Em União com a "Coisa Repugnante"

 

Recentemente foi descoberto que a organização Sociedade Torre de Vigia, mais especificamente a Watchtower Bible and Tract of New York, principal entidade controladora dos interesses jurídicos das Testemunhas de Jeová, estava relacionada como uma das ONGs (Organizações Não-Governamentais) associadas ao DPI (Department of Public Information) da ONU (Organização das Nações Unidas). O DPI é o departamento de relações públicas da ONU, encarregado de divulgar e promover na mídia, qualquer que seja ela, todas as iniciativas e campanhas das Nações Unidas. As ONGs associadas ao DPI, recebem a incumbência de levar ao grande público todas as informações necessárias, divulgando os programas e incentivando a adesão do máximo de pessoas possível, visando, obviamente, o sucesso das iniciativas oriundas das entidades que compõem a Organização das Nações Unidas. (Informações completas sobre a associação e dissociação da Sociedade ao DPI estão no site: Observatório da Watchtower).

Há algum problema em a Sociedade Torre de Vigia decidir utilizar seu grande aparato de comunicação para apoiar as campanhas da ONU, principalmente as de cunho humanitário? Do ponto de vista de um cidadão comum, desconhecedor dos ensinos da Sociedade, não há nenhum problema nisso, ao contrário, é ótimo. Do ponto de vista das Testemunhas de Jeová, porém, há pelo menos dois enormes problemas:

1) A Sociedade Torre de Vigia sempre criticou de forma incisiva a atuação da ONU. 

2) As Testemunhas de Jeová não foram comunicadas do fato pelos homens do Corpo Governante, nem quanto ao ato da associação ao DPI, nem da dissociação, nem tampouco explicou-se a elas o que motivou ambas atitudes.

Mas, o pior em tudo isso é que a Sociedade não tinha a mínima intenção de tornar pública a sua solicitação de associação ao DPI, ocorrida em 1991 e aprovada em 1992. O caso só veio à tona graças ao fato de sua razão social estar alistada em meio a centenas de outras organizações na página oficial do DPI, vinculado a página oficial da ONU na internet. A repercussão negativa na imprensa e na internet, principalmente na Grã-Bretanha, obrigou-a a solicitar sua exclusão do quadro de ONGs associadas ao DPI, fato que se deu agora, no início de outubro de 2001.

As acusações de hipocrisia das quais foi alvo a Sociedade Torre de Vigia não podem ser consideradas levianas, por serem fundamentadas em farta documentação, no caso, as próprias publicações que distribui. Afinal por vezes, inúmeras delas, esta mesma Sociedade colocou a ONU, suas entidades associadas e as iniciativas promovidas por elas em posição altamente desfavorável junto as Testemunhas de Jeová e, por extensão, a todas as pessoas alcançadas por suas publicações. A Sociedade ridicularizou ao extremo a iniciativa da ONU em promover o ano de 1986 como o ano internacional da paz, apenas para citar um exemplo. Em adição, identificou a ONU e sua antecessora, a Liga das Nações, como a "imagem da fera" do Livro de Revelação (ou Apocalipse) e como a "coisa repugnante" de um provável cumprimento hodierno da profecia de Jesus Cristo sobre a destruição de Jerusalém. Os fatos recém descobertos provocaram um grande abalo na já combalida credibilidade da Sociedade Torre de Vigia, qual auto-afirmada parcela física da organização visível de Deus na terra, assim como na de seu Corpo Governante, que reivindica a posição de único intérprete de profecias bíblicas autorizado por Deus e porta-voz legítimo da verdade divina. Ter sido associada a ONU, por meio do DPI, durante toda a última década, ao mesmo tempo em que sustentava ensinos escarnecedores sobre ela, publicando-os em suas revistas, livros e brochuras, configura uma posição assumidamente hipócrita e inescrupulosa

Hipócrita - porque ensinava uma coisa e praticava o oposto simultaneamente, igual aos líderes religiosos que tanto critica. 

Inescrupulosa - porque a atitude, longe de revelar umaa insuspeita preocupação com as ações humanitárias promovidas pelos órgãos das Nações Unidas, aponta para uma manobra típica dos piores políticos e empresários: escudar-se numa aparente atitude filantrópica para obter vantagens políticas ou financeiras.

