter uma mágoa terrível do seu tempo de aluno, pois com certeza você foi um mocó excluído, que deve ter se arrependido de não ter participado do ralo enquanto era bixo e aí ter conhecido o verdadeiro sentido da integração esalqueana.
             Eu gostaria de saber o que um profissional como você faz da vida, para ter tempo de ficar andando pela escola pregando contra o ralo, que é uma coisa que você não tem conhecimento. Deixe os alunos que tem o intuito de preservar as tradições e a amizade esalqueana seguir [sic] no caminho que distingue esta escola de todas as outras, e faz do xurrasco [sic] de cem anos da esalq [sic] (como tantos outros...) ocasião tão ilustre, na qual "verdadeiros esalqueanos", geração após geração se confraternizem numa clima de imensa amizade e admiração pelos filhos de "Luiz de Queiroz".
             Fofão - 5 ano [sic] agronomia
             República Senzala

          Resposta
               "Fofão": "trote", "calouro" e "veterano" são expressões consagradas no meio universitário; não serão modismos nem ironias que alterarão seu significado (aliás, os dicionários consignam "bicho" como sinônimo de estudante novato ou ingressante). O nome alternativo "ralo" foi bem escolhido, pois é assim que os calouros se sentem quando são submetidos ao trote compulsório: ralados.
               Tenho a grande felicidade de nunca ter aceitado sofrer trote na ESALQ, mas muita honra por nunca o ter aplicado; sempre tratei meus colegas ingressantes com respeito. Fui estimado por funcionários, professores e moradores de Piracicaba e privei com os colegas como parceiros de aprendizado.
               Quanto ao uso de meu tempo, procuro reservar, entre assessorias, visitas técnicas, obras e elaboração de pareceres e artigos, tempo para visitar bibliotecas como as da ESALQ. Dedico ainda um pouco de tempo ao ativismo de causas sociais, ecológicas e políticas, tentando fazer um pouco de positivo para mudar este nosso mundo ameaçado e miserável. Duas horas por ano de panfletagem pró-direitos dos calouros me parece muito pouco ainda! Gostaria de saber o que um estudante como você faz da vida, para ter tempo de ficar andando pela escola pregando o "ralo"... poucas aulas... bibliotecas fechadas... estágios raros?
               Conheço de sobra as tradições da ESALQ, umas gloriosas (como o renome de seus professores, a qualidade do ensino e da pesquisa) e outras nem tanto (como a falta de preocupação com a conservação da natureza e com a exploração que sofre o homem do campo e o uso indiscriminado de agroquímicos). Mas isso de chamar de "tradição" a prática sádica do trote só se aplica aos que se comprazem em maltratar os ingressantes. A maioria dos veteranos não vê nada nisso de que possam participar ou se orgulhar.
                                    Celso do Lago Paiva.


      Mensagem 2

        Assunto: Trote não ........ Ralo sim!!!!
        Data: 3.a, 9 abr. 2002 [...]
             Eng. Agrônomo Celso do Lago Paiva,
             Meu nome é José Gustavo Borba, curso Eng. Agronômica e estou no 5.o ano.
             Lendo o manifesto redigido pelo senhor logo percebi, nas primeiras linhas, q o senhor nunca morou em REPÚBLICA (república boa, tradicional e q preza por tudo q esta escolas representa) e portanto não sabe o significado RALO (trote).
             Ralo (trote) não é, e nunca foi, algo feito para, q nós doutores (veteranos), provássemos q somos superiores, q escravizamos, limitamos ou constrangemos os bixos (calouros).
             O ralo (trote) tem como fundamento ENSINAR o q é tradição esalqueana, coisa q o senhor desconhece. Escrever este manifesto, utilizando-se de vários "A ENCARNADOS", é contradizer-se, pois o "A ENCARNADO" é uma tradição que representa a ESALQ, dentro e fora do pais, entretanto o senhor diz q devemos duvidar de "tradições". Duvide da ESALQ, portanto.
             Comparar-nos com a INQUISIÇÃO é coisa de quem nunca viveu e prezou o q o ralo (trote) ensina. Devido a tais argumentos vejo q o senhor não é, e nunca será, a pessoa mais indicada para escrever tal manifesto.
                  Sem mais; subscrevo-me:
                  José Gustavo Borba
                       ZORBA

