Josefo e Beroso 

Quais as Diferenças?


 

Mattitiyahu ben Yosef ha-Kohen nasceu em 37 EC (Era Comum ou Depois de Cristo), a data da sua morte não é exata - algo entre 95 e 100 EC. Era fariseu e tornou-se líder da revolta dos judeus contra o domínio de Roma na década de 60 EC e depois da derrota entregou-se aos romanos, caindo nas graças de Vespasiano - comandante das legiões romanas - ao profetizar que este se tornaria imperador. Como sua profecia se confirmou, ele tornou-se protegido do imperador romano, recebeu o título de cidadão e foi nomeado Flávio, o nome da dinastia romana dominante na época. Flávio Josefo - como é conhecido hoje - passou a residir em Roma e escreveu algumas obras históricas, entre elas "As  Guerras Judaicas", "Antiguidades Judaícas" e "Contra Apião", fornecendo pormenores da destruição de Jerusalém em 70 EC, da qual foi testemunha ocular, e detalhes sobre outros aspectos da história dos hebreus não registradas na Bíblia. As religiões cristãs - entre elas as Testemunhas de Jeová - tem um apreço especial por Josefo porque é um dos historiadores da época que confirmam em seus escritos a existência e o ministério de Jesus. A Sociedade Torre de Vigia inclui citações do historiador judeu em diversas publicações, usando-o como referência para várias passagens que não são relatadas, ou o são de forma sucinta, na Bíblia Sagrada. Citando, como exemplo, o nome da enteada de Herodes que pediu a cabeça de João, o Batizador e outros detalhes sobre a dinastia dos Herodes:

A Sentinela 15/03 1994 - página 30 - As fascinantes crônicas de Josefo

Outros escritos de Josefo fornecem entendimento sobre impostos, leis e eventos. Ele chama de Salomé a mulher que dançou na festa de Herodes e que pediu a cabeça de João, o Batizador. (Marcos 6:17-26) A maior parte do que sabemos sobre os Herodes foi registrada por Josefo. Ele até mesmo diz que “para encobrir sua idade avançada, [Herodes] pintava o cabelo de preto”.

  O nome do artigo acima é bem sugestivo, ao chamar de "fascinantes crônicas" os escritos de Josefo, confere-se automaticamente aos mesmos, a reputação de confiáveis, dignos de credibilidade. Ninguém pode permanecer incrédulo diante de um texto que produz tal impacto, portanto, Josefo recebe da Sociedade Torre de Vigia a chancela de historiador confiável e os seus escritos como a plena expressão da verdade.O tratamento recebido por Josefo e pelos outros historiadores antigos por parte da Sociedade é diferenciado. Carl Olof Jonsson - ex-testemunha de Jeová - que refutou o ensinamento sobre o ano da destruição de Jerusalém como sendo 607AC, baseado em inúmeras provas e documentação histórica, escreveu algo interessante sobre o tratamento diferenciado que os historiadores antigos recebem por parte da Sociedade Torre de Vigia:

    Vemos assim que o uso que a Sociedade Torre de Vigia faz de escritores da antiguidade é muito seletivo. Eles citam Josefo na questão dos setenta anos de desolação mas escondem o fato de ele ter por fim apresentado esse período como sendo cinqüenta anos. A referência que a Sociedade faz a Teófilo reflete os mesmos métodos: Citam-no, não porque ele realmente apresente evidência que os apóie, mas porque o cálculo dele concorda até certo ponto com o da Sociedade. Outros escritores cristãos contemporâneos, cujos cálculos diferem dos da Sociedade Torre de Vigia, são ignorados. Esta forma de proceder é uma clara deturpação do conjunto da evidência proveniente de vários escritores da antiguidade que discutiram este assunto.(*)

(*) Leia o artigo completo:  Tentativas de Enfraquecer a Evidência

  A Sociedade Torre de Vigia enaltece os escritos de alguns historiadores ao mesmo tempo em que pulveriza ou simplesmente ignora os registros de outros, apenas porque não são coincidentes com os seus próprios ensinamentos. Ela afirma, como maneira de desacreditar os escritores antigos com os quais não concorda, que estes foram influenciados por circunstâncias diversas a registrar relatos equivocados ou  pelo menos não totalmente fiéis aos fatos. Beroso por exemplo, não recebe crédito por ter sido um sacerdote babilônico e receber o rótulo "escritor pagão", e ainda - segundo a Sociedade Torre de Vigia - ter escrito o que atendia os interesses dos monarcas de sua nação e não os fatos verdadeiros. Se esquece a Sociedade Torre de Vigia que Beroso assentou seus escritos por volta de 300 AEC, mais próximo portanto de diversos acontecimentos do que escritores do primeiro século EC como Josefo. Também não dá importância ao fato de que Beroso foi uma das principais fontes de informações, senão a principal, para o próprio Josefo como a própria Sociedade publica:  

Estudo Perspicaz  - vol. 3 - página 571   -  Senaqueribe
Josefo, historiador judeu do primeiro século EC, afirma citar o babilônio Beroso (considerado ser do terceiro século AEC), que registraria o evento do seguinte modo: “Quando Senaqueirimos retornou a Jerusalém...” (Jewish Antiquities [Antiguidades Judaicas], X, 21 [i, 5])

Estudo Perspicaz - vol. 1 - página 512   -  Ciro
Josefo, historiador judeu, registra uma narração da conquista realizada por Ciro, escrita por Beroso, sacerdote babilônio (do terceiro século AEC), como segue: “No décimo sétimo ano do seu reinado [o de Nabonido], Ciro veio da Pérsia com um grande exército, e... ” (Against Apion [Contra Apião], I, 150-153 [20])

