Universidade Católica de Brasília
Comunicação Social - Teorias da Comunicação
Prof. Eufrasio Prates


TEORIAS COMUNICATIVAS SEMIÓTICAS

Fábio Monken Mascarenhas

Como sabemos, a ciência (e também teoria comunicacional) semiótica é ainda muito jovem e não se prende a idéias ou conceitos fechados como outras ciências mais antigas. Sendo mais flexível e oferecendo, então, uma maior abertura a novas concepções, faz-se possível até mesmo a formação de novas idéias sobre o que vem a ser a própria semiótica e qual o seu campo de aplicação, não desconsiderando, é claro, tudo o que já foi dito sobre a mesma. Esse é o maior objetivo daqueles que se dedicam ao estudo dessa ciência: através de novos pensamentos e estudos poder criar novas perspectivas que poderão, ou não, mudar aquilo que se acredita hoje saber a respeito da semiótica, afinal toda ciência jovem está mais sujeita a mudanças. Portanto este deve ser, também, o nosso objetivo à medida que nos dedicamos a conhecer essa ciência tão nova, mas nem por isso menos interessante que as muitas outras existentes.

No entanto esse não será um caminho dos mais fáceis, isso devido ao fato de que, por ser uma ciência mais recente, a semiótica não dispõe de tantos recursos para os seus estudos como tantas outras ciências. Isso torna nossa caminhada árdua, porém, recompensadora.

RESUMO

A Semiótica foi concebida há muito tempo, porém, não era considerada uma ciência; contudo, devido principalmente a um grande pensador da era moderna, e acima de tudo um cientista, Charles Sanders Peirce, esse método de estudo, essa nova forma de enxergar as coisas desenvolveu-se ainda mais e conquistou o status de ciência. Peirce a concebeu como Lógica, que era a grande paixão de sua vida.

Através dos estudos realizados por Peirce a Lógica ou Semiótica tornou-se a ciência geral de todos os signos e linguagens possíveis. Sendo assim ela se faz muito abrangente, podendo-se estudar praticamente tudo sob um ponto de vista semiótico. Isso ofereceu, principalmente aos profissionais da área de comunicação, muitos novos recursos para se estudar, por exemplo, como se dá a interação entre tudo e entre todos. Esses estudos são especialmente interessantes aos profissionais da área de comunicação e devido a isso a Semiótica acabou por tornar-se a base de uma das teorias comunicacionais. Essa teoria pode ser dividida em duas partes: a semiótico-informacional, a primeira introdução da Semiótica nas teorias da comunicação e a semiótico-textual, esta já mais evoluída que a anterior.

INTRODUÇÃO

Uma das possíveis definições de Semiótica poderia ser: ciência que estuda os signos e o poder comunicativo dos mesmos. Sim, esta seria uma das muitas interpretações possíveis e existentes acerca da Semiótica, no entanto, este conceito é muito abrangente. Então, poderíamos subdividir a Semiótica em vários setores como: a "semiótica-biológica", sendo aquela que estuda os signos, e conseqüentemente as linguagens, dos sistemas biológicos; a "semiótica-estética", como aquela que estuda os signos e a linguagem das artes; e assim por diante. Poderíamos citar uma lista enorme de "semióticas menores", mas a nós, profissionais ou futuros profissionais da área de comunicação, o que realmente interessa é a semiótica como teoria comunicacional. E se nos propomos a estudar a teoria comunicacional semiótica é interessante que primeiramente conheçamos um pouco sobre a Ciência Semiótica a fim de facilitar o entendimento desta teoria da comunicação.

1. O QUE É SEMIÓTICA?

O que é Semiótica? É uma ciência? O que a Semiótica estuda? Essas são perguntas que tentarei responder ao longo deste capítulo, além de, é claro, fazer uma breve viagem por suas origens. Porém, o que aqui será apresentado não será exatamente mais uma definição do que é a semiótica e o que ela estuda e sim mais uma interpretação da mesma.

1.1. É a Semiótica uma Ciência?

A resposta a essa pergunta é afirmativa, a Semiótica é uma ciência. Situada na área de ciências humanas, a Semiótica estuda, segundo palavras de Lúcia Santaella (1),"toda e qualquer linguagem" (2). Note bem, Santaella diz linguagem e não língua. A linguagem não necessariamente tem que ser verbal ou escrita, pode ser gestual, visual, sonora (mas não verbal) , entre outras.

