Nem Ovelhas Nem Cabritos

Desde 1995, quando a Sociedade Torre de Vigia publicou uma "nova luz" para explicar a parábola das ovelhas e dos cabritos, não era possível entender, pelo menos antes de detida avaliação, os motivos que a levaram a fazer isso. Isso por não existir nenhum risco aparente na manutenção desta interpretação particular das palavras de Jesus, ao sistema doutrinário montado pela Sociedade Torre de Vigia, ao contrário de outras interpretações mal sucedidas. Alguns dias atrás, analisando novamente o que foi publicado antes sobre "ovelhas e cabritos", percebi algo que, parafraseando a Sociedade, parece ser o motivo básico da mudança. Não que eu tenha absoluta certeza, mas parece ser uma teoria com boas possibilidades de acerto.

Era ensinado antes de 1995 que a separação das "ovelhas" - que receberiam a vida eterna - dos "cabritos" - que seriam decepados da face da terra - se dava por intermédio da pregação, fosse de casa em casa ou informal, de qualquer forma bastava alguém dar ouvidos às boas novas que publicavam as Testemunhas de Jeová e tornar-se uma delas, para receber o "carimbo" de aprovado como "ovelha", por outro lado, aqueles que recusavam o convite eram considerados automaticamente como "cabritos". Quem é ou já foi testemunha com toda a certeza já ouviu alguém dizer no serviço de campo sobre algum morador: "Este é cabritão mesmo"! Claro que já ouviu, afinal o conceito era esse, a Sociedade ensinava isso, conforme as revistas abaixo:  

A Sentinela 01/05/88 pág. 14 par. 17
Segundo Mateus 25, Jesus está no momento julgando a humanidade, separando as "ovelhas" dos "cabritos". Isto está sendo realizado na maior parte através da pregação das "boas novas do reino". 

A Sentinela 01/03/87 pág. 29 par. 15
No tempo atual, o entronizado Rei, Jesus Cristo, separa as pessoas umas das outras, "assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos". "As ovelhas" são aqueles que mostram ter disposição justa para com o Rei e seus irmãos da "nova criação", gerados pelo espírito. 

A Sentinela 15/05/87 pág. 13
A maneira de as pessoas reagirem às novas sobre o domínio do Reino é a base de se determinar se hão de ser separadas para "o decepamento eterno" ou para "a vida eterna" no novo mundo. 

 

E não somente as revistas mas também outras literaturas, como o livro "Paz e Segurança" de 1986, página 83, parágrafo 7: 

Em que se baseia a separação das pessoas para a sobrevivência?... Por reagirem favoravelmente à obra educacional mundial predita por Jesus quando disse: "Estas boas novas do reino serão pregadas em toda a terra habitada, em testemunho a todas as nações; e então virá o fim." (Mateus 24:14)...Esta obra de separação já está em andamento por muitos anos. Está agora perto de acabar. Segundo a Palavra de Deus, os que têm rejeitado a Sua regência do Reino, bem como os que indiferentemente desperdiçam a oportunidade de aprender sobre ele, serão eliminados. 

 

Ou o livro "Venha Teu Reino" de 1981, página 153 parágrafos 6 e 7:

Visto que o glorioso Rei e seus anjos são invisíveis aos olhos humanos, como faz ele a sua obra de separação? Os santos anjos orientam esta obra. (Revelação 14:6-12; veja Atos 8:26-29; 10:1-8.) E aqui, na terra, os remanescentes do "pequeno rebanho", que são chamados de "irmãos" do Rei, em Mateus 25:40, tomam a dianteira na pregação das "boas novas". O Rei julga as pessoas segundo a reação delas aos seus "irmãos" e à mensagem do Reino que proclamam. O que fazem a seus "irmãos" é contado por ele como feito a ele mesmo. 

No entanto, no fatídico número de 15/10/95 da revista A Sentinela, nas páginas 19 à 28, a Sociedade transformou o que era concreto agora, em algo que somente acontecerá no futuro, como se pode ler abaixo:  

4 Por muito tempo pensávamos que esta parábola retratava a Jesus assentado como Rei, em 1914, fazendo desde então julgamentos — vida eterna para os que provam ser como ovelhas, e morte permanente para os cabritos. Mas a reconsideração da parábola leva a um entendimento reajustado de quando se aplica e o que ela ilustra.

23 Se analisarmos a atividade de Jesus nesta parábola, notaremos que ele finalmente julga todas as nações. A parábola não indica que esse julgamento continuaria por um período prolongado de muitos anos, como se todas as pessoas que morreram durante as últimas décadas tivessem sido julgadas dignas de morte eterna ou de vida eterna. Parece que a maioria dos que faleceram nas últimas décadas foram para a sepultura comum da humanidade. (Revelação 6:8; 20:13) No entanto, a parábola descreve o tempo em que Jesus julga as pessoas de "todas as nações", que então viverem e enfrentarem a execução da sua sentença judicial. 