          Resposta. José Gustavo: vivi dois anos em república tradicional. Lá aprendi um pouco mais sobre a indignidade do trote. Nunca obriguei calouros a nada, mas me perturbei ao vê-los obedecendo às ordens mais absurdas.
               Pode ser que alguns veteranos trotistas não tenham prazer em aplicar o trote, mas os líderes nessa atividade gostam da opressão e do poder que se atribuem. Aliás, "doutor" é quem foi aprovado no Doutorado, o que não é o caso dos veteranos. Os calouros é que são humilhados, limitados, atemorizados, vexados, constrangidos, quando deveriam ser recepcionados, estimulados, orientados, encaminhados, auxiliados, apoiados, respeitados, valorizados.
               Quanto às tradições da ESALQ, leia o que escrevi ao colega "Fofão". Não duvido das tradições da minha amada ESALQ e da USP. Mas duvido que Luiz de Queiroz, homem culto e esclarecido, se agradasse do espetáculo deprimente que calouros humilhados representam todos os dias na Escola com que sonhou, intimidados por veteranos ansiosos por poder, exibicionistas e altamente inseguros.
               Você diz que não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre trote. Se sugere que eu, através de elogios ou da omissão, referende o trote compulsório, sou realmente o menos indicado. Fico com a dignidade, a liberdade individual e a paz social e com a tentativa se construir um mundo mais justo, mais livre e mais solidário. Não é discurso, mas responsabilidade.
                                    Celso do Lago Paiva.


      Mensagem 3

        Assunto: Re:Trote ou ralo ESALQ
        Data: 5.a, 11 abr. 2002 [...]
             Celso:
             Sou aluno do 5.o semestre e não passei por nenhum tipo de ralo ou trote. Mas considero que nem todas pessoas são capazes de dizer não a esse tipo de loucura, bem definindo o ralo.
             Ainda acho que o trote acaba denegrindo a imagem da maravilhosa ESALQ, já que muitos alunos bons abandonam a Universidade, o tempo perdido com ralos poderia ser utilizado para estudos ou lazeres mais prazerosos e edificantes, enfim a uma infinidade de críticas que podem ser colocadas.
             Para não me alongar, acho que medidas mais extremas deveriam por fim a tal fato como: o jubilamento de veteranos violentos (já que o trote será considerado crime), as aulas deveriam começar no horário correto para impedir o balaio de gato de pessoas que chegam atrasadas devido a festas, deveria se fazer fotos de alguns trotes de caráter homossexual, dentre outras.
             Concordo plenamente com suas colocações e acho que não podemos deixar um mero "ralo" acabar com a imagem e profissionalismo de nossa conceituada Universidade.
                  Atenciosamente, Thiago Dantas.

          Resposta. Thiago: bom que você também não tenha participado do trote na ESALQ!
               Concordo com você que muitos colegas não tenham condições de se negar ao trote e aos veteranos que o aplicam. O trote é sempre aplicado de forma autoritária, com os veteranos em grupos grandes e intimidadores, ficando os "bichos" em posição difícil e humilhante e sujeitos a agressão física.
               Muitos veteranos temem ser discriminados ao defenderem os calouros dos excessos de seus colegas de ano. Mas os veteranos ficarão por sua vez incomodados quando muitos bichos se revoltarem (o que já está se iniciando na ESALQ através dos "mocós" que, unidos, se opõem ativamente a sofrer o trote - e a aplicá-lo, a partir do segundo ano).
               O trote realmente denigre a imagem da ESALQ e da USP, contrapondo-se pateticamente à tradição legítima de excelência profissional e pedagógica que as tornou reputadas no Brasil e no exterior.
               Acredito também que os veteranos poderiam se unir aos calouros para tornar mais agradável a estes o difícil ano de ingresso na ESALQ, através de atividades de congraçamento, de apoio acadêmico (monitoria, por exemplo) e de um Centro Acadêmico que represente os interesses do aluno e do aprendizado.
               A estrutura acadêmica da ESALQ (representação discente, Seção de Alunos, professores, funcionários, diretoria, Conselhos) tem responsabilidades na extinção do trote compulsório. As formas de apoiar o calouro devem ser discutidas pela comunidade, mas essa discussão deve ter a participação ativa dos calouros, que são os maiores interessados.
               Não podemos nos esquecer de que existem professores que defendem o trote compulsório ativamente em sala de aula. Esses professores devem ser publicamente interpelados quando manifestam tais idéias retrógradas e desrespeitosas.
               Abraço do
                                    Celso do Lago Paiva.


