O Nó Profético

 

É inegável o atrativo que os acontecimentos futuros despertam nas pessoas, dispostas muitas vezes a pagar para saber algo relacionado com este assunto, prognosticadores profissionais geralmente ganham fortunas se conseguem acertar algumas previsões, por mais absurdas que sejam. Desde o campo econômico, onde antecipar-se as informações por apenas alguns minutos pode significar milhões de dólares de lucro, até aquele imenso contingente de pessoas que se sentam em frente à televisão para saber a previsão meteorológica do dia seguinte, o fascínio pelos acontecimentos futuros é impressionante.
Claro que uma previsão para ser digna de confiança tem de ser acompanhada dados concretos ou de uma data específica, fixada para o acontecimento. Por exemplo, alguém prever o fim do mundo sem colocar nenhuma data para isso, certamente não atrairia a atenção de ninguém, por outro lado, quando alguém prevê este mesmo fim, indicando uma data bem definida, provoca no mínimo a curiosidade de muitas pessoas, como se provou recentemente com as profecias de Nostradamus.

A Sociedade Torre de Vigia usou extensivamente este artifício ao longo de sua história, em momento algum ela se absteve de indicar para uma data à frente, diretamente ou veladamente, onde haveria algum evento relacionado com profecias bíblicas, principalmente o "final deste sistema de coisas". Diversas datas foram apontadas e à medida que falhavam eram substituídas por outras sendo apontadas mais à frente, quer dizer, sempre as testemunhas de Jeová tinham uma data em que se basear para continuar acreditando no "paraíso em breve". As datas sempre foram lançadas por algum líder carismático e por isso mesmo, fáceis de ser negadas depois da falha, bastava dizer que era uma convicção pessoal ou então providenciar-se uma nova luz sobre o assunto e tudo estava resolvido.

Nos últimos anos, porém, a Sociedade estava às voltas com um verdadeiro "nó" profético, apertando a corda em torno de seu "pescoço" e ameaçando sua credibilidade junto aos seus adeptos. Por que chamar de nó profético? Porque a passagem do tempo esgotava velozmente a possibilidade da profecia vir a se cumprir, e principalmente por esta data estar amarrada com outras datas de profecias paralelas, todas estas fundamentais para a inteira doutrina da Sociedade Torre de Vigia, ou seja, diversas pontas numa única amarração formando um nó. A data do estabelecimento do Reino de Deus no céu, a "presença" de Cristo, o hiato de tempo até o estabelecimento deste mesmo Reino na terra, etc.

A corda principal deste nó era a profecia sobre a última geração proferida pelo próprio Jesus e interpretada pela Sociedade Torre de Vigia como a geração que viu e entendeu os acontecimentos relacionados com o ano de 1914 e que estaria viva e lúcida para presenciar o fim. Este conceito fazia parte da espinha dorsal da doutrina das testemunhas de Jeová, afinal ela indicava para o estabelecimento do Reino de Deus na terra dentro do período de vida de um ser humano, algo fácil de cronometrar e certamente bastante atrativo para conquistar novos discípulos. Durante as décadas de 1950 e 1960, dentro do período em que Nathan Knorr e Frederich Franz, respectivamente Presidente e Vice da Watchtower Society na época, ocorreu um acelerado crescimento no número das testemunhas de Jeová em todo o mundo, naquele tempo era perfeitamente aceitável que alguém com 20 anos de idade em 1914, que teria na época entre 60 e 70 anos, poderia observar de forma lúcida aos dois acontecimentos, o estabelecimento do Reino de Deus primeiro nos Céus e depois na Terra conforme a concepção da Sociedade Torre de Vigia. No entanto, em meados dos anos 90 isto já não era possível, pois aquela mesma pessoa já teria então quase 100 anos de idade e um grupo muito pequeno no mundo atenderia este requisito, além do que poucos deles com a lucidez mental necessária para cumprir as palavras de Jesus. 

Mesmo alterando sucessivamente para baixo a idade inicial ou a idade que deviam ter as pessoas que observaram os acontecimentos em 1914, quem trabalhou no serviço de campo nesta época deve ter sentido como era complicado explicar para alguém, que uma criança de apenas 7 anos de idade podia entender o que estava acontecendo no mundo em 1914, sabendo que mesmo hoje, com todo o sistema de informação disponível, dificilmente uma criança consegue ter uma razoável noção do que está acontecendo à sua volta devido ao seu egocentrismo, quanto mais o que acontece no resto do mundo. Mesmo assim, era a única forma de aplicar a interpretação da Sociedade e não "matar" antes do tempo todos aqueles que realmente presenciaram e entenderam que o mundo em 1914 estava envolvido numa guerra mundial.

A Sociedade Torre de Vigia tinha de agir, mesmo com a diminuição da idade inicial, a tal "geração 1914" estava fazendo água por todos os lados, faltou muito pouco para afirmar-se que um bebê poderia entender acontecimentos mundiais. A atitude fatal foi tomada em 1995, num pequeno parágrafo da revista A Sentinela foi desintegrado o ensino que durante anos foi o tema principal da pregação da maioria das testemunhas de Jeová, quem participou na pregação de casa em casa nas décadas anteriores, certamente usou diversas vezes a conta da "última geração" para indicar a proximidade do armagedom, todavia, aquela importante interpretação profética não mereceu nem um digno reconhecimento do erro, mas foi obliterada por uma "nova luz" complicadíssima que, tenho certeza absoluta, a grande maioria das testemunhas de Jeová não consegue entender nem explicar até hoje, a não ser dizer: 

"Qual será a ultima geração? Será... a última geração, oras!"


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