A hipocrisia é uma falta gravíssima em se tratando de líderes religiosos, por isso mereceu um tratamento duro e condenatório durante o ministério de Jesus. A Sociedade Torre de Vigia mergulhou fundo na hipocrisia religiosa ao criticar com insistência a ONU, por apresentá-la como uma usurpadora da posição que caberia unicamente ao Reino de Deus e, no entanto, solicitar associação a um dos órgãos que fazem parte da estrutura daquela organização. Foi aos píncaros da hipocrisia quando, depois de acusar o Papa e outros líderes religiosos de cometerem fornicação com a "Fera" política do mundo, por apoiar publicamente a Imagem da Fera, a própria ONU, em ocasiões anteriores, ela mesma chafurdou-se na tal fornicação antes condenada, só que às escondidas do público e de seu próprio povo, as Testemunhas de Jeová, que nunca souberam de nada e talvez muitas delas nunca venham a saber se não pesquisarem em sites na internet como este ou na imprensa secular como no jornal inglês The Guardian.

De uma certa ótica, talvez possa ser considerado ainda mais grave a segunda falha da Sociedade no caso de sua associação ao DPI da ONU: A falta de escrúpulos digna de políticos corruptos de terceiro mundo. Para melhor entender porque a atitude da Sociedade é inescrupulosa, é preciso analisar o histórico da situação que envolve a própria Sociedade Torre de Vigia, aquela que ela sempre chamou de "coisa repugnante" e "imagem da fera", os governos políticos do mundo e a população dos países mais desenvolvidos de maneira geral.

Quando foram forjadas as interpretações da Sociedade que deram vida aos personagens do livro bíblico de Revelação, a Fera e a Imagem da Fera como sendo respectivamente os governos políticos do mundo e a ONU, organização que os representa, a realidade do mundo era bem outra. O clima era belicista no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial e nesta condição, com os governos investindo enormes somas em dinheiro no desenvolvimento de armamentos e meios de defesa, as questões sociais estavam relegadas a um plano secundário. A falta de recursos das classes mais baixas, sempre um terreno fértil de insatisfação com os governos políticos, e o medo generalizado de estar a beira de um holocausto nuclear global, propiciou à Sociedade Torre de Vigia uma condição muito favorável, pois além de prometer a vida eterna num futuro paraíso sob as benção do Reino de Deus, ela também atendia a um anseio da época, empunhando uma bandeira de oposição àqueles que provocavam os temores das pessoas comuns: governantes políticos instáveis munidos de armas nucleares ou ditadores opressivos e uma organização mundial que prometia a paz porém sem conseguir administrar as ambições políticas e comerciais de seus países membros. No caldeirão fervente que foi o mundo durante o período da guerra-fria, principalmente nas nações européias e nos EUA, a Sociedade Torre de Vigia teve o seu período áureo de crescimento, ampliando seu alcance para quase todos os países do planeta.

Não é o objetivo deste artigo afirmar que o fato da Sociedade Torre de Vigia ter empunhado a bandeira anti-ONU e anti-governos políticos, foi, de forma única e isolada, o motivo de sua explosão de crescimento nas décadas de 50, 60 e 70. Não seria verdadeiro, havia diversos outros fatores, já tratados em outros artigos, que foram da mesma maneira fundamentais para o projeto de crescimento idealizado por Nathan H. Knorr na década de 40. O fator tratado aqui fez parte de um conjunto de doutrinas, interpretações proféticas e ensinos comportamentais que formaram a base da estrutura montada por Knorr e Frederick Franz para alcançar o objetivo programado.