24 Em outras palavras, a parábola aponta para o futuro, quando o Filho do homem vier na sua glória. Ele se assentará para julgar as pessoas então vivas. Seu julgamento se baseará no que elas tiverem mostrado ser. Naquele tempo, será claramente evidente "a diferença entre o justo e o iníquo". (Malaquias 3:18) A própria sentença e a execução do julgamento serão efetuadas num prazo limitado. Jesus fará decisões justas à base do que as pessoas evidenciarem ser. — Veja também 2 Coríntios 5:10. 25 Portanto, isto significa que ‘assentar-se Jesus no seu trono glorioso’ para julgar, mencionado em Mateus 25:31, aplica- se àquele ponto no futuro em que este poderoso Rei se assentar para proferir e executar o julgamento sobre as nações. Deveras, a cena de julgamento que envolve Jesus, em Mateus 25:31-33, 46, é comparável à cena no capítulo 7 de Daniel, onde o Rei reinante, o Antigo de Dias, se assentou para desempenhar seu papel como Juiz. 26 Este entendimento da parábola das ovelhas e dos cabritos indica que o julgamento das ovelhas e dos cabritos é futuro. Ocorrerá depois de irromper a "tribulação" mencionada em Mateus 24:29, 30, e de o Filho do homem ‘vir na sua glória’. (Note Marcos 13:24-26.) Então, tendo todo o sistema iníquo chegado ao fim, Jesus realizará o julgamento, e proferirá e executará a sentença. — João 5:30; 2 Tessalonicenses 1:7-10 

 

A Sociedade Torre de Vigia empurra para o futuro, o cumprimento profético da parábola das "ovelhas e dos cabritos", conforme indica diversas vezes dentro do último texto (destaques acrescentados), um futuro imprevisível porém "breve" segundo suas palavras. Mas por que a alteração? Simples, a própria Sociedade dá uma dica em algumas linhas das publicações acima:  

"Paz e Segurança" página 83 parágrafo 7:

Esta obra de separação já está em andamento por muitos anos. Está agora perto de acabar.

 

No início da década de 80, época do lançamento do livro "Paz e Segurança", a Sociedade admitia que a tal obra de separação já estava em execução por um tempo excessivamente longo, mas afirmava categoricamente que estava muito próximo o seu fim, de fato fazia uma espécie de promessa para seus adeptos a fim de mantê-los despertos e atentos, certos de que veriam - num curto espaço de tempo - o final do homérico julgamento. Quinze anos depois - em 1995 - com a evidência de que a promessa não poderia ser cumprida, pelo menos não dentro do tempo previsto, a Sociedade viu-se sem alternativas, e incluiu esta "nova luz" num pacote de "novas luzes". Todas com o objetivo de aliviar a pressão sobre a urgência no cumprimento de datas proféticas, com as quais a Sociedade havia se comprometido há muitas décadas.  

A Sentinela 15/10/95 pág. 22 par. 23:

A parábola não indica que esse julgamento continuaria por um período prolongado de muitos anos, como se todas as pessoas que morreram durante as últimas décadas tivessem sido julgadas dignas de morte eterna ou de vida eterna. 

 

Conforme o trecho acima de A Sentinela 15/10/95, Ela foi obrigada a reconhecer que havia errado miseravelmente no seu anterior entendimento da parábola das ovelhas e dos cabritos, pois o "período prolongado de muitos anos" - não previsto no início - tornou-se uma realidade incompatível com o seu ensinamento e com o senso de urgência sempre reforçado em conexão com a parábola. Em adição, esta "nova luz" desvia os holofotes de outro texto que sofre sério risco devido ao mesmo problema, ou seja, compromisso com datas de validade vencidas. É o texto de Mateus 24:14, muitas vezes citado em conjunto com o cumprimento da parábola das ovelhas e dos cabritos, como está mostrado acima na página 86, parágrafo 7, do livro "Paz e Segurança". 

O fato é que a Sociedade sempre usou o texto para determinar uma paupável proximidade do fim deste sistema de coisas, pois Jesus disse: "Estas boas novas do reino serão pregadas em toda a terra habitada, em testemunho a todas as nações; e então virá o fim." A STV nunca deu destaque ao fato de Jesus dizer que antes de vir o fim, a boas novas seriam pregadas em todas as terras, a ênfase sempre foi que quando a pregação atingisse todas as terras a profecia seria cumprida. Mais uma vez houve um comprometimento irresponsável, uma especulação de datas, algo que Jesus não incentivou, muito pelo contrário, disse que Ele próprio não sabia, na época, qual seria a data, justamente para não dar à ela uma importância indevida. Já por muitos anos as Testemunhas de Jeová pregam insistentemente em todo o globo terrestre sem que o fim prometido viesse, algo que tende - com o passar o tempo - a provocar a necessidade de uma outra "nova luz" dentro em breve. Por enquanto, como o serviço de pregação deixou de ter tamanha importância, tanto por não ser mais uma "obra de separação", como por não mais existir um "senso de urgência", visto que tudo que o norteava foi lançado para "o futuro". O texto de Mateus 24:14 pode permanecer como uma alegoria, um resquício dos tempos áureos da STV, tempo em que as Testemunhas de Jeová viviam felizes, dormiam e acordavam como ovelhas. Hoje, elas não mais tem absoluta certeza.

* Grifados e negritos acrescentados.



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