Considerando que a Semiótica estuda toda e qualquer linguagem, poderemos facilmente chegar à mesma conclusão que Santaella: que o campo de indagação da Semiótica "é tão vasto que chega a cobrir o que chamamos de vida" (3), afinal, não haveria vida caso não existissem informações no sistema biológico, e tais informações não poderiam ser transmitidas de outra forma senão por algum tipo de linguagem. E embora o campo de abrangência da Semiótica seja tão vasto, isto não significa dizer que ela irá invadir o campo de ação de outras ciências.

"Nos fenômenos, sejam eles quais forem (...) a Semiótica busca divisar e deslindar seu ser de linguagem, isto é., sua ação de signo. Tão só e apenas. E isso já é muito". (4)

A ação de signo que a Semiótica busca explicar é tão somente o que determinado fenômeno pode representar para alguém, afinal, nas palavras do próprio Peirce (5), um signo é "algo que, sob certo aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa para alguém" (6).

Provavelmente essa é e será a mais concreta e ao mesmo tempo mais abstrata idéia de signo que alguém já concebeu.

1.2. Origens da Semiótica

Os signos, alicerces de toda e qualquer linguagem, já são objetos de estudo a mais tempo do que se imagina. Platão, por exemplo, em seus diálogos sobre a linguagem já demonstrou preocupação em definir o que seria signo e "John Locke postulou uma ‘doutrina dos signos’, a Semeiotike" (7). Alvo de investigação de vários pensadores, os signos ganharam uma forma própria de estudo chamada por alguns de Semeiotike, por outros de Semeiotica ou ainda Semiotik e até de Semeiologia. Estes termos derivam do grego semeion (signo) e sema (sinal). No entanto, a ciência que chamamos hoje de Semiótica não foi tão facilmente reconhecida como uma ciência, foi um caminho difícil; especialmente para Peirce.

Como cientista, Peirce nutria verdadeira paixão pela lógica, o que o levou a dedicar-se para que fosse reconhecida como ciência. Muito tempo mais tarde ela o foi, ainda que implicitamente. Desde seu início Peirce concebeu a Lógica como nascendo no campo de uma teoria geral dos signos e a considerou como um ramo da Semiótica, porém, mais tarde adotou uma concepção mais ampla e quase coextensiva a uma teoria geral de todos os tipos de signos possíveis. A Semiótica peirceana foi concebida como lógica. Foi aos poucos, emergindo gradativamente, que veio a nascer sua teoria lógica, filosófica e científica da linguagem: a Semiótica. Um diálogo entre um só homem, um pensador solitário, e 25 séculos de filosofia ocidental que são revolucionados em seus alicerces, como menciona Santaella (8). Porém, não só Peirce dedicou-se a uma teoria geral dos signos; justiça seja feita, ele iniciou tais estudos ainda no século XIX, mas outros estudiosos também dedicaram-se a esses estudos e, provavelmente, Ferdinand Saussure tenha sido o mais importante destes no século XX.

Saussure chamou por Semiologia a ciência geral dos signos. Ele a propunha inicial- mente como um ramo da psicologia social que englobaria a própria lingüistica. Para os "seguidores" da Semiologia, ela seria a teoria geral dos signos, "que trata dos aspectos semióticos comuns a todos os sistemas semióticos, enquanto a Semiótica seria um sistema de signos com estruturas hierárquicas análogas à linguagem" (9). Felizmente esse é um debate já oficialmente superado, embora, a Semiologia e a Semiótica ainda compartilhem diferenças.

2. A SEMIÓTICA COMO TEORIA COMUNICACIONAL

A Semiótica é uma ciência extremamente abrangente como já foi citado; logo, como toda ciência, sofre subdivisões e adaptações a determinadas situações. Uma dessas adaptações ou subdivisões seria o modelo teórico comunicacional semiótico. Esse modelo introduz um ponto de vista semiótico e adapta-se como teoria comunicacional, ou seja, através de bases semióticas ele tenta explicar de uma forma mais completa como se dá a comunicação (ou interação) entre destinatário e emissor seja pelos mass media ou não. Esse modelo possui dois momentos distintos, são eles: a teoria semiótico-informacional e a teoria semiótico-textual.

2.1. A Teoria Semiótico-informacional

Essa teoria surgiu devido ao fato da significação começar a se tornar algo imprescindível no esquema informacional anterior, a teoria da informação. Como a Semiótica aborda justamente este campo, o da significação, aí nasceu o que se chamou de teoria semiótico-informacional. Agora a linearidade da transmissão dependia de fatores semânticos, estes introduzidos através do conceito de código (10). A partir deste momento a questão da descodificação, de como o público interpreta as mensagens, cria sentido para essas mensagens recebidas através da comunicação de massa, passa a ser objeto de estudo. Os mass media agora não podiam de modo algum prejudicar ou dispensar os mecanismos de reconhecimento e atribuição de sentido.

