As Testemunhas de Jeová são Pessoas Especiais?

Em meados da década de 80, num congresso internacional realizado no estádio do Morumbi em São Paulo, enquanto tentava retornar para o local onde estavam meus familiares, espremido no meio de milhares de pessoas que se acotovelavam nos corredores em busca de lanches para a refeição, deixei cair minha carteira e só fui notar sua falta algum tempo depois, voltei ao caminho percorrido e nem sinal dela. Já a tinha dado como perdida e passei no departamento de "achados e perdidos" só para descargo de consciência, e para minha surpresa lá estava ela, intacta, dinheiro, documentos, cartões, tudo enfim da mesma forma como estava antes. Isso aconteceu no Domingo o último dia do congresso, fui embora ao final do programa com a certeza de estar na verdadeira religião, afinal, em que outro tipo de evento ou aglomeração de pessoas algo similar poderia ocorrer, onde senão entre as Testemunhas de Jeová? Essa foi a impressão que ficou. Mas será que é a completa expressão da verdade?

A Sociedade Torre de Vigia e seus lideres esforçam-se para que a imagem externa que se tem de seus membros seja essa: Todos eles são pessoas íntegras, honestas, ordeiras, incorruptíveis e de alto padrão moral. Note-se que a Sociedade Torre de Vigia procura sempre publicar a palavra de autoridades elogiando o comportamento das Testemunhas em grandes reuniões, em locais públicos, hotéis e outros, usa extensivamente o testemunho daqueles que elogiam o trabalho de empregados e profissionais que são Testemunhas para realçar suas virtudes e apresenta declarações favoráveis de pessoas que as consideram bons vizinhos, bons amigos, bons pais, bons filhos, etc. A Sociedade nem sempre é tão explícita no seu modo de agir, mas também usa de sutilezas para inserir na mente de seus membros que eles são diferentes, que são realmente especiais, diferenciados em relação as outras pessoas. 

Um artifício muito interessante usado pelos seus líderes é a forma usada nas suas publicações para minimizar os erros cometidos pelas Testemunhas de Jeová em comparação com os erros das pessoas que não o são. As pessoas comuns sempre pecam miseravelmente, aliás cometem pecados constantemente, são praticantes do pecado, fornicadores, adúlteros, beberrões, imorais, desonestos, sem dignidade, além de outros adjetivos desqualificadores. Aqueles que abandonaram as fileiras da Sociedade, aos quais ela se refere pejorativamente como "apóstatas", recebem em acréscimo aos adjetivos citados, diversos insultos e termos depreciadores separados por uma linha tênue das palavras de baixo calão. As testemunhas de Jeová por outro lado são apenas e simplesmente pessoas imperfeitas, que falham ao tentar fazer o que é correto por culpa única e exclusivamente da imperfeição, elas não pecam motivadas pelos mesmos desejos egoístas e mesquinhos que assolam o mundo e os "mundanos", e sim, sucumbem a tentação, dão margem para que Satanás as desvie do caminho correto, etc, etc. 

Para comprovar basta observar uma parte da introdução do primeiro capítulo da brochura "As Testemunhas de Jeová no Século Vinte", publicada pela Sociedade Torre de Vigia, sob o título "Quem são?": 

"Em quase todos os aspectos, as Testemunhas de Jeová são pessoas iguais a todas as outras. Têm seus problemas - econômicos, físicos e emocionais. Às vezes cometem erros, pois não são perfeitas, inspiradas, nem infalíveis. Mas procuram aprender de suas experiências e estudam diligentemente a Bíblia para fazer os ajustes necessários." (negrito acrescentado) 

 

O texto procura convencer o leitor que as Testemunhas de Jeová cometem erros só de vez em quando, muito raramente, esta é a idéia que as palavras "às vezes cometem erros" transmitem, além disso é importante notar que se usa o termo "erros" e não pecados, e é muito fácil entender o motivo, errar soa mais suavemente e tem um impacto muito mais tolerável do que pecar. Não resta nenhuma dúvida que ao se dizer que alguém cometeu não um pecado, mas apenas um erro, causa-se uma impressão muito mais aceitável e perdoável ao ouvinte. Isto pode parecer pouco, indigno de nota, mas não é, basta conversar com uma testemunha de Jeová para perceber claramente que a estratégia da Sociedade Torre de Vigia é eficaz e produz excelentes resultados práticos, e que as testemunhas sentem-se envoltas por uma aura de infalibilidade e superioridade, sendo impermeáveis aos pecados comuns da humanidade. 

Não quero dizer com isso que todas as Testemunhas de Jeová agem desta forma, nem que não exista verdadeiros cristãos entre aqueles que estão sob esta denominação religiosa, o fato acontecido comigo e relatado no início do artigo comprova de certa forma este fato. O que questiono, é o fato da Sociedade Torre de Vigia tentar uniformizar e padronizar todos os seus membros, como se todos eles fossem iguais e "semi-perfeitos" em comparação com a  humanidade "miseravelmente pecadora", esquecendo que tanto uns quanto outros são co-herdeiros do mesmíssimo pecador Adão, não concedendo à humanidade em geral o mesmo benefício concedido às Testemunhas de Jeová: O da imperfeição humana herdada para justificar seus erros e faltas. >

A sugestão de superioridade inserida sutilmente na mente de seus adeptos pela Sociedade Torre de Vigia é a causadora disso. Naquele mesmo congresso citado anteriormente, onde pude comprovar a existência de amor ao próximo e honestidade, também pude notar comportamentos totalmente opostos, pois ao chegar muito cedo ao estádio, antes de amanhecer o dia, encontrei milhares de lugares marcados principalmente com revistas, na verdade todo o anel de cadeiras cobertas estava marcado e poucas pessoas estavam presentes. Será que aqueles que marcaram lugares indevidos e aqueles que dormiram até bem mais tarde e sentaram-se comodamente em bons lugares demonstraram comportamento cristão?




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