Estranhos no Poder 

 

Ao morrer em 1977, Nathan Homer Knorr deixou para seus sucessores, na presidência da Watchtower Society (Sociedade Torre de Vigia), uma organização bem estruturada e, principalmente, muito bem sucedida. Com inteligência e visão empreendedora, havia estendido os tentáculos da Torre de Vigia para praticamente todos os países de mundo, fazendo com que a mesma se tornasse uma poderosa organização, com um eficiente sistema de arrecadação de fundos por meio da distribuição de livros, revistas, brochuras, Bíblias, fitas cassete, etc. Recursos financeiros aos borbotões fluíam para a sede em Brooklyn criando a base necessária para que, à partir da década de 70, fosse possível um maciço investimento na construção ou modernização de parques gráficos nos EUA e nas filiais.

Imagem comum nas filiais da Torre de Vigia em diversos países do mundo nas três últimas décadas: Programa intensivo de novas construções e ampliações resultando num parque gráfico inigualável, que produz mais de 1 bilhão de revistas (A Sentinela e Despertai!) por ano.

O programa ambicioso de crescimento planejado por Nathan Knorr, que soube visualizar o vasto potencial dos paises subdesenvolvidos e teve disposição física para visitá-los quase todos, foi o responsável pelo explosivo aumento no número de testemunhas de Jeová, que eram pouco menos de 300 mil na década de 50 e atinge hoje quase 6 milhões. Tal crescimento gigantesco colocou a Sociedade Torre de Vigia no mesmo nível de riqueza de muitas empresas multinacionais de diversas áreas, só para citar um exemplo, a empresa Colgate-Palmolive que possui centenas de fábricas espalhadas pelo mundo, é líder de vendas com diversos produtos, tem um exército de milhares de funcionários, gasta milhões de dólares em pesquisa, desenvolvimento de produtos e propaganda, fatura cerca de US$ 6 bilhões por ano, enquanto a Torre de Vigia "sem fins lucrativos" alcança cerca de 1/4 deste valor. Knorr soube vislumbrar esta grandeza e soube iniciar o processo que possibilitou a realização de seu projeto, mas não soube prever o alto preço que ele e seus sucessores pagariam: A perda do poder. 

Ocorre que a Sociedade Torre de Vigia foi inicialmente apenas um veículo, um meio através do qual primeiro Charles Taze Russell e depois Joseph Rutherford exerceram sua vaidade pessoal e seu anseio de poder sobre outros homens, o prazer inerente neles de dominar sozinhos os destinos de multidões. Porém, quando foi transformada por Knorr numa organização mundial, com volume de recursos financeiros respeitável, a Sociedade Torre de Vigia passou a ser algo mais do que simplesmente um meio usado para dominar espiritualmente milhares de pessoas, passou a ser um empreendimento, uma corporação capaz de utilizar esta mesma influência espiritual já plenamente estabelecida em milhões de adeptos, para angariar recursos financeiros cada vez em maior monta. Sem sombra de dúvida, a capacidade "contributiva" já provada das testemunhas de Jeová e de seus associados e o sistema bem montado de arrecadação de fundos da Torre de Vigia são extremamente atraentes para muitos homens.

A propriedade de imponentes edifícios e até de quarteirões inteiros no bairro de Brooklyn e adjacências, na cidade de New York, reflete o poderio econômico da Sociedade Torre de Vigia no início deste milênio.

 

Inicialmente, como já abordado no artigo anterior, Nathan Knorr perdeu autonomia para aqueles que eram seus pares na diretoria da Sociedade, com a montagem de um corpo governante e a adição de outros homens, inclusive estrangeiros, ao grupo, depois de sua morte Frederich Franz e Milton Henschel sucessivamente, assumiram como presidentes inócuos,  emasculados, ocupando cargos desprovidos de poder, esvaziados, meramente para cumprir exigências legais, porém sem poderes para decidir sozinhos o posicionamento da mesa nas suas salas, quanto mais os rumos de uma poderosa organização mundial. O pior entretanto ainda estava por vir e atingiria em cheio o mandato de Henschel, alterando a estrutura organizacional centenária da Sociedade Torre de Vigia.

No ano passado (2000), foi anunciado à imprensa uma alteração na estrutura da Torre de Vigia, os membros do corpo governante, Henschel entre eles, não mais fariam parte da diretoria da sociedade jurídica, para que pudessem dedicar-se exclusivamente a prover o "alimento espiritual" às testemunhas de Jeová. Um anúncio que podemos considerar totalmente desnecessário, pois é claro que já há alguns anos os homens do corpo governante não apresentam condições físicas e mentais, devido a idade avançada, para comandar uma organização das proporções adquiridas pela Torre de Vigia. Algumas mudanças de comportamento e em algumas doutrinas mais contestadas já apontavam para isso: mentes mais jovens e interessadas em diminuir a rejeição da religião junto as autoridades para evitar ações restritivas na forma de impostos e tributos.

O mesmo comunicado informa os nomes dos homens que assumiram o comando das sociedades jurídicas existentes e de várias novas que foram criadas, sendo que, no comando da principal delas aparece o nome de Don Adams como presidente.

Don Adams

Quem? Don Adams. Certamente a quase totalidade das testemunhas de Jeová nunca ouviu falar desta pessoa. Um estranho, juntamente com dezenas de outros igualmente desconhecidos assume o comando da Sociedade Torre de Vigia, tendo nas mãos os destinos de quase 6 milhões de pessoas em todo o mundo, pessoas que tem fé cega e aceitam sem quaisquer questionamentos as orientações oriundas da sede em Brooklyn por mais absurdas que sejam, ao ponto de sacrificarem suas próprias vidas para cumprir tais orientações. Neste ponto alguém pode argumentar que as "orientações espirituais" ainda são responsabilidade do corpo governante, mas, será que são mesmo? Será que aqueles homens, quase todos na faixa de noventa anos ainda são lúcidos para isso? É muito difícil acreditar que sim, basta observar a nossa volta e procurar um idoso com esta idade que apresente condições físicas e mentais para tanto, será quase impossível achar um, quanto mais uma dezena deles juntos.

A conclusão final é esta: Russell era a Sociedade pois tinha o poder de influenciar outros homens a segui-lo, Rutherford também tinha e deu continuidade a esta forma de atuação, Knorr não tinha tal poder mas desbravou fronteiras e fez da Sociedade um grande negócio, Franz era o homem da interpretações proféticas e por isso conseguiu manter-se ainda que como presidente simbólico, Henschel não tem o poder influenciador, não tem carisma, não tem visão empresarial, por isso cedeu o lugar para Don Adams, uma incógnita, pela primeira vez em mais de um século de existência a Sociedade Torre de Vigia e de resto todas as testemunhas de Jeová, tem um estranho a comandá-los.