O mais interessante é que agora o espaço entre a mensagem e o significado que foi atribuído a ela pelo destinatário tornou-se bem mais complexo. Aí entram pontos de vista tanto semiótico quanto sociológico a fim de justificar a interpretação feita pelo destinatário. Segundo o semiótico o grau de partilhamento das "competências relativas aos vários níveis, que criam a significação da mensagem" é um fator determinante assim como as "variáveis ligadas aos fatores de mediação entre indivíduo e comunicação de massa" que ganham forma, do sociológico (11).

Porém, apesar de ter provocado significativas mudanças no esquema informacional essa teoria apresenta um pequeno, mas grave defeito: encontra-se restrita às análises das mensagens, da estrutura e dos seus códigos, ou seja, os pontos emissor e destinatário quase não eram abordados, somente a mensagem.

2.2. A Teoria Semiótico-textual

Enquanto a teoria semiótico-informacional tratava do mecanismo de comunicação tanto interpessoal quanto de massa, a textual preocupa-se com algumas características estruturais que são específicas da comunicação de massa. Além disso nessa teoria, ao contrário da anterior, não é a mensagem o principal objeto de estudo e sim a relação comunicativa que é construída em torno de "conjuntos de práticas textuais".

A teoria semiótico-textual estuda a dinâmica que existe entre o emissor e o destinatário, "ligada à estrutura textual e nela incluída, mostrando como essa estrutura contempla os percursos interpretativos que o receptor tem de atualizar" (12). O que isso quer dizer? Que essa teoria preocupa-se não só com a mensagem mas também com o entendimento da mesma por parte do destinatário. E como isso acontece ? pensa o leitor. Bem, poderíamos dizer que isso ocorre a todo instante com todos nós. Segundo essa teoria o emissor, quando vai transmitir uma mensagem, não se preocupa apenas com aquilo que quer transmitir, preocupa-se também necessariamente em transmitir da forma mais acessível e compreensível que puder sem gerar ambigüidades ou entendimentos equivocados. Essa é a preocupação desta teoria : transmitir a mensagem e fazer com que ela seja compreendida corretamente pelo destinatário, apenas isso.

CONCLUSÕES

A Semiótica, que é uma ciência tão nova, sempre esteve presente em nossas vidas desde que nascemos (no momento da fecundação) até os nossos momentos atuais, cotidianos e apesar disso demorou tanto a ser reconhecida como ciência. Mas o foi graças, principalmente, a um homem que dedicou grande parte de sua vida a seu estudo, Charles Sanders Peirce. Prestamos nossas homenagens a esse homem e a tantos outros que antes e depois dele vieram a contribuir para a construção da Semiótica. É incrível como se pode analisar praticamente tudo a partir da Semiótica. A Semiótica como teoria comunicacional em particular, pode nos ensinar tanto sobre como se dá essa constante interação na qual nos mantemos quase em tempo integral, de forma tão técnica que chega a proporcionar em certos momentos uma certa dificuldade. No entanto, se você prestar bastante atenção perceberá que apesar sentir dificuldades em certos momentos estará, aos poucos, apaixonando-se por esta ciência, por esta nova forma de enxergar o mundo, essa nova forma de interagir com o mundo.

BIBLIOGRAFIA

PRATES, Eufrasio. Semiótica: What the hell is that? Brasília, n/e, 1997.
SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo, Brasiliense, 1983.
WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa, Presença, 1995.

NOTAS

(1) Professora e coordenadora do programa de estudos pós-graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. (voltar)
(2) Lúcia Santaella, O que é Semiótica, São Paulo, Brasiliense, 1983, p.10. (voltar)
(3) Id., Ibid., p.13. (voltar)
(4) Id., Ibid., p.14. (voltar)
(5) Charles Sanders Peirce - (1839-1914) - filósofo-cientista-lógico, grande estudioso e contribuidor para a Semiótica. (voltar)
(6) Charles Sanders Peirce, Semiótica e Filosofia, São Paulo, Cultrix, 1972, p.94. (voltar)
(7) Eufrasio Prates, Semiótica - What the hell is that ?, Brasília, n/e, 1997, p. 1. (voltar)
(8) Lúcia Santaella, O que é Semiótica, São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 23 - 24. (voltar)
(9) Eufrasio Prates, Ibid., p. 3. (voltar)
(10) Mauro Wolf, Teorias da comunicação, Lisboa, Presença, 1995, p.109. (voltar)
(11) Id. Ibid., p.110-111. (voltar)
(12) Id. Ibid., p.115. (voltar)


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