WATCHTOWER S/A III

 

Algum tempo atrás escrevi uma frase, em um dos artigos deste site, que tem absolutamente tudo a ver com as alterações recentes na estrutura da Sociedade Torre de Vigia, onde os idosos membros do corpo governante deixaram de ocupar posições na diretoria da sociedade jurídica:

“A Sociedade Torre de Vigia precisa manter as Testemunhas motivadas e com a moral alta para continuar se beneficiando dos dividendos do trabalho delas, mesmo não havendo mais a cenoura que as mantinham dioturnamente despertas e operosas: O breve paraíso prometido”.

Lembro-me de já ter lido, que o maior problema enfrentado pelos generais franceses durante a Primeira Guerra Mundial foi a perda do elan (combatividade, motivação) dos seus soldados, provocada pela traumática e terrível guerra de trincheiras, onde lutava-se num mesmo local, sem nenhum avanço ou recuo significativo, enterrados em buracos fétidos. Batalhas como a do Somme e a de Verdun – em território francês - foram travadas em faixas estreitas de terreno, duraram vários meses e provocaram enorme carnificina. Em cada uma delas morreram cerca de 1 milhão de soldados de ambos os lados, sem que nenhum dos exércitos adversários conseguisse obter vantagens palpáveis até praticamente o final delas. A mesma rotina se repetia dia e noite: os soldados de um exército saíam de suas trincheiras e corriam de “peito aberto” em direção às trincheiras do inimigo através da “terra de ninguém”, em meio aos obstáculos e emaranhados de arames farpados colocados com o objetivo de dificultar o avanço, tornando-se alvos humanos dos disparos adversários, granadas de morteiros e projéteis de canhões. No fim do ataque, de qual lado fosse, a cena era sempre a mesma: Alguns sobreviventes, centenas ou até milhares de mortos e mutilados, e nenhum resultado prático. Essa matança sem sentido derrubou a moral dos soldados franceses e calcula-se que milhares deles desertaram e fugiram da frente de batalha.

 

 

 

 

Vista da “terra de ninguém” que separava as trincheiras inimigas

 

A Sociedade Torre de Vigia sempre apresentou, como motivação principal para as testemunhas de Jeová, o “paraíso em breve” à porta. Não algo que ocorreria num futuro indeterminado, e sim algo visível, que podia ser calculado com razoável precisão e projetado para daí a poucos meses ou pelo menos pouquíssimos anos, sem dúvida, uma bela e suculenta “cenoura”, atrás da qual milhares e por fim milhões de pessoas alinharam-se e correram através da “terra de ninguém”, sujeitando-se a tudo, discriminações, críticas e, em muitos casos, a privação da família e de amigos anteriores. Abdicando de carreiras profissionais e de objetivos pessoais em prol do objetivo final comum: Vida eterna no paraíso terrestre. Dia após dia, mês após mês, ano após ano, as Testemunhas de Jeová partiram para o ataque, munidos de pastas e bolsas repletas de “armas espirituais” para conquistar novos territórios, novos adeptos e a vitória final: Vida eterna no paraíso terrestre. 

Repentinamente, sem nenhum tipo de aviso prévio, seus comandantes mudaram o sentido da batalha. Precisam continuar lutando para bombardear os inimigos com suas “armas espirituais” e conquistar novos adeptos, porém a vitória final - a vida eterna no paraíso terrestre - não pode ser conquistada em breve, na realidade nem se sabe quando poderá vir. Como conseqüência lógica, o elan das Testemunhas de Jeová tem diminuído a olhos vistos, elas tem conseguido um número menor de novos adeptos do que em períodos anteriores similares e tem voltado de mão vazias para suas trincheiras, sabendo que no próximo ataque por mais esforçados que sejam, não conseguirão conquistar o prêmio desejado. A motivação está em queda livre, a intensidade do seu trabalho diminui aos poucos e a deserção, apesar de ainda pequena em números absolutos, é constante e cresce em proporções geométricas. 

Algo precisa ser feito, o crescimento constante é um requisito básico para que o volume de recursos possa continuar fluindo para a Torre de Vigia, para compensar os investimentos altíssimos em novos prédios, novas gráficas, novas máquinas e equipamentos “hi-tech”, que foram projetados visando números futuros, e só são justificáveis se estes números forem maiores. O arrefecimento no ritmo da atividade de “pregação” e de “colocação” de literaturas e outros produtos é desastroso para os planos da Torre de Vigia e poderá ter conseqüências fatais no longo prazo.

No exemplo citado no início, os franceses trocaram o marechal-de-guerra, o comandante geral do exército francês, que imediatamente adotou o rito sumário de julgamento e fuzilamento dos desertores na frente dos demais soldados, para incutir a vergonha e, principalmente, o medo, como motivações adicionais para suas tropas, obtendo resultados positivos. A Sociedade Torre de Vigia pelo visto, mudou o seu marechal-de-guerra e provavelmente novas táticas para elevar a motivação e o moral das testemunhas de Jeová estão a caminho. 

Torna-se importante ressaltar que é a primeira vez na história da Torre de Vigia, em que os cargos de diretoria da sociedade jurídica não serão ocupados por membros do corpo governante e, principalmente, que o presidente da mesma não será o homem mais importante dentro da hierarquia espiritual da organização das Testemunhas de Jeová. Primeiro Russell, depois Rutherford, Knorr, Franz e por último Henschel, sempre o presidente da sociedade jurídica era, ao mesmo tempo, um presidente em sentido doutrinal, um líder espiritual não declarado, mas aceito intimamente como tal por cada uma das Testemunhas em todo o mundo.

É difícil prever as mudanças que implementarão os novos executivos da sociedade jurídica, mas é claro que doravante, as suas atitudes privilegiarão - ainda mais do que agora - as “necessidades materiais” da Torre dde Vigia, em detrimento das “necessidades espirituais” de seus adeptos. É preciso motivar o enorme exército de Testemunhas de Jeová para impedir a deserção e a queda da produtividade, mesmo que para isso seja necessário “fuzilar” os mais desalentados.