Na década de 80 a Sociedade Torre de Vigia ainda colheu os últimos frutos de sua safra, cultivada no medo da guerra nuclear global e da inoperância da ONU. As coisas no entanto estariam em profunda mutação ao final daquela década. A União Soviética, eleita o "rei do norte" pelas publicações da Sociedade, desfez-se, revelando a miséria de seu povo por trás dos poderosos armamentos nucleares. Um holocausto nuclear deixou de povoar os pesadelos do ser humano médio, pelo menos até o dia 11 de setembro de 2001, dia em que ocorreram os atentados suicidas em Nova Iorque e Washington. A ONU passou a ser vista não apenas como um ineficaz foro de conflitos entre nações, mas também como um organismo internacional com facilidade para congregar as organizações da chamada terceira via ou terceiro poder, que são as ONGs, entidades não-governamentais, que podem contribuir ou angariar recursos, promover e apoiar iniciativas de caráter humanitário. A ONU adquiriu respeitabilidade por seu trabalho no combate a fome e ao analfabetismo nos países mais pobres. Enfim, a sociedade civil nos países mais desenvolvidos e mesmo alguns governantes políticos, passaram a priorizar fatores anteriormente esquecidos como os direitos humanos. Neste ponto, por possuir doutrinas peculiares como a proibição de transfusões de sangue e por tratar de forma desrespeitosa e discriminatória os que saem de suas fileiras, a Sociedade Torre de Vigia passou a ser vista como uma seita potencialmente perigosa e destrutiva.

Não era a imagem pública ideal que desejava a organização que lidera as Testemunhas de Jeová, pois significava uma conseqüente desaceleração nos índices de crescimento nos países com população mais esclarecida, algo nada bom para os negócios. Mas haveria um efeito colateral ainda mais devastador, este sim atingindo em cheio o departamento financeiro da Sociedade Torre de Vigia: pagamento de impostos.

Ao ser acusada de violar direitos humanos e representar perigo potencial para seus adeptos, a Sociedade passou a ser alvo dos órgãos de captação de impostos em diversos países onde atua. Isso devido ao fato dela ter obtido anteriormente o benefício da isenção de impostos, por auto-denominar-se qual organização não-lucrativa, variando apenas os objetivos conforme as legislações locais. Provedora de ensino religioso em alguns, filantropia em outros e assim por diante. Tanto isto é verdade, que em alguns países as Testemunhas de Jeová  não solicitavam contribuições por revistas e livros deixados ao morador há anos, enquanto no Brasil, apenas recentemente este novo formato foi adotado. E talvez em alguns outros países o sistema antigo ainda funcione, dependendo da voracidade e esperteza do Fisco local, aplica-se o formato mais adequado.

No início da década passada, os dirigentes da Sociedade Torre de Vigia solicitaram associação ao DPI das Nações Unidas e foram aceitos. Comprometendo-se com isso a apoiar os ideais da Carta das Nações Unidas, que é a primeira exigência para tornar-se um associado. Um gigantesco paradoxo para uma organização que criticava abertamente os mesmíssimos "ideais", publicando centenas, talvez milhares, de vezes a sua posição em revistas, livros, etc. Provavelmente por este motivo, tentou e conseguiu manter a ligação em secreto por quase 10 anos. Naquele momento porém, mais importante do que a coerência doutrinal, eram os benefícios que uma ONG associada a ONU poderia obter. Tratava-se de uma tentativa para melhorar a sua imagem junto as autoridades, angariando respeito e confiabilidade, muito importantes em eventuais defesas junto a órgãos de arrecadação tributária.

Considerando a quantidade de material condenatório publicado pela Sociedade Torre de Vigia nas últimas décadas e a imagem demoníaca da ONU que ela implantou na mente das Testemunhas de Jeová, pode-se dizer sem medo de erro, que este é o maior caso de hipocrisia religiosa já registrado na história das religiões cristãs. Escondido por trás deste fato, a falta de escrúpulos que motivou a aliança com o inimigo declarado, ou melhor, a venda de seus ideais anteriores em troca de uma posição mais favorecida junto aos governantes humanos, muito possivelmente com o intuito de diminuir os riscos de ser assolada por taxas e impostos, é da mesma maneira digna de asco. Se a Sociedade foi bem sucedida ou não, se realmente obteve facilidades com sua associação ao DPI da ONU, é algo que talvez nunca poderemos saber. Porém, mesmo não tendo conseguido obter vantagens, a intenção motivadora por si só revela a vocação extra-religiosa da Sociedade Torre de Vigia. Não que o pendor para os negócios uma novidade, algo recente. De forma alguma, desde a ascensão de Nathan Knorr ao poder as coisas caminham desta forma e a Sociedade foi transformada em uma empresa de negócios. Mesmo assim, nem ele conseguiu chegar tão longe.