A Divisão do Poder

 

As duas principais sociedades jurídicas que representam os interesses das testemunhas de Jeová são a Watchtower Bible and Tract Society of Pensylvannia, a primeira, e a Watchtower Bible and Tract Society of New York, ambas são entidades com perfil "nonprofit", quer dizer, sem fins lucrativos, usufruindo de isenção de impostos conforme a legislação dos Estados Unidos da América. Ainda conforme esta legislação, tais entidades são regidas por estatutos internos com normas bem definidas de funcionamento, inclusive a eleição por votação de um corpo de diretores, presidente, vice-presidente, etc, pelos membros da sociedade jurídica com direito a voto, com mandatos limitados a um certo período de tempo, após o qual nova votação poderia manter ou modificar o corpo de diretores, sempre de acordo com os estatutos definidos na fundação da sociedade ou associação. Claro que durante todos estes anos a Watchtower Society tem obedecido rigorosamente as normas que regem o funcionamento das entidades "nonprofit" nos E.U.A., porém, as assembléias gerais de membros onde os diretores apresentam balanços, prestam contas, aprovam medidas, definem o planejamento futuro e, principalmente, confirma-se a continuidade do corpo diretor ou elege-se nova diretoria, sempre foram meras formalidades jurídicas inócuas.

Joseph F. Rutherford ocupou durante 26 anos ( 1916-1942) o posto de presidente das sociedades jurídicas nos E.U.A. e da International Bible Students Association (Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia). Rutherford, com sua forte personalidade e o raro poder de influenciar e dominar seu semelhante, enfeixava em suas mãos o comando da inteira estrutura da Watchtower Society sem dar oportunidade ao surgimento de eventuais opositores ou vozes discordantes. Líder espiritual carismático, atraía para si as luzes de todos os holofotes não dando o mínimo espaço para os demais diretores da Watchtower, que eram para as testemunhas de Jeová comuns simplesmente isto: diretores anônimos cuidando da "parte mecânica", leia-se gráficas e editoras da Watchtower. Os créditos de seu último livro publicado em 1941, "Filhos" (em espanhol), revelam que Rutherford era inquestionavelmente o seu único autor e não algum escritor incógnito como verificamos nas publicações atuais, portanto as testemunhas de Jeová não tinham nenhuma dúvida naquele tempo sobre de quem estavam recebendo "alimento no tempo apropriado", era de seu líder espiritual, J. F. Rutherford, e de ninguém mais.

Os créditos indicam claramente o nome do autor, algumas de suas outras obras publicadas e inclusive o Copyright, direitos autorais, em nome do próprio Rutherford.

 

As próprias publicações da Sociedade Torre de Vigia têm ao longo dos anos admitido, talvez de forma involuntária, que o poder dentro de sua organização era exercido de forma despótica e que apesar de a diretoria da Watchtower nos E.U.A. ser chamada de "corpo governante", apenas o presidente era realmente "governante". Por inúmeras vezes, como forma de enaltecimento, as publicação declaram que "Rutherford e os outros diretores da Sociedade" foram aprisionados em 1918 em cumprimento de profecia bíblica. Notem o que diz o livro "Proclamadores" no capítulo 6, página 70 sobre o assunto:

"Na primavera de 1918, foi lançada uma onda de violenta perseguição contra os Estudantes da Bíblia na América do Norte e na Europa. A oposição instigada pelo clero culminou em 7 de maio de 1918, quando foram emitidos mandados de prisão federais dos EUA de J. F. Rutherford e de diversos de seus colaboradores íntimos. Em meados de 1918, Rutherford e sete colaboradores seus estavam na penitenciária federal de Atlanta, Geórgia."

Afora o presidente da época, os outros diretores da sociedade jurídica presos juntamente com ele raramente merecem citação nominal nas publicações da Sociedade Torre de Vigia, eram apenas homens anônimos e dedicados, simplesmente colaboradores íntimos, atores coadjuvantes obscurecidos pelo brilho da estrela principal.

 

UMA NOVA ERA

 

Nathan Homer Knorr foi escolhido como sucessor na presidência das sociedades jurídicas Watchtower após a morte de Rutherford em 1942, cargo em que permaneceu até a morte em 1977. Durante este período, Knorr assistiu a uma lenta e gradual, porém inexorável, perda do poder de influência e autonomia na tomada de decisões do homem que ocupava a cadeira mais importante no corpo diretor da Watchtower, pois faltava-lhe o que transbordava nos presidentes anteriores: carisma. Ele era um homem comum, sem dúvida administrador competente, organizador e audacioso, mas sem aquela característica ímpar que diferencia os homens de poder, e que é capaz de mobilizar os que os rodeiam a obedecê-los incondicionalmente. É evidente que nenhum tipo de disputa pelo poder tornou-se pública, ou pelo menos não aconteceu de forma explícita, apenas discretamente, dentro dos gabinetes confortáveis da sede em Booklyn, longe dos olhares dos publicadores comuns.