Se os escritos de Beroso não podem ser considerados como fidedignos por ser um sacerdote "pagão" e além disso sofrer influência dos seus governantes, principalmente quando ele situa a queda de Jerusalém ante os babilônios em 587 AEC e não 607 AEC conforme ensina a Sociedade Torre de Vigia, por que quando citado indiretamente, por meio de Josefo, sua história passa a receber credibilidade? Se Beroso é indigno de crédito, se os seus registros não merecem respeito por terem deturpado os fatos, nada que se origina nele, mesmo citações de outros historiadores mais recentes, deveria ser levado em conta. Por sinal, a mesma dúvida sobre a veracidade dos fatos registrados poderia ser aplicada a Josefo, que era protegido dos governantes de Roma, aliás, a própria Sociedade Torre de Vigia reconhece que nem tudo o que Josefo registrou pode ser estritamente a expressão da verdade:  

A Sentinela 15/03/1994 - página 29   -   As Fascinantes Crônicas de Josefo 

"Não há dúvida de que grande parte da história contada por Josefo é exata."

 

Observemos esta declaração por um outro ângulo. Quando é dito: "grande parte da história contada por Josefo é exata", subentende-se por outro lado, que pelo menos uma parcela dos escritos pode não ser exatamente a verdade, ou no mínimo não ser confiável. Seria o mesmo que conceder um empréstimo em dinheiro à alguém que se autodenominasse quase sempre honesto, ou honesto na maior parte do tempo, o que garantiria que a pessoa não seria desonesta justamente neste caso? No entanto, a Sociedade Torre de Vigia confia totalmente em Josefo na mesma proporção em que desacredita Beroso, contraria as palavras do próprio Jesus quando disse: "Quem é infiel no mínimo é infiel no muito", e registra pormenores e detalhes que só Josefo escreveu - e que a Bíblia não informa - como sendo verdadeiros, como a citação sobre a tintura de cabelo usada por Herodes ou o nome da filha de Herodias e Felipe, enteada de Herodes.

Quando diz que "grande parte da história de Josefo é verdade", deixando implícito que algumas falhas existem, provavelmente a Sociedade Torre de Vigia se refere a alguns detalhes controversos e comprometedores sobre a vida do escritor e também sobre alguns escritos seus que não coincidem com seus ensinamentos.

Se por um lado Flávio Josefo é um historiador muito respeitado, por outro lado a sua atuação na rebelião dos judeus contra Roma, da qual era um dos líderes, é controversa entre os de seu povo, há os que o consideram um herói e há os que o consideram um traidor, motivados pela história obscura de sua rendição aos romanos. Ocorre que após a derrota, Josefo combinou uma espécie de suicídio coletivo com alguns dos judeus sobreviventes para não caírem nas mãos dos romanos, fizeram um sorteio para que um matasse o outro e fosse morto em seguida pelo próximo e assim sucessivamente, mas como Josefo aparentemente tinha como filosofia de vida ser melhor um covarde vivo do que um herói morto, deu um "jeitinho" (que pelo visto não é invenção de brasileiro) e conseguiu - no sorteio - ficar como último homem, aquele que cometeria suicídio, só que em vez de se matar, Josefo entregou-se aos romanos e espertamente caiu nas graças de Vespasiano profetizando que este seria imperador e tendo sua vida poupada por isso.

Um outro caso que a Sociedade Torre de Vigia evita citar por temer se tratar de puro folclore, é o relato de Josefo sobre um "Vaso Naval" que estaria encalhado no topo do monte Ararate, na região que hoje é a Turquia, tal embarcação seria a própria Arca de Noé. Na verdade Josefo apenas copiou os registros do babilônio Beroso datados de 275 AEC citando um "Vaso Naval" incrustado no mesmo local, o monte Ararate, por sinal Beroso conta a ocorrência passada de um dilúvio nas mesmas proporções daquele descrito na Bíblia.

Um outro problema é que Josefo relata inúmeras crucificações, isso mesmo, crucificações de judeus pelos romanos na época da revolta dos zelotes, mostrando que esta era maneira usada pelos romanos para executarem ladrões, desertores e rebeldes. Josefo descreve que as crucificações se davam pendurando-se as vítimas numa cruz, formada por uma estaca vertical chamada staurós e uma barra transversal chamada xylós (Grego) ou patíbulus (Latim), que era apoiada nos ombros da vítima e amarrada nos seus braços após o julgamento, depois de severa tortura com o flagelus, uma espécie de chicote de duas tiras com pedaços de ossos e metais. O condenado era obrigado a caminhar com o patíbulus nos ombros até o local da execução, onde era pendurado na estaca vertical fixando-se o patíbulus transversalmente a mesma e pregando-se suas mãos nas duas extremidades da trave e seus pés na estaca vertical.

Sem entrar no mérito da questão, não me importa se Josefo diz a verdade ou não, se a maneira comum de execução romana era numa cruz ou era numa estaca vertical simples, o importante é que a Sociedade Torre de Vigia, que cita Josefo como fonte segura de informações importantes do primeiro século como testemunha ocular que foi dos acontecimentos, evita algumas outras informações do mesmíssimo Josefo como esta descrição da crucificação romana. O objetivo é claro para mim: Preservar o ensino singular da execução de Jesus numa estaca vertical simples.

Concluindo, a Sociedade Torre de Vigia discrimina e ignora alguns escritores antigos ao mesmo tempo em que prestigia ostensivamente a outros, porém mesmo destes últimos, só são citados os trechos que possam ser usados como fator de comprovação dos seus ensinos, o restante é sumariamente descartado.