      Mensagem 4

        Assunto: Re: Trote
        Data: sáb., 28 abr. 2002 [...]
             Caro amigo Celso
             Fiquei imensamente envergonhada por pertencer à mesma "família esalqueana" que o sujeito Fofão, que se julgando o mais fiel filho da gloriosa, conseguiu em algumas linhas e parágrafos denegrir a imagem da instituição.
             É deprimente saber que este é o profissional que estará no mercado amanhã, dono de um jogo de sátiras e de um péssimo conjunto de argumentos, que ofende para expressar suas idéias sem qualquer embasamento lógico.
             Este é o "verdadeiro esalqueano" preocupado com seus reais deveres estudantis... oprimir... para se fazer compreender.
                                  Michele [2.o ano Agronomia]

          Resposta. Cara amiga Michele: como infelizmente quer a sociedade, a opressão é a norma; o opressor sempre tem vantagens, e o reacionário mantém tudo como está! Plus ça change...
               Incomoda-me o primarismo, infantilidade e exibicionismo dessas manifestações de energia no trote. Sobram truculência e atos de duvidosa masculinidade, como se o veterano, incomodado por certa ambiguidade em sua própria definição sexual, precisasse constantemente se afirmar pela dominação ativa do outro.
               Não por acaso muitas das imposições no trote tem natureza sexual, como corridas de calouros nus ("xispada") e estupro de calouros por veteranos (casos obviamente nunca denunciados). Por covardia e medo da prisão nunca abusam sexualmente das meninas!

          Creio que a maioria dos veteranos trotistas precisa de auxílio de psicólogos, para aprender a dirigir sua agressividade para fins produtivos, como o estudo e o trabalho da terra (imagine um aluno da ESALQ pegar numa enxada!), e para resolverem seus problemas de desajustamento social.
               Só a revolta pessoal dos calouros contra o trote, e sua união em ligas independentes (como a do Coreto da Química) poderão mudar esse quadro de dominação covarde.
               Abraço do
                                    Celso do Lago Paiva.


      Mensagem 5

        Assunto: Re: Trote: pagina atualizada
        Data: Dom., 19 maio 2002 16:58
             Caro Celso:
             Parabéns pela sua pagina! Muito me alegra toda vez que vejo um profissional levantar uma bandeira, concordando ou nao com ele. De todos os males, certamente a indiferença, mãe da alienação (no sentido de alienar nosso poder de decisão e influência), é o pior.
             "Só queria que os bons fossem tão ativos quanto os canalhas" - Goethe.

             Meu nome e meu apelido são Pery (P-ry) e estou no nono semestre do curso de Engenharia Agronômica da ESALQ, assim como meu colega Fofão, que inaugura as mensagens de seu site. Desde que entrei na ESALQ, há quatro anos, nunca me submeti ao trote. Talvez por isto me sinta muito a vontade para falar dele, sem ressentimentos. Estive em duas comissões de recepção em 2000, na da Escola e na criada pelo então governador Mario Covas. Durante toda minha graduação, tive minha figura ligada de forma muito clara, dentro da universidade, a um princípio aparentemente muito simples: toma ralo quem quer (chame o trote do que vocês quiserem).

             É importante ressaltar que dois eventos pavimentaram minhas posições:
             - Desde 1997 existe uma república chamada USPior, cujos integrantes sempre tiveram os mesmos princípios: se eu não quero tomar, não venha me encher o saco. Vai passar de cálculo. Hoje tenho o ORGULHO de morar com esses caras;
             - No meu primeiro ano, um grupo um pouco maior de alunos (a USPior tinha 5 caras nesta época) passou a se concentrar no bondinho. Fizemos um churrasco numa noite de Ralo monstro, e a casa dos caras, após todos irem embora, foi covardemente invadida. Após este fato, meu ano se dividiu de uma maneira muito triste e passei, de certa forma, a representar esta turma, que aumentava a cada dia, a cada ano. Ainda em 98, o bondinho foi fechado e passamos a nos reunir todos os dias no coreto, pelo que passamos a sermos conhecidos.