Engana-se quem acha que Knorr aceitou voluntariamente a divisão do poder com os seus demais companheiros de diretoria, se assim fosse, se era algo com o que concordasse, por que não o fez logo no começo de seu mandato à frente da sociedade? Simplesmente porque ele conhecia suas deficiências, mas também conhecia seus predicados, e no balanço final de tudo achava que conseguiria manter-se no topo com a concretização do enorme plano de crescimento que tinha em mente. Knorr dividiu poder apenas com Frederick Franz - que tornou-se o mentor espiritual da organização e responsável pelos ensinos e doutrinas das testemunhas de Jeová - por absoluta falta de capacidade para isso, assuntos bíblicos não eram a sua seara. O livro Proclamadores nas páginas 93-4, sob o título "Declarando sem cessar as boas novas", mostra as habilidades de Nathan Knorr no campo do planejamento empresarial:

"C. James Woodworth, cujo pai fora por muitos anos o editor da Golden Age (A Idade de Ouro) e de Consolação, disse: “Ao passo que nos dias do irmão Rutherford se dava ênfase a que ‘Religião É Laço e Extorsão’, despontava agora a era da expansão global, e a educação — bíblica e organizacional — começou daí em diante numa escala até então desconhecida pelo povo de Jeová.”

Knorr colocou em prática seu ambicioso plano de crescimento mundial, iniciando com o treinamento intensivo de missionários que foram espalhados por países do terceiro-mundo, passando pelo treinamento das testemunhas de Jeová que adquiriram o status de "publicadores da boas novas" e não mais simples portadores de mensagens de Russell ou Rutherford e concluindo com um extenso programa de criação ou ampliação de filiais com o objetivo de coordenar o trabalho "na obra" mais de perto. Foi plenamente bem sucedido conforme informa o livro Proclamadores na página 106:

"Em 1976, o irmão Knorr tinha trabalhado diligentemente como presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA) por mais de três décadas. Ele viajara ao redor do globo muitas vezes, visitando e encorajando missionários, ensinando e instruindo as equipes de filial. Teve o privilégio de ver o número de Testemunhas ativas aumentar de 117.209, em 1942, para 2.248.390, em 1976."

O ritmo frenético de trabalho imposto pelo novo e dinâmico presidente da Watchtower sacudiu e contagiou os demais companheiros do corpo diretivo e a inteira organização mundial das testemunhas de Jeová nas próximas duas décadas após sua ascensão ao comando. Durante este tempo, o deslumbramento provocado pela enxurrada de números positivos que desaguavam na sede em Brooklyn mantiveram o presidente Knorr impermeável aos anseios de poder de seus companheiros, mas o final da década de 60 trouxe efervescência aos gabinetes de Brooklyn e os sentimentos reprimidos afloraram a superfície, a estrutura do poder na Watchtower Society, que perdurava há quase um século, estava por sofrer grandes mudanças.

 

A COBIÇA AO PODER

 

Na foto ao lado, feita no final da década de 50 na sala da presidência da Watchtower, vemos Nathan Knorr rodeado pelos demais diretores da sociedade jurídica, da esquerda para a direita: Lyman Swingle, Thomas Sullivan, Grant Suiter, Hugo Reimer, o próprio Knorr, Frederick Franz e Milton Henschel. Este grupo, pelo menos no plano teórico, seria o corpo governante espiritual das testemunhas de Jeová, responsável por estar na "dianteira da obra do Reino" da "organização visível de Jeová na terra". A imagem parece transmitir uma certa aura de poder centralizado, com o presidente, ou como os americanos gostam de dizer, o Chairman (algo como o homem da poltrona), em foto típica com os seus diretores em posição subalterna, todavia nesta época as coisas caminhavam para uma situação diferente desta impressão. O presidente da Watchtower Society ainda detinha o controle do leme da organização, mas já não tinha total autonomia, não estava mais cercado por "colaboradores íntimos" quase anônimos e sem direito a expressar opinião, e sim, homens com nome e sobrenome, conhecidos entre as testemunhas de Jeová e que por fim participariam ativamente em tornar o cargo de presidente da sociedade jurídica num mero cargo simbólico. Citando mais uma vez o livro Proclamadores, podemos observar como as mudanças foram aplicadas ao corpo governante no início da década de 70.

Páginas 233-4:

Os servos de Jeová estavam decididos a continuar a se submeter à orientação divina. Numa série de congressos realizados em 1971, dirigiu-se atenção para os métodos administrativos da primitiva congregação cristã. Salientou-se que a expressão pre·sbý·te·ros (homem mais velho, ancião), empregada na Bíblia, não se limitava a pessoas idosas, tampouco se aplicava a todos nas congregações que fossem espiritualmente maduros. Era empregada especialmente num sentido oficial referente aos superintendentes das congregações. (Atos 11:30; 1 Tim. 5:17; 1 Ped. 5:1-3) Esses receberam suas posições por nomeação, em harmonia com os requisitos que se tornaram parte das Escrituras inspiradas. (Atos 14:23; 1 Tim. 3:1-7; Tito 1:5-9) Onde existiam suficientes homens qualificados, havia mais de um ancião na congregação. (Atos 20:17; Fil. 1:1) Esses constituíam “o corpo de anciãos”, todos os quais tinham a mesma condição oficial, e nenhum deles era o membro mais preeminente ou mais poderoso na congregação. (1 Tim. 4:14) Para ajudar os anciãos, explicou-se que existiam também “servos ministeriais”, segundo os requisitos indicados pelo apóstolo Paulo. — 1 Tim. 3:8-10, 12, 13.

Foram prontamente tomadas medidas para harmonizar mais de perto a organização com este padrão bíblico. Começou-se com o próprio Corpo Governante. Aumentou-se o número de seus membros para mais do que os sete que, quais membros da diretoria da Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Pensilvânia, EUA, vinham servindo na qualidade de corpo governante para as Testemunhas de Jeová. Não se fixou determinado número de membros do Corpo Governante. Em 1971, havia 11; por alguns anos chegou a haver até 18; em 1992, havia 12. Todos eles são homens ungidos de Deus quais co-herdeiros de Jesus Cristo. Os 12 membros em exercício do Corpo Governante, em 1992, tinham ao todo mais de 728 anos de serviço de tempo integral quais ministros de Jeová Deus.

Foi decidido, em 6 de setembro de 1971, que haveria rodízio anual do presidente das sessões do Corpo Governante, em ordem alfabética do sobrenome de seus membros. Isto entrou realmente em vigor em 1.° de outubro. Os membros do Corpo Governante fizeram também rodízio semanal em presidir à adoração matinal e ao Estudo da Sentinela com os membros do pessoal da sede. Isto entrou em vigor em 13 de setembro de 1971 quando Frederick W. Franz dirigiu o programa de adoração matinal na sede da Sociedade, em Brooklyn, Nova Iorque.

 

Estava então decretado o fim da linhagem monárquica de poder dentro da Watctower Society, Knorr foi "apeado" do poder em plena cavalgada vitoriosa por seus companheiros, basicamente aqueles mesmos que aparecem na foto acima, acrescidos de outros homens que haviam ganhado destaque dentro da estrutura organizacional e reivindicavam, sem alarde é claro, aquilo que aos seus olhos era mais do que justo, um posto mais compatível com sua ambição. O livro Proclamadores pode alinhar as justificativas acima, pode dizer que o objetivo era o de harmonizar-se aos "métodos administrativos" dos cristãos do primeiro século, pode citar diversos textos bíblicos à guisa de comprovação, mas nas suas próprias linhas o livro deixa escapar os reais motivos:

Proclamadores, Página 108:

O aumento no número de membros do Corpo Governante já havia começado em 1971. Era composto de 17 membros em 1975.

Vê-se então que havia um represamento de egos e vaidades e o rompimento da barragem, leia-se a retirada do poder centralizado no presidente, abriu espaço suficiente para a acomodação de mais homens de destaque no grupo governante. Senão for por este motivo, então por que aumentar tanto e em tão pouco tempo o número de homens no corpo governante? O apóstolo Paulo fala em designar homens quais anciãos nas congregações e não no que o Proclamadores chama de "corpo governante do primeiro século", aliás, o próprio Paulo não fazia parte do tal grupo, mesmo sendo plenamente qualificado como ancião.

As razões "bíblicas" para a mudança efetuada são frágeis e o "ajuste" todo seria impensável no período Russell-Rutherford, homens poderosos e líderes incontestes. Nathan Knorr era vulnerável e sucumbiu à pressão, primeiro porque não tinha a mesma vontade férrea dos antecessores, segundo porque talvez já estivesse com a saúde em declínio no início dos anos 70. Perdeu completamente qualquer tipo de autonomia como presidente da Watchtower, ao mesmo tempo em que os componentes do novo corpo governante passavam a determinar os rumos da organização em prol da qual havia trabalhado intensamente e provocado um gigantesco crescimento em todo o mundo. Este crescimento tem uma parcela de culpa no esvaziamento do cargo principal da sociedade jurídica, mas isto é assunto para um novo capítulo.