             Quanto ao trote, é importante ressaltar que não existe a coação física. Ninguém dá porrada em ninguém para obriga-los a fazer parte. Entretanto, todas as vezes que se discute a questao se ignora a coação psicológica e social, mais inteligente, eficiente e dissimulada que a primeira. A ameaça de matar socialmente qualquer um que se oponha ao ralo e que tem mantido o ralo vivo durante todos estes anos. E exatamente nesta espinha dorsal que a existência do Coreto atua. Ninguém precisa se submeter a nada. Se você for rotulado de MOCÓ, nao terá mais amigos: MENTIRA! No coreto ninguém ajoelha para ninguém. Então, porque tomar ralo?
             Estes anos todos de militância política (PUTZ! tô me sentindo o Marcelo Rubens Paiva!) dentro da Gloriosa me ensinaram a rever minhas posições e ser muito menos radical que você, os professores Antonio Almeida e o prof. Queda, o qual admiro muito. Mas não concordo. Acho que a posição rígida de vocês é um tiro no pé do processo [de] desmantelamento da coerção do ingressante da ESALQ. Este processo passa, OBRIGATORIAMENTE, pela instauração do livre arbítrio, DOS DOIS LADOS da moeda! Não se acabará com o trote, nem com a fome, nem com a miséria, corrupção, desigualdade social, NA CANETADA!
             Toda vez que vislumbro esta faceta burra da esquerda me lembro de Roberto Campos, que dizia que em 64 estávamos entre duas ditaduras: de esquerda ou direita. Parece que quem nasceu antes de 1970 e seus seguidores tem muita dificuldade em conviver com a democracia. Mas isto é outra historia.

             Aqui vamos falar um pouco sobre TRADIÇÃO. A TRADIÇÃO da ESALQ e a EXCELÊNCIA acadêmica em pesquisa, ensino e extensão. Muitas REPÚBLICAS tem tradições próprias, como, por exemplo, o RALO. Outras não. Deixemos de confundir esta questão.

             Porfim, meu caro, tenho notícias boas e ruins para te contar. As boas: fizemos uma festa no ano passado chamada MOCOPA, onde não existia RALO. Mais de trezentos alunos. Já existem mais de 5 repúblicas, algumas no conselho de repuúblicas, que repudiam o trote publicamente. Mais da metade do meu ano não toma nem dá [trote], e a cada churrasco do bixo e do 5 ano, menos pessoas se ajoelham e se deitam quando um cara das antigas manda. Este ano, acompanhamos pessoas que acusaram o Coreto de roubar bixos, pq muito poucos estavam indo tomar ralo no Rucas. Mentira. Eles nao conseguiam aceitar que os bixos nao quisessem conhecer a "tradição". Alguns diziam que deveríamos obriga-los, pois eles não tinham como discernir naquele momento.
             O nome do segundo ano é "ano Doril": tomou ralo e sumiu. Sumiu. E ano que vem vão sumir mais ainda.
             Este ano teve ralo monstro de novo. A má noticia é que teve cara do segundo ano dando pauladas com ripas de estrado de cama nos bichos, que ficaram doloridos por mais de uma semana. Muitos tomaram remédios para poderem dormir, marcados. A boa notícia é que haviam 50 bixos levando ralo, contra cento e vinte que tomaram no meu ano. Destes 50, quantos darão ano que vem? Trinta? Vinte? Dez?

             O ralo é uma espécie em extinção, pelo menos este ralo covarde e idiota que conhecemos. Espero que apelidos, chapéus e outras atividades de integração se mantenham. Sexta feira teve concentracao para a passeata na Pau Queimado. Ninguém tomou ralo. Devia ter umas duzentas pessoas. Muitos bixos de cabelo feito, tomando ZERO de ralo. Isto é muito bom.
             Espero que as coisas se mantenham assim e, se minha filha quiser entrar na GLORIOSA, eu possa dormir com o coração cheio de ORGULHO, e sem nada de APREENSÃO. Tomara. Para mim, para você, para a ESALQ, para a agricultura e para a memória de Luiz de Queiroz. Tomara.
             Um abraço,
                                  P-ry - Ano leitinho

          Resposta. Pery: mais um inconformado, um rebelde! É algo que não se via no meu tempo! Havia medo: medo da humilhação, de surras (existiam, sim!), de estupros (sempre ocultos), de ser obrigado a ingerir litros de pinga, de violências de todo tipo...
               Como diz você, são muitos os que se rebelam contra a imposição do trote e se associam livremente para defender seus direitos individuais e sociais. Logo vocês serão maioria e enfim a normalidade. Os trotistas serão a minoria marginal, própria de burgueses acostumados a mandar, pois seus pais e conhecidos mandam sem conhecerem oposição, na fazenda, na empresa, na raia, no feudo eleitoral... É difícil respeitar e querer bem ao outro!
               Uma sugestão: criem um 'zine' da turma dos rebeldes ("mocós") e iniciem mais uma tradição 'gloriosa': a dos calouros independentes e integrados. Mas não se esqueçam de me enviar exemplares!
               Permita-me duvidar que não exista mais coação física; mas agressão (física ou mental) existe ainda de sobra para quem aceite o trote. Humilhação deprimente é o mínimo que terão os que aceitam o trote, acreditando na promessa do isolamento social dos rebeldes...
               Mais uma vez: apelido, chapéu, brincadeiras, só são válidos quando livremente aceitos e procurados pelos calouros, e desde que estes não se sintam obrigados, espezinhados, constrangidos, vilipendiados, ridicularizados, nem por pessoas, nem por promessas, ameaças ou "tradições". Adesão livre, consciente, sem contrato, a qualquer momento passível de desistência.
               Você confundiu a posição dos professores Antonio e Queda, favoráveis à repressão oficial/ estatal/ legal do trote, com a minha, claramente expressa no Manifesto, de revolta pessoal, do indivíduo, livremente recusando-se a se sujeitar à humilhação, à violência, e se associando aos que compartilham posições semelhantes.
               Gostaria que nossas atitudes e atos contra o trote contaminassem outras faculdades e universidades.
               Abraço do
                                    Celso do Lago Paiva.


      Mensagem 6

        De: Jamile Simas dos Santos jamile...@...
        Assunto: vc nem sabe, mas me ajudou!
        Data: dom., 27 fev. 2005 13:21 [...]
              Oiiiii, meu nome é Jamile, moro em SC, e tô ingressando em Odonto este ano... na UNIVILLE, e tava hiper preocupada com o trote pq o da minha amiga na FURB foi uma coisa ridícula... e acho que não preciso passar por esse tipo de humilhação, eu estudei pra caramba pra realizar um sonho e não pra pagar um mico...
              Minhas aulas começam no dia primeiro e a sua matéria no site me [ajudou a] ficar mais decidida ainda a me recusar a esse tipo de brincadeira inconseqüente...
              Ah!!! e se eles insistirem... tentando me obrigar ou me coagir por isso... onde é que eu posso reclamar na faculdade... tem que ser na reitoria? Tô contando com a sua resposta!!!
                                  Jamile

          Resposta. Jamile: vejo com satisfação que a conscientização política realmente parte de cada pessoa, sendo mesmo inata em alguns como você. Faz muito bem em não se sujeitar, como não se sujeitará a outras imposições em suas vida pessoal e profissional.
               É difícil aconselhar. Se eu estivesse em seu lugar, procuraria me associar logo nos primeiros dias do curso a pessoas que tivessem a mesma idéia a respeito do trote. Deixaria bem claro aos que me cercam a respeito de minha opção pela não-coação: meus pais, amigos, colegas.
               Se mesmo assim me sentisse coagido ou pressioanado, formaria comissão de colegas e procuraria as autoridades da Universidade: Coordenador Pedagógico, psicólogo, Seção de Alunos, Diretor da Faculdade, Reitor, Assessor Jurídico, etc.

          Os veteranos, em sua covardia, usam o direito de associação (erradamente garantido na Constituição) para oprimir, coagir, humilhar e obter vantagens pessoais. O direito de associação, de locomoção e o de expressão são direitos básicos, com os quais já nascemos, e a ninguém cabe discutir, conceder ou anular. Está na Constituição por arrogância dos constituintes.
               Una-se também!

          Alicie, atraia companheiros, forme grupo, imponha-se. Mantenha-nos informados sobre o sucesso da sua revolta.

               Abraço do
                                    Celso do Lago Paiva.



      Leitura adicional

        "Dramas de uma postura ambígua", de autoria dos professores da ESALQ Antônio Ribeiro de Almeida Jr. e Oriowaldo Queda, analisa o trote em todas as instituições universitárias:

        "Alguns dirigentes universitários também foram "trotistas" durante sua graduação, e não vêem maiores males no trote. Ao contrário, sentem-se favorecidos por sua existência. Sentem que os alunos "trotistas", que precisam de cobertura para atuar, são aliados na luta pelo poder na universidade.
             Apesar dos méritos acadêmicos que possam deter, às vezes falta-lhes sensibilidade e formação humanística. Por isso, tendem a encobrir a violência existente nas unidades sob sua administração. [...]

        O trote pode ser entendido como uma porta de entrada para formas perversas de corporativismo. Espécies de "máfias profissionais" recrutam participantes no trote. Maus profissionais são premiados por sua submissão ao trote, enquanto bons profissionais acabam excluídos por terem resistido.
             Talvez, por isso, o trote seja tão persistente. Mas os ataques à prática não se dirigem aos alvos corretos. Ao atacar o trote, devemos ter sempre em conta que os alunos são apenas soldados de uma hierarquia que conta também com generais."      http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/da240420023.htm



      Leitura obrigatória

        MATTOSO, Glauco, 1985. O calvário dos carecas: história do trote estudantil. S. Paulo, EMW, 181 p.


      "[...] para mim, o que representa o trote, enfim? [...] O trote, como o concebo, não passa dum método de tortura. Por vezes sutil, ora mais sofisticado, e freqüentemente escancarado. Mas nunca deixa de ser tortura.
           Ora, a motivação da tortura [...] pode ser encontrada em fatores de ordem política & econômica, que se resumem na manutenção do poder & da propriedade. Entretanto, a nível individual/ psicológico, a motivação está indiscutivelmente no sadismo."



    Artigo na rede:

      "O Silêncio dos Indecentes: um ensaio sobre a psicopatologia do trote", de José Roberto Paiva:
        http://www.prosex.org.br/silencio.html

        "[...] para mim, o que representa o trote, enfim? [...] O trote, como o concebo, não passa dum método de tortura. Por vezes sutil, ora mais sofisticado, e freqüentemente escancarado. Mas nunca deixa de ser tortura.
             Ora, a motivação da tortura [...] pode ser encontrada em fatores de ordem política & econômica, que se resumem na manutenção do poder & da propriedade. Entretanto, a nível individual/ psicológico, a motivação está indiscutivelmente no sadismo."



    Referência bibliográfica desta página

      PAIVA, Celso do Lago, 2002. Trote: para que? Desafio aos calouros univeersitários. Disponível na rede mundial: http://www.reocities.com/lagopaiva/trotenao.htm. 14 abr. 2002 (publicação), 2 mar. 2005 (atualização).



    Palavas-chave adicionais: sadismo, masoquismo, ralo na universidade, ralo universitario, ralo universitário, trote na universidade, trote universitario, trote universitário, trote esalq, violência na universidade, violencia na universidade, trote na universidade, trote universitario, trote universitário, ralo na universidade, trote acadêmico, trote academico, trote estudantil, trote na escola, trote violento (sic: redundância!), "trote", "ralo", ralo violento, jogo de poder na universidade, política estudantil, politica estudantil, política universitária, politica universitaria, política na universidade esalqueano, esalqueanos, liberdade individual, autodeterminação, poeta Glauco Mattoso, O calvário dos carecas: história do trote estudantil, o calvario dos carecas: historia do trote estudantil Paiva, Celso do Lago